Sexologia

 A (des) naturalização do amor lésbico?
@Por Daniela Alexandre
A idéia de gostar de alguém do mesmo sexo tem impulsionado uma boa parte de estudiosos, nas mais diversas áreas, a lançarem perguntas na tentativa de explicar os por quês desse fato. Assim, os conceitos, termos e expressões vão mudando com o tempo, sem que de fato possamos chegar a um consenso. Esse escrito não tem a pretensão de explicar nada, mas apenas partilhar algumas inquietações: os comportamentos femininos (lésbico) frente a essa forma de amar. Tudo que se busca é tornar, ou convencer parte da sociedade da ‘naturalização’ desse tipo de relação. Assim sendo, ao mesmo tempo em que lutamos por essa ‘igualdade’ na forma de amar, negamos ou não nos percebemos como seres ‘normais’, ao exigir compreensões e ou aceitações diferenciadas da sociedade para comportamentos que nada têm a ver com a sexualidade. Nesse sentido destaco três comportamentos:

1- A Infidelidade – Sabemos todos nós, homo ou hetero, que a fidelidade é uma construção social e cultural, pautada em alguns princípios muitas vezes religiosos. Embora em alguns países a infidelidade seja crime, sempre houve e haverá quem siga o instinto e não a lei.  Assim, fico me perguntado o que leva uma pessoa a ser fiel ou não. A meu ver, deveria ser o amor o responsável por barrar o instinto natural das múltiplas relações e não uma lei imposta. Assim sendo, questiono o porquê do alto índice de infidelidade entre o universo lésbico. Não raro nos deparamos com muitas mulheres que mantém dois relacionamentos amorosos ao mesmo tempo. Algumas chegam a ter até mais. Essa naturalização da infidelidade leva ao que eu destaco aqui como um segundo ponto:

2- O desrespeito: Ora, se é natural trair, por que me importar se a outra está ao meu lado ou não? Não raro também nos deparamos com essa cena: um casal chega a uma boate, ou a um bar GLS ou não e mesmo assim a paquera corre solta. Acrescente-se a isto brincadeiras ambíguas que por vezes constrangem e geram certo mal- estar.  Pergunto-me se isso é natural mesmo?  Casado com isso que chamo aqui de desrespeito aduzo o terceiro ponto:

3- A bebedeira. Tenho observado também que o índice de mulheres lésbica que bebe (em excesso) é infinitamente grande. Final de semana não rola sem os homéricos “porres”. E isso geraria um quarto comportamento: A violência. Ou seja: Infidelidade + Desrespeito + Álcoo (em excesso) = A Violência.  E nesse sentido, entenda-se a violência não apenas a física, mas também a psicológica, e, sobretudo a moral.  Não defendo a idéia de que se deve ser santas, e que o exposto acima se dá em uma totalidade. Claro que não. Porém, diria que, sem sombra de dúvida, é a maioria. E então pergunto: O que esses comportamentos evidenciam para a sociedade (muitas vezes hipócrita é verdade)? Onde fica o amor? Como ele é visualizado pela sociedade? A meu ver, fica oculto, quase imperceptível diante dessa forma de levar a vida pela qual muitas optam (e nesse casso é opção mesmo), pois trair, desrespeitar, ‘violentar’ é opção. O que não é optativo é o amor, mas até a forma como conduzi-lo e valorizá-lo (ou não) é uma opção pessoal.

Poderia me estender em argumentações, porém, como citei no inicio, não pretendo dar resposta, menos ainda defender ‘verdades’, quero apenas partilhar olhares, no intuito de contribuir para a ‘naturalização’ dessa forma de amar frente a essa sociedade imbuída de valores que também (em alguns casos) são, ou deveriam ser os nossos. E então destaco o respeito. Quem quer ser vista como ‘igual’ também deve assumir, ou aceitar cobranças iguais.

E se existe uma necessidade de rever conceitos morais que conduzam a banalização da fidelidade, penso não ser esse o melhor caminho. Para os relacionamentos héteros, a fidelidade é bem mais cobrada, e embora em alguns casos não seja cumprida, ela é um juramento. O que demonstra ser um valor social e moral para as sociedades, e que para o universo hétero feminino é cumprido bem mais a risca que por nós. Podemos argumentar que elas (héteros) que ‘emancipem-se’, mas até que ponto trair é emancipação? Não seria muito mais uma quebra de valor? Podemos dizer ainda que esses valores estão ultrapassados, mas quais seriam então os nossos?

Creio, contudo, que se podem mudar as regras, que se podem construir ou inserir novos valores a essa sociedade, mas que primeiro é necessário construí-los e não apenas negá-los, querendo ou não se é fruto ou parte dessa mesma sociedade, e a meu ver, o que se justifica é a forma de amar, de se relacionar com pessoas do mesmo sexo. Porém, todos os demais comportamentos são questionáveis e passiveis de reflexões. E valem para homos e heteros.

* Daniela Alexandre – 36 anos - graduanda em História pela Universidade Estadual Do Ceará (UECE)- e lésbica assumida desde os 19 anos.
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