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A Homo e a heterossexualidade
são diferentes orientações sexuais que convivem lado a lado desde os primórdios
da humanidade. Estudos antropológicos realizados em todo o mundo demonstram
inclusive que em grande parte das sociedades primitivas, os homossexuais
exerciam um papel de importante destaque, sendo respeitados como conselheiros,
curandeiros ou em outras tarefas.
- Estes mesmos estudos nos levam a crer
que a opressão ao homossexual pôde, em parte,
ser explicada no mesmo contexto em
que se originou a discriminação e a opressão contra as mulheres. A introdução da
propriedade privada e a transformação das antigas sociedades matriarcais em
patriarcais, como foi analisado por Engels, em a Origem da Família, da
Propriedade Privada e do Estado, por exemplo, provocou alterações nas
relações sociais e sexuais. A necessidade de se determinar quem era o herdeiro
das propriedades acumuladas submeteu as mulheres ao domínio masculino e deu
início à discriminação em relação à toda atividade sexual que não tivesse na
reprodução “controlada” seu objetivo.
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- Esse
processo, obviamente, teve ritmos próprios nas diferentes sociedades do mundo
antigo. Em civilizações como a romana, e principalmente a grega, a
homossexualidade seguiu sendo respeitada quando ligada aos rituais sagrados, na
iniciação dos adolescentes na vida adulta, e mesmo ao aparato militar ( como no
famoso “bando sagrado de Tebas”, um exército formado exclusivamente por amantes
homossexuais).
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- Com o desenvolvimento e a expansão do
cristianismo como religião dominante, a discriminação contra os homossexuais
adquiriu formas elaboradas, e a prática da homossexualidade começou a ser não
somente condenada pela sociedade, como também punida de forma exemplar. A
questão da reprodução aqui ganha novos contornos; a relação sexual que não
tivesse como conseqüência produzir descendentes dentro de um dado modelo
familiar, era considerada imoral e antinatural.
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Desta forma, em seu período de maior
poder, na Idade Média a partir do século XI, a Igreja desenvolveu uma caça
contra os homossexuais e todos aqueles que se levantavam contra a moral
católica. Além das centenas de lésbicas que foram queimadas como bruxas,
homossexuais em geral, eram usados como “lenha” para as fogueiras purificadoras
da santa igreja.
- Somente no século XIX, contudo, surgiu
o termo “homossexualismo” para denominar as relações sexuais entre pessoas do
mesmo sexo. O termo foi rapidamente vinculado a uma “doença”, que deveria ser
tratada. Essa concepção vigorou em grande parte do mundo até os anos 80, quando
a Organização Mundial de Saúde, em 1985, finalmente retira o “homossexualismo”
da lista das fatalidades patológicas, justificando-se contra qualquer tipo de
discriminação e violência contra gays e lésbicas. Tal medida foi em grande parte
conseqüência da mobilização do movimento homossexual
internacional.
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- Um dos mais
sangrentos exemplos dessa violência foi dado pelo nazismo, durante a II Guerra
Mundial, que enviou centenas de milhares de homossexuais para a morte, nos
campos de concentração. Os homossexuais eram marcados com o triângulo rosa, que
anos mais tarde se tornaria um dos principais símbolos da luta contra a opressão
homossexual.
Um dos primeiros escritos que se
conhece contra a discriminação aos homossexuais, data de 1869. Neste ano um
médico húngaro, Karóly Benkert, escreveu uma carta ao Ministério da Justiça
alemão condenando o novo código penal que em seu artigo 175 declarava que os
atos sexuais entre homens eram delito. Foi nesta carta, também, que Benkert
utilizou pela primeira vez o termo homossexual para denominar estes
atos.
- A luta contra o artigo 175 fez
florescer na Alemanha os primeiros movimentos em defesa da liberação
homossexual. Em 1897 surgia o Comitê Científico e Humanitário (CCH), que
promoveu diversas atividades até 1933, quando foi duramente vitimado pela
violenta perseguição do nazismo que recém chegava ao
poder.
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Durante sua existência o CCH lançou as
bases daquilo que seria o movimento homossexual no decorrer do século.
Abaixo-assinados, palestras e atividades públicas foram intensamente utilizados
numa tentativa de por fim à discriminação contra os homossexuais. O grau de
atividade e “modernidade” do Comitê pode ser, inclusive, exemplificado pela
participação de Hirschfeld em inúmeras produções cinematográficas que discutiam
o tema. Na mais famosa delas, intitulada “Diferente dos Outros”, de 1919 (ou
seja, menos de 20 anos depois do surgimento do cinema), Hirschfeld não
participou como ator ( um médico que procura convencer a sociedade que a
homossexualidade não é crime nem doença), como também inseriu um poderoso
discurso no final do filme, válido até hoje:
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- “Nós
devemos assegurar que brevemente chegará um tempo em que tragédias como esta [o
suicídio do principal personagem gay] serão impossíveis de acontecer, porque o
conhecimento irá superar o preconceito, a verdade irá superar as mentiras e o
amor conquistará o ódio”.
Como sabemos, a profecia de Hirschfeld
infelizmente não se cumpriu até hoje, apesar do movimento de gays e lésbicas
nunca ter cessado desde então. Os anos 30 e 40 foram marcados por retrocessos e
derrotas causados pelo fascismo e a guerra. Contudo, nos anos 50, o movimento
homossexual internacional ganhou novo fôlego com a luta dos homossexuais
norte-americanos contra a “caça às bruxas” promovido pelo senador McCarthy. Mas,
os pequenos grupos que surgiam na época, apenas anunciavam o poderoso movimento
homossexual que iria surgir naquele país duas décadas
depois.
A década de sessenta foi marcada pela
revolução nos costumes e no comportamento de amplos setores da sociedade em
vários país capitalistas. 1968 entrou para a história como ano da rebeldia
estudantil. Já 1969 é um marco para a luta pelos direitos dos homossexuais. Em
28 de junho daquele ano, a polícia de Nova York promoveu uma de suas costumeiras
batidas em um bar freqüentado por homossexuais, o Stonewall, em Greenwich
Village. Mas, desta vez a história foi bastante diferente das anteriores.
Cansados das humilhações e perseguições, os homossexuais que estavam no bar,
liderados por travestis, resistiram à polícia, trancando-os dentro do bar e
ateando fogo ao recinto. A batalha que tinha pedras e garrafas como armas, e
envolveu milhares de pessoas, prolongou-se durante toda a madrugada do dia 28 e
nas 4 noites posteriores.
No primeiro aniversário da rebelião, 10
mil homossexuais, provenientes de todos os estados norte-americanos marcharam
sobre as ruas de Nova York, demonstrando que estavam dispostos a seguir lutando
por seus direitos. Desde então, “28 de junho”
é considerado o Dia Internacional do orgulho
Homossexual.
- Como resultado direto dessa
mobilização, durante os anos 70, surgiram centenas de organizações de gays e
lésbicas. Estas organizações obtiveram importantes conquistas como as
seguintes:
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- Forçou a
Associação Nacional de psiquiatria a rediscutir a classificação dos homossexuais
como doentes;
- Impôs
fim à proibição de homossexuais nos serviços públicos em diversas cidades e
estados;
- Dezoito
estados dos EUA anularam as leis que puniam criminalmente a
sodomia;
- Em
várias cidades foram aprovadas leis proibindo a discriminação nos locais de
trabalho e moradia.
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- Porém,
os avanços conquistados no início da década foram sistematicamente atacados
durante o decorrer dos anos 70 e 80. O aprofundamento da crise econômica mundial
abriu espaço para um discurso conservador que fez com que muitas leis
anti-discriminatórias fossem revogadas apesar da resistência dos grupos
organizados e da comunidade homossexual em geral. Um dos exemplos mais
importantes desse embate se deu em Miami, na Flórida, em 1977. A derrota de uma
lei em defesa dos direitos homossexuais levou centenas de milhares de pessoas às
ruas. Já em São Francisco, 250.000 pessoas saíram às ruas em protesto contra os
ataques aos direitos homossexuais e para repudiar o assassinato de um membro da
comunidade por 3 adolescentes.
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Na
medida em que a onda conservadora avançava e os direitos legais eram retirados,
aumentavam também os ataques físicos aos homossexuais. O caso mais famoso foi
sem dúvida o assassinato de Harvey Milk, em São Francisco, o primeiro vereador
assumidamente gay eleito nos EUA. Em novembro de 1978, um ex-policial e
vereador, Dan White, assassinou Milk juntamente com o prefeito da cidade dentro
da própria prefeitura. O assassinato provocou uma onda de manifestações à nível
nacional e internacional, que teve seu ápice em maio o ano seguinte, quando
White, apesar de todas as evidências, recebeu a sentença mínima (8 anos, com
direito à liberdade condicional depois de 5).
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- Diante
deste resultado, 10 mil pessoas se concentraram na frente da prefeitura para
protestar. A manifestação evoluiu rapidamente em um violento confronto com a
polícia que teve como saldo 119 feridos (entre policiais e manifestantes), danos
generalizados no prédio da Prefeitura e vários carros queimados. A revolta dos
manifestantes foi ainda maior diante dos policiais que os atacavam aos berros
dizendo que era chegada a hora de “limpar a cidade” e retoma-la das mãos dos
“veados”.
Em 1977, os estudantes tomavam as ruas para exigir a anistia dos presos e
exilados políticos. Era o começo do fim da ditadura. Diversos setores da
sociedade buscavam a reorganização. A imprensa “alternativa” se multiplicou
rapidamente, e os “setores oprimidos e explorados” da sociedade exigiam o seu
espaço. Em meio a esse processo surgiu o jornal Lampião de
Esquina, com o objetivo de enfocar a luta de todos os chamados “setores
oprimidos” (mulheres, negros, homossexuais e índios) mas que na prática era
quase que totalmente voltado para a comunidade homossexual.
A idéia
inicial de lançamento do jornal nasceu com a visita de um jornalista gay
norte-americano, Winston Leyland, que veio à América Latina - no final de 1977 -
para recolher material para escreveer uma antologia sobre a produção literária
de autores homossexuais. Sua visita acabou desencadeando a reunião de um grupo
de jornalistas, escritores e intelectuais responsáveis pelo lançamento do número
zero do jornal em abril de 1978.
Além do
surgimento do Lampião, outros fatores iriam contribuir para a formação do
primeiro movimento homossexual brasileiro. Também em abril de 78, entre os dias
24 e 30, a revista Versus promoveu um ciclo de debates denominado “Semana do
Movimento da Convergência Socialista”, cujo o objetivo era elaborar a plataforma
política de um futuro partido socialista brasileiro. Durante estes debates um
“incidente” provocado pela não convocação do Lampião, acabou resultando em uma
intensa discussão sobre o relacionamento entre a esquerda e os homossexuais. A
grande importância desse debate foi que ali se deu a primeira discussão pública
sobre a homossexualidade e seus aspectos políticos.
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- Após este
debate, um grupo integrado por dois editores do Lampião e outros
homossexuais fundou o Núcleo de Ação pelos Direitos Homossexuais, que apareceu
em público pela primeira vez para denunciar a forma preconceituosa como o jornal
Notícias Popular tratava os homossexuais. Em dezembro de 78, o grupo
passa a adotar o nome de SOMOS – Grupo de Afirmação Homossexual. Em fevereiro de
1979, após a participação em um ciclo de debates na Universidade de São Paulo, o
SOMOS cresceu significativamente, reunindo cerca de 100 homossexuais
(aproximadamente 80 homens e 20 mulheres).
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Desde sua
fundação, um setor do SOMOS havia privilegiado uma atuação estreitamente ligada
aos setores oprimidos da sociedade, as mulheres e os negros (apesar de que nem
sempre tenha havido reciprocidade nesta tentativa). A primeira aparição pública
do SOMOs, em uma mobilização, se deu no dia 20 de novembro de 1979 (Dia de Zumbi
dos Palmares, ou Dia Nacional da Consciência Negra), em uma passeata convocada
pelo Movimento Negro Unificado. Nesta passeata os ativistas do SOMOS portavam
uma faixa onde se lia “Pelo fim da discriminação racial – SOMOS – Grupo de
Afirmação Homossexual”.
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- No início da
década de 80, já existiam diversos grupos formados em diversos estados do país.
E a necessidade de discutir, a nível nacional, as diferentes experiências de
cada um dos grupos e a possibilidade de coordenar atividades conjuntas fez com
que fosse convocado o I Encontro Brasileiro de Homossexuais e o I
Encontro Brasileiro de Grupos Homossexuais Organizados, realizado em Semana
Santa de 1980, no Rio de Janeiro. Os dois primeiros dias do Encontro foram
fechados aos representantes dos grupos, e a plenária final, da qual participaram
800 pessoas, foi aberta. Entre os grupos que estiveram presentes poderíamos
citar: Facção Homossexual da Convergência Socialista, Eros (SP),
SOMOS/Sorocaba, SOMOS/RJ, Beijo Livre (Brasília), Libertos
(Guarulhos) e Grupo de Ação Lésbico-Feminista. Além disso, houve a
participação de representantes de diversos estados.
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Assim como
durante a discussão entre os grupos, a plenária foi polarizada pela discussão em
relação a como o movimento homossexual deveria se relacionar com os demais
setores oprimidos e explorados da sociedade. Essa discussão voltava-se em como o
movimento homossexual participaria da comemoração do 1º de maio no ABC paulista,
onde acontecia, naquele momento, uma poderosa greve. A plenária se dividiu ao
meio, e a posição de participar organizadamente do ato perdeu por apenas um
voto.
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- Essa
discussão significou praticamente um divisor de águas dentro do movimento
homossexual. De um lado estavam aqueles que viam a possibilidade de conquistar a
emancipação homossexual dentro dos limites da discussão da sexualidade em si, do
outro ficaram os que acreditavam que a emancipação só seria possível caso fosse
batalhada conjuntamente com os demais setores oprimidos e explorados da
sociedade.
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Os adeptos
da segunda posição decidiram que participariam do ato de qualquer forma (mesmo
temendo uma possível reação negativa por parte dos operários) e para tal,
organizaram a “Comissão de Homossexuais pró-1º de Maio” que reuniu um grupo de
50 homossexuais para participarem do ato. O grupo entrou no estádio de Vila
Euclides, em São Bernardo com duas faixas – Contra a Intervenção nos Sindicatos
e Contra a Discriminação do Trabalhador(a) Homossexual – e, para sua própria
surpresa, foi entusiasticamente aplaudido e de forma alguma molestado.
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- O grau de
diferenciação entre as duas posições em relação à participação no 1º de maio
pode ser brevemente ilustrado pela atividade realizada pelo setor contrário à
participação. Enquanto o ato acontecia em Vila Euclides, os editores de
Lampião e aqueles que concordavam com sua postura, realizavam um
piquenique no zoológico.
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- No período
imediatamente posterior ao 1º de maio se deu um inevitável distanciamento entre
os dois setores e as páginas do Lampião se transformaram em porta-voz de
inúmeros ataques ao chamado setor de “esquerda”, principalmente à Facção
Homossexual da CS.
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- Essa
polarização só conseguiu ser superada, temporariamente, devido uma violenta onde
de repressão, desencadeada pelo delegado Wilson Richetti, contra o gueto gay de
São Paulo no final do ano.
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Desde o seu
surgimento o movimento já enfrentava a repressão policial. Por exemplo, entre
abril e julho de 79, a polícia federal fez uma série de investidas contra o
jornal Lampião e, esporadicamente, grupos de todo o país recebiam cartas
ameaçadoras de “comandos de caça aos gays”. Richetti organizou a operação
“Rondão” a qual, durante dias, espancou e prendeu dezenas de homossexuais,
travestis e prostitutas do centro de São Paulo.
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- A tremenda
violência da operação fez com que amplos setores da sociedade se levantassem
contra ela e uma passeata convocada pelo movimento homossexual, grupos
feministas e o Movimento Negro Unificado, no dia 13 de junho, reuniu
aproximadamente 1.00 pessoas, entrando para a história como uma das maiores
mobilizações de homossexuais que este
país já conheceu.
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- Pesquisa:
Agradecimentos ao Grupo CidadaniaARV
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