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Na década de 70 Gal
Costa já cantava que no “No
porto da Barra todo mundo
agarra, mas não sabe amar”. Para uma cidade que não consegue manter um point por mais de um verão, o Porto se
consagra como um ícone de resistência e de vanguarda da contracultura baiana.
Nos seus poucos de mil metros de extensão, a praia reúne - há décadas - a maior
fauna já vista em qualquer outro lugar da histórica Salvador.
Dos hippies velhos às bichas antenadinhas, dos amantes
do reggae aos adeptos da música eletrônica, todo mundo bate ponto no local.
Neste pequeno território alternativo é possível ver a sorte nas cartas de tarô,
fumar um “back” sem patrulha e, assistir a um dos mais belos pôr-do-sol do mundo.
Isso se não for surpreendido pela avalanche de surrupiadores que infestam o
cartão postal mais belo de Salvador.
Neste inusitado cenário que serve de inspiração para
artistas e turistas é possível renovar seu guarda-roupa, provar as mais
saborosas iguarias da terra e, claro, ficar informado sobre tudo que vai
ocorrer na noite baiana. Há vendedores por todos os lados, muitas vezes
importunando aqueles que querem apenas desfrutar daquele éden profano.
Embora não existam linhas para separar uma tribo da
outra, os representantes de cada uma delas vão aos poucos estendendo suas
cangas ou instalando suas cadeiras de frente para a Ilha de Itaparica,
delimitando democraticamente seus espaços.
Como num mosaico, as cores refletem sob o sol
escaldante e aos poucos a praia vai tomando forma e ganhando charme. O
movimento começa cedo quando um grupo de idosos desembarca na praia para a
tradicional nadada e a moderna hidroginástica. As águas calmas e transparentes
do Porto permitem a prática dessas e de outras atividades físicas.
A rotatividade é muito grande nesse pedaço da baía de
todos os santos. Durante todo o dia a chegada e saída de freqüentadores
permitem que a praia permaneça constantemente habitada. Seja com os jogadores
de peteca ou com os de volley, o movimento só cai depois de meia-noite. Isso
mesmo! Bem iluminada, não são poucos os banhistas que aproveitam a
tranqüilidade da água para um mergulho noturno.
Em cima, a pegação corre solta. Como biba tem arte,
aproveitam a pureza das águas para mergulhar e apreciar os exibicionistas que
costumam se auto-acariciar embaixo d´água. Não raro, no final da tarde os voyeur´s descem as escadarias portando
seus possantes óculos de mergulho e se jogam água abaixo. Nas areias, turistas
e nativos dividem espaço no ínfimo terreno quente observando a movimentação
constante.
De domingo a domingo, a rotina é a mesma. Do lado do
monumento de Tomé de Souza, os gays e afins se acotovelam em busca de um melhor
ângulo que permitam-lhes ver e serem vistos. Corpos torneados, bombados ou
rechonchudos, há espaço pra todo mundo. Personagens como Boy, Marcos e sua
indefectível calça jeans, João e seu prestigiado camarão e Papai Noel a gritar
por Secretário, dá de tudo naquele sagrado sítio.
O clima de azaração gay parece não incomodar às
famílias e idosos que interagem perfeitamente com a cena. A corrida por um
lugar ao sol é democrática e saudável. Mas o “frete” não se limita à beira-mar.
Do alto da balaustrada, a visão é privilegiada e os mais espertos detectam seu
alvo de cima e descem em seguida para atirar.
O clima de liberdade e sedução reina no Porto da Barra
e encanta turistas deslumbrados com o jeito de ser do baiano. Presentes o ano
inteiro na Bahia, é no verão que eles proliferam em busca do sexo livre e da
diversão pura. Os habituès aproveitam
esta época do ano para renovar a “paisagem” e registrar no currículo uma
aventura nacional ou internacional.
Mas nem tudo é bacana naquele pedacinho do paraíso. A
alta freqüência dos turistas – no geral europeus de baixa categoria – tem
gerado problemas como o tráfico de drogas à luz do dia e a exploração sexual.
Consequentemente, o índice de violência tem crescido assustadoramente, sem que
as autoridades locais tomem quaisquer providências.
Nem as bibas mais destemidas arriscam caminhar pela
madrugada naquele espaço que já foi símbolo da liberdade e da pegação. Se
vacilar, esse terreno sagrado estará comprometido até durante o dia. E os gays
da Bahia perderão o território mais liberal de Salvador.
- Se esta situação não for contornada, a sugestão é
apelar para nossa baiana cantante fazer uma paródia com a música que eternizou o Porto. Poderia
ser algo assim: "Domingo no Porto da Barra, a galera agarra pra poder roubar".
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