O fim da Privacidade

por Iraê Carlovitch

O uso de drogas é um dos problemas que mais aflige a sociedade atual. Os pais estão cada vez mais preocupados e se perguntam quem são as companhias do filho, quais lugares ele freqüenta, o que ele está fazendo no seu tempo livre, na escola, em casa quando está sozinho, etc. O fácil acesso a substâncias entorpecentes tem tirado o sono de muita gente.
A popularização da maconha e do ecstasy e das anfetaminas, por exemplo, tem atraído mais e mais jovens para o mundo das drogas. Só por diversão, por rebeldia, por fuga, seja qual for o motivo, o abuso de entorpecentes tomou proporções preocupantes no mundo inteiro.

A sociedade tenta se defender com campanhas de conscientização, investimentos na área de saúde, tratamentos, educação e medidas de segurança pública. O tráfico de drogas surge como uma das maiores ameaças ao poder público e a sociedade civil, que se vê acuada contra organizações criminosas que parecem, a cada dia, mais fortalecidas e difíceis de serem controladas.

Enquanto o governo tenta descobrir formas para impedir que os criminosos mantenham sua espécie de "comércio", do outro lado, as famílias buscam meios de impedir que as drogas cheguem à suas casas. É muito comum, principalmente na classe média, que os pais contratem seguranças, motoristas particulares, passem o dia ligando no celular do filho e tentem de qualquer maneira controlar os passos dos jovens.

Um dos métodos mais usados pela classe média é o uso de detetives particulares. Segundo a detetive particular Ângela Beckredjian, os pais acreditam no método por ser rápido e confiável. "Em apenas uma semana já dá para saber se o jovem está envolvido com drogas", afirma Ângela. Segundo ela, a eficácia é comprovada. "Em 90% dos casos a suspeita é confirmada. Os pais precisam de uma prova para encostar os filhos na parede", conta.
Além desse método, chegou ao Brasil em setembro um produto que é conhecido como um dos maiores aliados ao combate às drogas no exterior. É o Drugwipe, detector de drogas que funciona como um teste de gravidez.

Entrando em contato com qualquer superfície na qual o possível usuário tenha tocado, o Drugwipe promete detectar substâncias presentes em canabinóides (maconha, haxixe), opiáceos (heroína, morfina), anfetaminas (incluindo metanfetaminas, como o ecstasy) e derivados da cocaína. O Drugwipe pode ser encontrado em todas as farmácias do Brasil ao custo de cerca de R$50 e não é necessário nenhum tipo de receita para comprá-lo.

O teste é um cabo de plástico, com uma espécie de visor e uma ponta esponjosa. Para se fazer uso do produto, basta aplicar a ponta esponjosa na superfície onde a pessoa tenha tocado e depois umedecê-la. Caso alguma substância seja detectada o visor apresenta uma coloração rósea. Conforme citado no website da AGS - Comércios e Serviços LTDA., distribuidora do Drugwipe no Brasil, a chance de um resultado falso positivo é praticamente nula, ao contrário dos testes de gravidez. Porém, a distribuidora avisa que é necessário, ainda assim, que se encaminhe o caso para laboratórios especializados afim de que nenhum erro seja cometido.

O principal problema ligado a estes tipos de testes e métodos investigativos é a polêmica invasão de privacidade. Na Europa, o Drugwipe é usado pelos pais sem o aval dos filhos, o que pode causar revolta no suspeito e, assim, piorar o relacionamento entre as duas partes. Porém, para alguns especialistas no assunto, mesmo assim, o Drugwipe tem que ser considerado um aliado. "O uso disto é, sim, uma invasão de privacidade, mas o que precisa ser visto é até que ponto os filhos podem ter privacidade para fazer coisas erradas", afirma o advogado e membro do Conselho Municipal Antidrogas de Barueri, Marcos Vinícius de Oliveira.

Mesmo sendo um aliado na batalha contra as drogas, métodos investigativos não são considerados soluções para o problema. Para Marcos, "nenhum instrumento contra as drogas funciona, quando vemos que os policiais ajudam no tráfico, o delegado recebe o dinheiro da venda, o juiz é subornado para a sentença e até o Juiz do Tribunal recebe sua 'fatia do bolo'.O que é preciso é ter uma família sólida, para que não haja o consumidor", diz.

Para a maioria dos profissionais envolvidos com dependentes de drogas, a família é a principal ferramenta para que o jovem não comece a utilizar entorpecentes. Para a psicóloga Mariângela Cabrera, precisa haver diálogo e amizade. "Os pais não podem deixar de estar perto dos filhos, estar sempre junto, ser íntimo, ser a pessoa que seu filho confia, dar amor. Tudo isso deve ser conquistado, mas não somente em coisas materiais, e sim, com atenção, muita conversa, brincar, se fazer importante na vida do filho, não basta só pagar, colocar na escola, promover festa, cobrar", acredita.

Para ela, os testes em si, não podem promover grandes mudanças. "Dá para descobrir, mas é necessário que o dependente caia no poço, viciados são mestres em dissimular, então não adianta. O que fazer depois de descobrir, começar uma guerra, trancá-lo, levá-lo pra uma clínica, são as situações mais comuns. Porém, eu repito, não adianta, se não tiver aprovação do dependente, nada funciona".

A relação da família de um usuário de drogas muitas vezes é desestabilizada. A maioria dos dependentes químicos apresenta desinteresse e agressividade em casa. As drogas começam a provocar mudanças de comportamento nos viciados.

Para a psicóloga e irmã de ex-dependente químico Patrícia Camilo Teixeira, mesmo sentindo sua privacidade invadida, o usuário de drogas precisa de ajuda e métodos investigativos podem ajudar. "É legal procurar ter liberdade, conversas francas com o dependente, fazer com que ele entenda que só poderá ser ajudado se quiser", conclui.

O combate às drogas tem que ser encarado com seriedade por toda a sociedade e é preciso novos caminhos sejam buscados para que as tristes estatísticas relacionadas a substâncias químicas possam ser mudadas.

 
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