- Que homem é esse? O masculino em
questão.
Algum tempo atrás, durante os anos 80. Em plena Galeria Alaska - um dos
santuários gays de Copacabana, antes dos tempos mais negros da AIDS frequentado,
nos fins de noite, por toda a "marginália cult" carioca - um show faz um enorme
sucesso: "Os Leopardos". No palco, homens exibem, mais uma vez, seus corpos (às
vezes excessivamente bem torneados) e sua virilidade. Tendo, de início, atraído
o público masculino tradicional da Galeria, marcadamente gay, o show vai
ampliando sua penetração junto ao público em geral e termina por ganhar uma
platéia onde a presença feminina se destaca tanto pelo número quanto pelo
entusiasmo da participação.
Mais uma vez, o "homem objeto" fazia um enorme
sucesso. Exibição de corpos, strip tease e, "last but not the least", um final
apoteótico: cada um dos "rapazes" (como eram apresentados por Eloína - travesti
responsável pela coordenação do espetáculo e pela seleção dos que se
apresentavam) entrava em cena para uma última volta no palco exibindo seu pênis
em ereção! Associando o prazer de se exibir à possibilidade de ascenção através
de novas oportunidades de trabalho ou de bons contatos, os "rapazes" seduziram
homens e mulheres durante um largo tempo, constituíndo-se numa referência "cult"
para uma nova erótica exibicionista, marcada de modo acentuado por uma
sensualidade bastante explícita e um tanto grotesca, que envolvia o corpo
masculino.
Há alguns anos, ainda nos anos 80. Um dos
resultados do movimento gay, especialmente do americano (e exportado com sucesso
para outros países), foi o surgimento e a afirmação de um padrão, de um modelo
masculino gay marcado pela ênfase em corpos bem definidos, demonstrando fôrça
física (às vezes com um certo ar de "brutalidade" ou de "violência") - um
"simulacro" contemporâneo dos "fortões" dos anos 50 - e, mais uma vez, lançando
mão de um erotismo fortemente exibicionista. Um exibicionismo que, em certos
casos, tomava o lugar da prática sexual efetiva. Evidentemente, o aparecimento
da AIDS veio reforçar esta substituição eventual da prática sexual efetiva pela
exibição. Afirmava-se uma espécie de "safe sex" radical e retórico.
Embora esta
erótica exibicionista não se confunda com (ou não se reduza ao) discurso no
interior do qual se produziu a idéia de "safe sex", sendo-lhe anterior e mais
geral, um elemento serviu de reforço ao outro. Entrava em cena um personagem
que, calcado na ambiguidade, exacerbava características masculinas tradicionais
e as inseria numa nova lógica. Paralelamente, os Rambos e congêneres -
encarnando talvez na mídia esta erótica gay - seduziam um público adolescente
cada vez menos preocupado com a identidade ou com a orientação sexual de seus
heróis.
Neste ponto, vale uma pergunta: que
"masculino" é esse que se revela ou que se afirma em cada um desses casos?
Apesar das eventuais diferenças entre cada uma das cenas, todas parecem
convergir na direção de pelo menos duas características marcantes: de um lado,
uma forte dose de exibicionismo; de outro, a presença da ambiguidade e da
simulação. Se pensarmos com calma, veremos que estas eram, até recentemente,
características do "feminino". Afinal de contas, era a "mulher" que,
exibindo-se, seduzia o "homem"; era a "mulher" que fingia, que simulava até o
gozo. Daí, aliás, o "perigo" representado pela "mulher", ou pelo "feminino" em
geral. Em direta oposição, situava-se, também até muito recentemente e com
razoável clareza, um "masculino" ou um "homem" marcado pela discrição e reserva,
por uma ausência de ambiguidade que resultava numa definição categórica, uma
espécie de "certeza fundamental" capaz de limitar e conter a ambiguidade do
"feminino".
Se o ponto de partida (não muito
distante) era tão claro, como chegamos a esta "confusão" contemporânea entre os
sexos, ou melhor, entre os gêneros? Esta idéia de confusão, de mistura me parece
fundamental. Aliás, ela já esteve, ao longo dos anos 30, presente no debate
relativo ao que então se designava como "inversão sexual". A medicina legal da
época, principalmente com base nos trabalhos e reflexões de Afrânio Peixoto,
importante figura do campo médico daquele momento, desenvolveu a curiosa noção
de missexualidade. Qual o seu significado? Missexual era aquele
indivíduo que misturava, em seu comportamento, características da ordem do
masculino com características da ordem do feminino. E era exatamente este
aspecto da mistura que tornava problemático este tipo de comportamento. A
solução proposta, bem ao sabor daqueles "tempos modernos", era a obtenção de uma
nova ordenação, o estabelecimento de uma nova ordem através da eliminação desta
"confusão". De um lado, o masculino; de outro, o feminino. Ambos em estado puro
e tendo como referência definitiva (e definidora) a anatomia.
Apesar das idas e vindas do pensamento
psicanalítico e do esforço na construção de uma visão menos empirista, linear e
simplificadora - sem que se esqueça, evidentemente, que estes médicos leram e
citaram Freud - um certo senso comum bastante hegemônico parece ter se agarrado
fortemente a este tipo de visão que privilegia uma demarcação clara e definitiva
entre o masculino e o feminino. E mais: fixou-se também um certo senso comum
para o qual a oposição entre hetero e homossexualismo (bem como a "veracidade"
definitiva destas categorias) tem a mesma naturalidade daquela assumida entre
masculino e feminino. Entretanto, toda a naturalidade e a simplicidade deste
raciocínio bipolar e mais ou menos reificador parece estar se esgotando
atualmente. Ao mesmo tempo, a idéia de confusão, de mistura
retoma agora a cena só que com um sinal positivo. Nosso presente "pós-moderno"
valoriza a ambiguidade, a fragmentação, a indefinição, enfim, as "zonas
cinzentas" do comportamento.
Na trajetória recente da história do
"masculino", pelo menos de meados dos anos 60 para cá, dois dados parecem
merecer algum destaque. Sem, evidentemente, querer estabelecer relações
mecânicas e necessárias e também sem esquecer que as discussões atuais em torno
da noção de masculino vão chamar a atenção para aspectos bastante
específicos - o que aponta para uma trajetória até certo ponto
própria deste debate - gostaria de lembrar o papel desempenhado tanto pelo
movimento feminista quanto pelo movimento gay.
Em primeiro lugar, havia, tanto num caso
quanto no outro, uma interlocução mais ou menos explícita com o "masculino"
-ainda que se deva levar em conta, é claro, que esta categoria pode apontar para
os mais distintos significados e, assim, o "masculino" que se discute hoje pode
ter pouco a ver com aquele de ontem. Em segundo lugar, ambos os movimentos
tiveram um impacto bastante siginificativo sobre a noção mesma de identidade -
seja no sentido de acentuar e esquentar a discussão em torno deste tema, seja no
sentido de revelar seu caráter de construção simbólica, produzida no contexto de
complexas determinações sociais e políticas, terminando por relativizar a
"rigidez" de seus contornos e a "fôrça" de sua base.
Assim, a possibilidade da colocação em
discussão da idéia de uma identidade masculina, de um comportamento masculino ou
da própria categoria masculino se encontra hoje fortemente acentuada. O assunto
é frequentemente abordado na imprensa, grupos de discussão começam a se formar e
o espaço acadêmico dá mostras de interesse. Diante disso, como nos situarmos?
Inventamos um "masculinismo" que vá fincar o pé no terreno aparentemente sólido
da identidade em plena era das "identificações" sucessivas, do "para além da
identidade"? Percorremos mais uma vez (talvez agora com ar de farsa!) os mesmos
caminhos do movimento feminista ao longo dos últimos 20 anos? Ou, num gesto
ousado (mas talvez consequente), apostamos na "confusão"/"simulação"
contemporânea e aí investimos política e teoricamente com o
objetivo de ir fundo na tentativa da desconstrução do discurso naturalista e
linear no qual se inserem as oposições masculino/feminino e tantas outras do
gênero? Esta última hipótese, ainda que arriscada, me
parece mais tentadora.
- Autor: Carlos Alberto Messeder
Pereira (camp@cfch.ufrj.br)
(originalmente publicado como em
Sócrates Nolasco (org.) A Desconstrução do Masculino. Rio de Janeiro:
Rocco, 1995, pg. 53 a 58. Reproduzido com autorização do autor)
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