- 01.08.2009
A sabedoria popular defende que a fé remove até montanhas. No caso do
desempregado Gilson de Oliveira Silva, 44 anos, a fé não foi suficiente para
livrá-lo dos efeitos do vírus HIV. Depois de frequentar a Igreja Ministério do
Fogo por um ano e ter ouvido uma revelação de que estaria curado, Gilson
suspendeu por seis meses o tratamento com coquetéis.
Na segunda-feira (31), foi sepultado no Cemitério Quinta dos Lázaros. Segundo
Simone Oliveira Silva, irmã de Gilson, ele sofria muito em virtude do HIV e de
um câncer que teve na face. “Ele estava desesperado. A fé nessas revelações
cegaram meu irmão”, afirma Simone, que ainda quer detalhes sobre o que teria
levado Gilson a abandonar os medicamentos.
Ela contou que foi agredida pelos membros da igreja e pela própria pastora e
promete levar o caso à Justiça. A sede da Igreja Ministério do Fogo fica numa
transversal da Avenida Jorge Amado, no Imbuí. A casa, sem identificação, estava
fechada na manhã de segunda-feira (31).
Vizinhos que não quiseram se identificar disseram que a igreja é uma chaga no
local.Uma senhora garantiu que a líder religiosa manipula os fiéis. “Se uma
mulher é casada e o marido não vai ao culto, ela inventa histórias pra a pessoa
ficar impressionada até arranjar outro”, contou.
Uma moradora da rua onde está a igreja afirma que o local é sempre palco de
confusões e muito barulho. “Eles enganam as pessoas dizendo que são de Cristo.
Fizeram a maior confusão quando a família do rapaz (Gilson) chegou”, diz a
moradora, garantindo que não é a primeira vez que a pastora faz promessas de
cura.
Segundo o criminalista Sérgio Reis, abusos de pessoas que se dizem agentes da
fé ou enviados de Deus podem ser denunciados à polícia e ao Ministério Público,
pois tais cultos geram prejuízos à comunidade. “Nesse caso específico, enquanto
acreditava estar curado, o rapaz pode ter até transmitido o vírus para outras
pessoas. É preciso que em situações assim haja a interferência dos poderes
públicos”, defende.
Gilson recebia os coquetéis contra o HIV no Hospital das Clínicas. O
infectologista Eduardo Martins Neto não confirmou se ele deixou de pegar os
medicamentos, mas contou que os pacientes são orientados sobre a necessidade de
manter o tratamento. “Algumas vezes, fazemos contato com pacientes faltosos, mas
não há como controlar toda a demanda”, disse. (Notícia publicada na edição impressa do dia 01/09/2009 do CORREIO)
-
- Envie
esta página para alguém
-
|
|