Sexologia

24.06.2007- Preconceito??? Já bastam os que vem de fora

São cada vez mais, um pouco por todo o mundo, as associações que se dedicam a combater o preconceito que ainda impera relativamente à homossexualidade. Quanto mais convivo com homossexuais, em especial os homossexuais masculinos, mais me convenço que, a breve trecho, teremos que criar associações que combatam o preconceito dos homossexuais contra os próprios homossexuais.

São inúmeras as fobias que os homossexuais sentem relativamente aos seus “companheiros” de orientação sexual… “não quero proximidades nem confianças com bichonas (referindo-se aos homens efeminados) ”; “a bicha é negra”; “os travestis são a causa da reputação negativa que os homossexuais têm”; “a bicha é alta, magra, baixa, gorda, nova, velha…”; “a bicha tem a pila pequena/grande”; “a bicha é passiva/átivo…”
 
Podia continuar a enumerar muitos dos impropérios que já ouvi saírem das bocas de ilustres homossexuais porém, a ferida em que quero tocar já sente a pressão do meu dedo.
Este artigo assenta sobre a dualidade: passivo/ativo (que na verdade deverá ser entendida como uma “trialidade”: passivo/ativo/versátil). Ser ou não ser – Ser ativo ou não ser… ser passivo ou não ser… ser versátil ou não ser – that’s the question!!! E é uma questão que anima debates em todos os grupos de homossexuais que conheço. Parece que hoje há uma pergunta quase inevitável numa relação, seja sexual ou afetiva, entre dois homens: qual a preferência na cama?
As posições mais radicais são sempre marcadas por aqueles que se dizem 100% ativos: “do meu _ _ só sai, aqui não entra nada”… quando os ouço dizer isto fico sempre à espera que, em seguida, cuspam no chão e cocem os testículos para provarem que são machos. Muitos dos que se consideram 100% ativos são, na verdade, aqueles que não querem assumir que gostam de homens mesmo estando com eles… acham-se superiores, e procuram, em exclusivo, o prazer próprio. Sentem-se mais homens por serem a parte que domina o ato sexual. Esta é uma corrente de pensamento generalizada nas, menos desenvolvidas, sociedades latinas. Para os anglo-saxónicos, sempre mais à frente na linha do pensamento, este sentimento seria motivo de anedota. E não passa disso mesmo: uma anedota, já que, tão homossexual é aquele que é penetrado (passivo) como o que penetra (ativo), basta para tal pensarmos na origem etimológica da palavra.
 
Etimologicamente a palavra homossexual é formada pelos vocábulos homo e sexu. Homo, do grego hómos, que significa semelhante, e sexual, do latim sexu, que é relativo ou pertencente ao sexo. Refere-se à preferência de praticar sexo com pessoas do mesmo género – homem com homem ou mulher com mulher.

Ver inferioridade e submissão no homem passivo é puro preconceito, é ideia ridícula, absurda e ultrapassada unicamente capaz de ser gerada na mente de pessoas imaturas e mal resolvidas sexualmente. Esta inferioridade não existe porque cada um tem o poder nas mãos… o ativo precisa do passivo para se satisfazer sexualmente e se este último disser que não… alguém acaba a praticar trabalhos manuais.
 
O que mais desagrada neste tipo de envolvimento é a obrigatoriedade de estar na cama com o guião previamente escrito. Quando penso no homem 100% ativo não sou capaz de afastar o pensamento das mulheres hetéros que passam uma vida inteira sem saber o que é atingir o climax. O homem preocupa-se apenas com o seu próprio orgasmo descurando o prazer da sua companheira. Também entre os homossexuais isto acontece...

Ser versátil???
Não quero com tudo o que já disse isentar o homem passivo de culpas. Nos últimos tempos assistiu-se à redução drástica de homens passivos porque estes, coagidos pelo preconceito que já descrevi, começaram a auto-denominar-se como versáteis, quando na verdade não sentem prazer em penetrar um parceiro e muitas vezes nem o conseguem fazer. Assumamos os nossos papeis… ser passivo é ser corajoso, é ser o elo forte do momento sexual, é ser aquele que suporta o peso, é ser aquele que alia ao prazer a dor, é ser aquele que não se limita à busca do prazer egoistamente individual.

Do parágrafo anterior fica outro mote: versáteis! Que classe é esta mais estranha? Muitos defendem que a versatilidade não existe, que na verdade aquele que se diz versátil é passivo. Aqui há um fundo de verdade. Ficar eternamente encima do muro é impossível… ou pulamos em frente ou saltamos para trás. Isto, porém, não significa que a versatilidade não exista.
 
Existe sim um lado preponderante na versatilidade, ou seja, o homem versátil sempre tem uma preferência no que à postura sexual diz respeito. Ter igual prazer em ser ativo ou passivo é difícil, diria mesmo impossível.
 
A versatilidade sexual existe e muito bem: ser versátil é ser completo, é não ter medo de ser penetrado e não falhar na hora de penetrar, é explorar a sexualidade em todos os seus pormenores, é não ficar agrilhoado a uma única e redutora posição sexual, é virar o jogo a meio sem ter que pedir permissão, é o negar de todos os tabus - “não ponhas a mão aí, não me toques aqui”, é maximizar o prazer de ambos se ambos assim o desejam, é não ser limitado e não limitar o nosso parceiro.

A esta altura do meu pensamento surgem aqueles que estão a dizer aos seus próprios botões ou, quem sabe, em voz alta: “não gosto de rótulos” ou, dando largas a um pensamento mais elaborado: “até parece que o mundo tem sempre que estar dividido entre o "bem" e o "mal", entre "heróis" e "bandidos", que necessidade estúpida a de dividir tudo, de classificar tudo… aprenderam bem a lição do grande filósofo Aristóteles que tinha a necessidade de classificar todas as coisa”. Estes são os que se acomodam ao incómodo de refletir sobre o assunto, são, os já mencionados por mim, 100% ativos que, na verdade, não querem assumir que gostam de homens. Sejamos realistas!
 
Todos os substantivos são passíveis (não passivos) de serem adjetivados. Quero com isto dizer que podemos até inventar novas palavras para satisfazer os que não gostam de rótulos porém, o homem que em determinado momento, durante o ato sexual, é penetrado é passivo e aquele que penetra é ativo. E não adianta dizerem que aquele que está a ser penetrado pode ser ativo nas atitudes porquê entramos em esferas de avaliação em nada igualáveis. O adjetivo continua a estar para um substantivo de ação no que ao ser penetrado diz respeito, ou limitar-se-á a classificar uma postura.

Atabalhoando um resumo (porque muito mais haveria a dizer) nos contatos íntimos deve prevalecer a vontade das duas partes envolvidas. Todos temos preferências que não diminuem nem engrandecem ninguém.
 
Quando as expectativas de ambos são atendidas não importa quem foi o quê. Mas quando isto não acontece, e se de relacionamentos que se prolongam no tempo falamos, o tesão dura apenas enquanto a parte que se sujeita tiver força interior, amor, ou acreditar que vale a pena lutar pela pessoa com quem se vive fora da cama… Mas não tenhamos ilusões… mais cedo ou mais tarde a necessidade de plena satisfação sexual vem ao de cima e o fim é inevitável…

Sejamos passivos, ativos, versáteis ou outra qualquer adjetivação que me tenha escapado MAS, respeitemo-nos mutuamente e unamo-nos em torno daquilo que é essencial: somos HOMOSSEXUAIS e preconceitos já bastam os que vêm de fora.
 
 

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