São cada vez mais, um pouco por todo o mundo, as associações que se dedicam a
combater o preconceito que ainda impera relativamente à homossexualidade. Quanto
mais convivo com homossexuais, em especial os homossexuais masculinos, mais me
convenço que, a breve trecho, teremos que criar associações que combatam o
preconceito dos homossexuais contra os próprios homossexuais.
São inúmeras as
fobias que os homossexuais sentem relativamente aos seus “companheiros” de
orientação sexual… “não quero proximidades nem confianças com bichonas
(referindo-se aos homens efeminados) ”; “a bicha é negra”; “os travestis são a
causa da reputação negativa que os homossexuais têm”; “a bicha é alta, magra,
baixa, gorda, nova, velha…”; “a bicha tem a pila pequena/grande”; “a bicha é
passiva/átivo…”
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- Podia continuar a enumerar muitos dos impropérios que já ouvi
saírem das bocas de ilustres homossexuais porém, a ferida em que quero tocar já
sente a pressão do meu dedo.
Este artigo assenta sobre a dualidade:
passivo/ativo (que na verdade deverá ser entendida como uma “trialidade”:
passivo/ativo/versátil). Ser ou não ser – Ser ativo ou não ser… ser passivo ou
não ser… ser versátil ou não ser – that’s the question!!! E é uma questão que
anima debates em todos os grupos de homossexuais que conheço. Parece que hoje há
uma pergunta quase inevitável numa relação, seja sexual ou afetiva, entre dois
homens: qual a preferência na cama?
- As posições mais radicais são sempre
marcadas por aqueles que se dizem 100% ativos: “do meu _ _ só sai, aqui não
entra nada”… quando os ouço dizer isto fico sempre à espera que, em seguida,
cuspam no chão e cocem os testículos para provarem que são machos. Muitos dos
que se consideram 100% ativos são, na verdade, aqueles que não querem assumir
que gostam de homens mesmo estando com eles… acham-se superiores, e procuram, em
exclusivo, o prazer próprio. Sentem-se mais homens por serem a parte que domina
o ato sexual. Esta é uma corrente de pensamento generalizada nas, menos
desenvolvidas, sociedades latinas. Para os anglo-saxónicos, sempre mais à frente
na linha do pensamento, este sentimento seria motivo de anedota. E não passa
disso mesmo: uma anedota, já que, tão homossexual é aquele que é penetrado
(passivo) como o que penetra (ativo), basta para tal pensarmos na origem
etimológica da palavra.
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- Etimologicamente a palavra homossexual é formada pelos
vocábulos homo e sexu. Homo, do grego hómos, que significa semelhante, e sexual,
do latim sexu, que é relativo ou pertencente ao sexo. Refere-se à preferência de
praticar sexo com pessoas do mesmo género – homem com homem ou mulher com
mulher.
Ver inferioridade e submissão no homem passivo é puro preconceito, é
ideia ridícula, absurda e ultrapassada unicamente capaz de ser gerada na mente
de pessoas imaturas e mal resolvidas sexualmente. Esta inferioridade não existe
porque cada um tem o poder nas mãos… o ativo precisa do passivo para se
satisfazer sexualmente e se este último disser que não… alguém acaba a praticar
trabalhos manuais.
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- O que mais desagrada neste tipo de envolvimento é a
obrigatoriedade de estar na cama com o guião previamente escrito. Quando penso
no homem 100% ativo não sou capaz de afastar o pensamento das mulheres hetéros
que passam uma vida inteira sem saber o que é atingir o
climax. O homem preocupa-se apenas com o seu próprio orgasmo descurando o prazer
da sua companheira. Também entre os homossexuais isto acontece...
- Ser
versátil???
Não quero
com tudo o que já disse isentar o homem passivo de culpas. Nos últimos tempos
assistiu-se à redução drástica de homens passivos porque estes, coagidos pelo
preconceito que já descrevi, começaram a auto-denominar-se como versáteis,
quando na verdade não sentem prazer em penetrar um parceiro e muitas vezes nem o
conseguem fazer. Assumamos os nossos papeis… ser passivo é ser corajoso, é ser o
elo forte do momento sexual, é ser aquele que suporta o peso, é ser aquele que
alia ao prazer a dor, é ser aquele que não se limita à busca do prazer
egoistamente individual.
Do parágrafo anterior fica outro mote: versáteis!
Que classe é esta mais estranha? Muitos defendem que a versatilidade não existe,
que na verdade aquele que se diz versátil é passivo. Aqui há um fundo de
verdade. Ficar eternamente encima do muro é impossível… ou pulamos em frente ou
saltamos para trás. Isto, porém, não significa que a versatilidade não exista.
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- Existe sim um lado preponderante na versatilidade, ou seja, o homem versátil
sempre tem uma preferência no que à postura sexual diz respeito. Ter igual
prazer em ser ativo ou passivo é difícil, diria mesmo impossível.
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- A
versatilidade sexual existe e muito bem: ser versátil é ser completo, é não ter
medo de ser penetrado e não falhar na hora de penetrar, é explorar a sexualidade
em todos os seus pormenores, é não ficar agrilhoado a uma única e redutora
posição sexual, é virar o jogo a meio sem ter que pedir permissão, é o negar de
todos os tabus - “não ponhas a mão aí, não me toques aqui”, é maximizar o prazer
de ambos se ambos assim o desejam, é não ser limitado e não limitar o nosso
parceiro.
A esta altura do meu pensamento surgem aqueles que estão a dizer
aos seus próprios botões ou, quem sabe, em voz alta: “não gosto de rótulos” ou,
dando largas a um pensamento mais elaborado: “até parece que o mundo tem sempre
que estar dividido entre o "bem" e o "mal", entre "heróis" e "bandidos", que
necessidade estúpida a de dividir tudo, de classificar tudo… aprenderam bem a
lição do grande filósofo Aristóteles que tinha a necessidade de classificar
todas as coisa”. Estes são os que se acomodam ao incómodo de refletir sobre o
assunto, são, os já mencionados por mim, 100% ativos que, na verdade, não
querem assumir que gostam de homens. Sejamos realistas!
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- Todos os substantivos
são passíveis (não passivos) de serem adjetivados. Quero com isto dizer que
podemos até inventar novas palavras para satisfazer os que não gostam de rótulos
porém, o homem que em determinado momento, durante o ato sexual, é penetrado é
passivo e aquele que penetra é ativo. E não adianta dizerem que aquele que está
a ser penetrado pode ser ativo nas atitudes porquê entramos em esferas de
avaliação em nada igualáveis. O adjetivo continua a estar para um substantivo
de ação no que ao ser penetrado diz respeito, ou limitar-se-á a classificar uma
postura.
Atabalhoando um resumo (porque muito mais haveria a dizer) nos
contatos íntimos deve prevalecer a vontade das duas partes envolvidas. Todos
temos preferências que não diminuem nem engrandecem ninguém.
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- Quando as
expectativas de ambos são atendidas não importa quem foi o quê. Mas quando isto
não acontece, e se de relacionamentos que se prolongam no tempo falamos, o tesão
dura apenas enquanto a parte que se sujeita tiver força interior, amor, ou
acreditar que vale a pena lutar pela pessoa com quem se vive fora da cama… Mas
não tenhamos ilusões… mais cedo ou mais tarde a necessidade de plena satisfação
sexual vem ao de cima e o fim é inevitável…
Sejamos passivos, ativos,
versáteis ou outra qualquer adjetivação que me tenha escapado MAS,
respeitemo-nos mutuamente e unamo-nos em torno daquilo que é essencial: somos
HOMOSSEXUAIS e preconceitos já bastam os que vêm de fora.
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