A idéia de gostar de
alguém do mesmo sexo tem impulsionado uma boa parte de estudiosos, nas mais
diversas áreas, a lançarem perguntas na tentativa de explicar os por quês desse
fato. Assim, os conceitos, termos e expressões vão mudando com o tempo, sem que
de fato possamos chegar a um consenso. Esse escrito não tem a pretensão de
explicar nada, mas apenas partilhar algumas inquietações: os comportamentos
femininos (lésbico) frente a essa forma de amar. Tudo que se busca é tornar, ou
convencer parte da sociedade da ‘naturalização’ desse tipo de relação. Assim
sendo, ao mesmo tempo em que lutamos por essa ‘igualdade’ na forma de amar,
negamos ou não nos percebemos como seres ‘normais’, ao exigir compreensões e ou
aceitações diferenciadas da sociedade para comportamentos que nada têm a ver com
a sexualidade. Nesse sentido destaco três comportamentos:
1- A Infidelidade –
Sabemos todos nós, homo ou hetero, que a fidelidade é uma construção social e
cultural, pautada em alguns princípios muitas vezes religiosos. Embora em alguns
países a infidelidade seja crime, sempre houve e haverá quem siga o instinto e
não a lei. Assim, fico me perguntado o que leva uma pessoa a ser fiel ou não. A
meu ver, deveria ser o amor o responsável por barrar o instinto natural das
múltiplas relações e não uma lei imposta. Assim sendo, questiono o porquê do
alto índice de infidelidade entre o universo lésbico. Não raro nos deparamos com
muitas mulheres que mantém dois relacionamentos amorosos ao mesmo tempo. Algumas
chegam a ter até mais. Essa naturalização da infidelidade leva ao que eu destaco
aqui como um segundo ponto:
2- O desrespeito:
Ora, se é natural trair, por que me importar se a outra está ao meu lado ou não?
Não raro também nos deparamos com essa cena: um casal chega a uma boate, ou a um
bar GLS ou não e mesmo assim a paquera corre solta. Acrescente-se a isto
brincadeiras ambíguas que por vezes constrangem e geram certo mal- estar.
Pergunto-me se isso é natural mesmo? Casado com isso que chamo aqui de
desrespeito aduzo o terceiro ponto:
3- A bebedeira. Tenho
observado também que o índice de mulheres lésbica que bebe (em excesso) é
infinitamente grande. Final de semana não rola sem os homéricos “porres”. E isso
geraria um quarto comportamento: A violência. Ou seja: Infidelidade +
Desrespeito + Álcoo (em excesso) = A Violência. E nesse sentido, entenda-se a
violência não apenas a física, mas também a psicológica, e, sobretudo a moral.
Não defendo a idéia de que se deve ser santas, e que o exposto acima se dá em
uma totalidade. Claro que não. Porém, diria que, sem sombra de dúvida, é a
maioria. E então pergunto: O que esses comportamentos evidenciam para a
sociedade (muitas vezes hipócrita é verdade)? Onde fica o amor? Como ele é
visualizado pela sociedade? A meu ver, fica oculto, quase imperceptível diante
dessa forma de levar a vida pela qual muitas optam (e nesse casso é opção
mesmo), pois trair, desrespeitar, ‘violentar’ é opção. O que não é optativo é o
amor, mas até a forma como conduzi-lo e valorizá-lo (ou não) é uma opção
pessoal.
Poderia me estender em argumentações, porém, como citei no inicio, não
pretendo dar resposta, menos ainda defender ‘verdades’, quero apenas partilhar
olhares, no intuito de contribuir para a ‘naturalização’ dessa forma de amar
frente a essa sociedade imbuída de valores que também (em alguns casos) são, ou
deveriam ser os nossos. E então destaco o respeito. Quem quer ser vista como
‘igual’ também deve assumir, ou aceitar cobranças iguais.
E se existe uma
necessidade de rever conceitos morais que conduzam a banalização da fidelidade,
penso não ser esse o melhor caminho. Para os relacionamentos héteros, a
fidelidade é bem mais cobrada, e embora em alguns casos não seja cumprida, ela é
um juramento. O que demonstra ser um valor social e moral para as sociedades, e
que para o universo hétero feminino é cumprido bem mais a risca que por nós.
Podemos argumentar que elas (héteros) que ‘emancipem-se’, mas até que ponto
trair é emancipação? Não seria muito mais uma quebra de valor? Podemos dizer
ainda que esses valores estão ultrapassados, mas quais seriam então os nossos?
Creio, contudo, que se podem mudar as regras, que se podem construir ou inserir
novos valores a essa sociedade, mas que primeiro é necessário construí-los e não
apenas negá-los, querendo ou não se é fruto ou parte dessa mesma sociedade, e a
meu ver, o que se justifica é a forma de amar, de se relacionar com pessoas do
mesmo sexo. Porém, todos os demais comportamentos são questionáveis e passiveis
de reflexões. E valem para homos e heteros.
* Daniela Alexandre – 36 anos -
graduanda em História pela Universidade Estadual Do Ceará (UECE)- e lésbica
assumida desde os 19 anos.
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