Você pensa que energético é água?

A fim de comemorar o aniversário de um colega que ia morar fora do País, o profissional liberal Fabiano Dias, 28 anos, decidiu “investir” em alguma coisa mais pesada para incrementar o embalo noturno que se iniciava.
Resolveram (ele e a galera) cair na farra e, para “segurar o reggae”, tomar o energético da marca Red Bull misturado com uísque. Achavam que, com isso, estariam prevenidos contra possíveis fadigas.
Após três copos da mistura, o resultado: palpitação, baixa de açúcar no sangue, vômito e dores de estômago. O moço teve que trocar a pista de dança, onde as gatinhas esbaldavam-se, pelo vaso do banheiro...
A festa acabou mais cedo para ele, que saiu da boate carregado pelos colegas. Sofreu um dos efeitos mais brandos da mistura, que vem provocando óbitos, na Europa.

Barril de pólvora

Alguns especialistas em saúde não estão convencidos de que os energéticos, mesmo sem mistura, sejam inofensivos. Para estes, a mistura com álcool - algo contra o que o Piranha, por exemplo, alerta em sua embalagem - é um barril de pólvora, prestes a explodir.
Autoridades no Canadá, França e Dinamarca não aprovaram vários desses produtos, como o austríaco Red Bull, que responde por metade do mercado nos Estados Unidos e também é sucesso no Brasil.
No ano passado, a Agência Nacional de Alimentos da Suécia passou a alertar as pessoas para não consumirem Red Bull com álcool, ou com bebidas isotônicas (como Gatorade).
O alerta surgiu depois que uma jovem que consumiu álcool com um popular energético morreu, aparentemente de desidratação. Duas outras mortes também estão sendo investigadas.

Defesa

Emmy Cortes, porta-voz da Red Bull North América, afirmou a repórteres do site da CNN que as autoridades suecas ainda não provaram a ligação entre as mortes e o energético, e acrescentou que a Red Bull não incentiva a mistura da bebida com álcool, embora o alerta só conste na embalagem do energético na Áustria.
“Nós sabemos que isso acontece”, diz ela, ressaltando que quase ninguém questiona a mistura de refrigerantes com rum, por exemplo. Outra substância encontrada com mais facilidade nesse tipo de bebida é a taurina, um aminoácido natural em alguns alimentos, mas em pequenas quantidades.
Uma lata de Red Bull, por exemplo, contém o equivalente a 500 taças de vinho - um nível que, supostamente, aumenta os efeitos dos demais estimulantes, mas cujos efeitos a longo prazo não foram estudados.

Discussão

Largamente consumida nas empreitadas boêmias, a combinação energético-bebidas alcoólicas virou hábito entre os jovens.
Estes “coquetéis”, por força do corrente uso, tornaram-se assunto de discussão acalorada no mundo da medicina, no qual os prós e os contras misturam-se.
É uma “cultura” tão comum que até na Lavagem do Bonfim tinha garçom autônomo vendendo doses de uísque com a bebida que “dá asas” - para utilizar o mote publicitário. Isso, para não falar nos camarotes carnavalescos, onde os garçons servem, com a maior naturalidade, a “bomba” etílica.
 
Adrenalina
Será que, como defendem alguns, a bebida hidrata mesmo o organismo? Aumenta de fato a adrenalina? E se misturar, acontece o quê?
Os energéticos foram desenvolvidos para o público noturno, sendo vendido como uma bebida revigorante e que ganhou grande repercussão depois que a cultura das boates espalhou-se, inicialmente na Europa, depois, nas Américas.
Clínico geral e conselheiro do Conselho Regional de Medicina, o médico Marcos Luna explica que “devido à ação estimulante no sistema nervoso central, a bebida aumenta a freqüência e a força de contração do músculo cardíaco, ocasionando aumento da pressão arterial”.
Ele diz que o energético significa ingestão de água, e que, por isso, “provoca um retardamento dos efeitos do álcool, contribuindo para contrabalancear os efeitos desta substância no organismo”.

Encontradas tanto em supermercados e lojas de conveniência como em bares e danceterias, as bebidas têm um perfil de consumidor bastante amplo: abrangem pessoas de diversas idades e são usadas para os mais variados fins.
São utilizadas, por exemplo, por atletas que desejam melhor desempenho na atividade física, por gente em busca de efeitos afrodisíacos...
“O importante é que a pessoa que esteja tomando entenda que os energéticos não devem ser ingeridos como uma única fonte de hidratação. A cafeína existente em alta concentração é um estimulante do sistema nervoso central, mas não é melhor que um suco de frutas em termos de nutrientes”, explica a nutricionista Isabela Scaranzzi.
Ela diz que efeito afrodisíaco, só por meio da auto-sugestão de quem estiver consumindo a bebida.

Estimulante

Marcos Luna mostra outra face negativa do efeito estimulante da mistura: “O indivíduo bebe, sente-se estimulado e vai passar a beber mais e mais doses de bebidas alcoólicas, podendo ocorrer casos de miocardite alcoólica, hepatite alcoólica, colite e outros”.
A cafeína aumenta a atenção, estimula a liberação de adrenalina e facilita a liberação de cálcio, propiciando uma contração muscular mais efetiva. Ela é capaz de estimular três diferentes sistemas de fornecimento de energia: ATP, anaeróbio e aeróbio.
 
Mercado em expansão

O mercado de bebidas energéticas no Brasil, embora ainda novo, tem revelado enorme potencial de crescimento. No ano passado, segundo o instituto AC Nielsen, o setor aumentou sua produção em quase 85%.
Para este ano, a expectativa também é mais otimista. As indústrias, juntas, fabricaram 60% a mais da bebida do que foi feito em 2002.
Só a Coca-Cola investiu, do fim do ano passado até agora, cerca de R$ 5 milhões no lançamento do Burn, novo energético que entra no mercado para competir com marcas conhecidas, como o Red Bull e o Flash Power.
A expectativa da empresa é de que seu novo produto ocupe, em pouco tempo, cerca de 15% da fatia do mercado brasileiro.
Mas não foi a Coca-Cola nem outras marcas conhecidas mundialmente que abriram as portas para bebidas energéticas no Brasil. O primeiro produto do gênero surgiu, por aqui, há quase dois anos. A precursora foi a Indústria de Bebidas Reunidas Tatuzinho, com a Atomic Energy Drink.

Este produto fez muito sucesso na época e, ainda hoje, mesmo com a alta competitividade, consegue ocupar a maior parte do mercado do País, com 18% do total.
Mas o principal nome do ramo no mundo é o Red Bull. A famosa marca, inclusive, foi a primeira a ser classificada como bebida energética. Surgiu nos anos 80, pela mão do austríaco Dietrich Mateschitz.
Ao viajar pela Ásia, ele percebeu que alguns compostos estimulantes, típicos da região, poderiam ser concentrados e, então, oferecidos em uma maior escala para os consumidores.
Os energéticos chegaram ao Brasil na década de 90, estimulando a produção. Atualmente, o País produz cerca de 5 bilhões de litros por ano. No mundo, segundo o instituto de pesquisa Canadean, a projeção de crescimento do produto em 2002 é de 6%, mesma taxa prevista para 2003. O setor, realmente, está mais aquecido do que nunca.

Componentes

Taurina - É um aminoácido naturalmente presente no corpo humano. Pode também ser obtido a partir de alimentos de origem animal. Estudos demonstram que uma suplementação oral de taurina é capaz de aumentar a freqüência cardíaca após uma sobrecarga física.

Glucoronolactona - Esta substância é formada a partir da glicose e auxilia nos processos de eliminação de toxinas endógenas e exógenas. Na atividade física, age como um desintoxicante, diminuindo a fadiga e melhorando a performance.

Vitaminas - Os energéticos contêm vitaminas hidrossolúveis, como as do complexo B. Entretanto, deve-se lembrar que, somente a partir de uma alimentação variada e balanceada, é possível a obtenção de todas as vitaminas necessárias para um bom funcionamento do organismo.

Carboidratos - Aos energéticos é adicionada uma grande quantidade de carboidratos. São também hipertônicas, ou seja, têm grande concentração de açúcar e, por este motivo, estimulam a sede.

Alertas

Quem sofre de disfunções renais, hipertensão ou outras disfunções orgânicas devem consultar um médico ou nutricionista antes de sair por aí ingerindo bebidas energéticas.
Um ponto importante é saber a procedência da bebida e seguir as recomendações expressas nos rótulos dos produtos disponíveis no mercado brasileiro. Compre sempre produtos registrados e aprovados pelo Ministério da Saúde, dentro do prazo de validade e que estejam sendo fiscalizados pelos órgãos competentes.

 Fonte : Jornal A Tarde
 16.03.2003
 
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