O Casal Gay e os conflitos de um sólido relacionamento

 

Psicóloga e psicoterapeuta de famílias e casais

 


Tenho assistido nos últimos anos com muita alegria o crescimento de casais homossexuais que assumem seus relacionamentos de forma aberta e corajosa, são parcerias estáveis e cada vez mais visíveis.
Porém, não sejamos ingênuos em acreditar que todos os problemas estão resolvidos, ao contrário, viver a dois em uma relação homossexual é um desafio importante, sobretudo nessa sociedade homofóbica e preconceituosa como a nossa.

Viver em conjugalidade exige um alto custo emocional para os parceiros, pois independentemente da orientação sexual todos os seres humanos buscam amar e serem amados e através das relações e nas parcerias é possível validar-se, legitimar-se e crescer, árduo processo que merece atenção especial.
As relações conjugais são construções complexas, que vão desde a busca da felicidade ao medo da perda do objeto amoroso.

Estas questões nos fazem pensar o quanto depositamos nossos sonhos, desejos e projetos em nossos parceiros, que nunca serão, por melhores que sejam capazes de realizar.
Porém toda essa trama complexa de desejos, sonhos, projeções ocorrem em qualquer relação, mas e no casal gay? Penso que a complexidade fica amplificada, pois as demandas e pressões sociais são imensamente maiores.

Vamos então discutir mais profundamente, inicialmente temos a questão do assumir-se pois na verdade alguns casais gays formam-se mas não tem uma visibilidade social, ou mesmo familiar.
A questão de assumir-se é muito maior, e vai depender do momento de cada um, não há receitas. Acredito que o casal que se assume enquanto casal, se ama e busca construir uma relação estável já vive seu amor, no entanto, abrir para a família significa uma escolha fundamental e de muita reflexão, cada um saberá seu melhor momento, pois implica em correr riscos que podem causar sofrimento sim, mas também muita autonomia e felicidade.

Outro aspecto importante na vida dos casais homossexuais é lidar com uma situação inédita, com pouca ou quase nenhuma visibilidade, isto é, trata-se de um novo modelo, que está sendo construído, pois os modelos conhecidos são todos heterossexuais.
Penso, desta forma que viver a dois enquanto um casal gay, dividir, casa, contas, filhos de outras relações, famílias de origem, amigos, enfim tudo que vem junto, é uma tarefa inovadora, renovadora, e pós moderna que muda a cara dessa sociedade, que transforma as relações sociais e também a visão de mundo e de homem das pessoas.

Saímos de um modelo do homossexual caricato, “promíscuo”, para um modelo gay cidadão que constrói relações, que buscam parcerias e que podem até trocar de parceiros se assim quiserem e quando quiserem.

Pois é caros amigos, abrir caminhos não é fácil, sobretudo se a conquista provoca indignação em uma parcela da sociedade conservadora e retrógrada, que pensa que apenas casais héteros podem ser felizes, pois afinal até a pouco tempo ser homossexual era sinônimo de sexo, somente sexo, hoje é sinônimo de cidadania, amor, relações estáveis com muito, muito prazer! 
Dicas para resolver conflitos
No texto anterior comentei a dificuldade em construir uma parceria e como projetamos nossos sonhos em nossos parceiros, e também que ser um casal gay implica em criar novos modelos de conjugalidade nessa sociedade maxista e homofóbica.
Penso que uma relação só pode dar certo ( e dar certo já é outra história ), se não somos a metade da laranja procurando a outra metade, mas sim se somos pessoas inteiras que interagem com outra pessoa inteira.

Compartilhar experiências, viver as individualidades, faz parte de um longo processo de maturação e crescimento individual.

Pergunte a si mesmo:

- Você tem seus projetos pessoais preservados, consegue realizá-los não esperando que façam por você?

- Você tem a expectativa que seu parceiro o faça por você?

- Você respeita as individualidades de seu parceiro?


Um grande conflito que permeia os casais, sejam eles gays ou não é busca no outro de seu projeto ideal, tenho ouvido muitas vezes a tristeza e a insatisfação de quando os parceiros deixam de realizar o sonho do outro, e o resultado é sempre frustração e sofrimento.

A insegurança leva grande parte das pessoas a acreditarem que só serão felizes se o seu amor as fizer felizes, contudo, penso também na importância de amar e receber amor, é uma via de mão dupla, mas acreditem, isso não basta, é pouco, temos que acreditar antes de tudo nos nossos próprios sonhos.

Os parceiros servem para somar, agregar, e até mesmo dividir, trata-se de uma construção, nunca espere que o outro te traga numa bandeja a sua felicidade, ela é sua.

 

 

 

 
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