Queer

 Á sete anos atrás eu vivia a minha primeira Parada Gay
(Crônica de um paulista meio confuso com a representatividade da Parada Gay na sociedade.)

Prezados amigos do Farofa Digital vou contar a minha primeira aventura numa parada Gay, isso foi á sete anos atrás...

Das ruas paralelas à Paulista, engarrafadas com o trânsito desviado, já era possível ouvir a algazarra. Fomos para lá eu e mais um casal de amigos – ele gay, ela lésbica e os três “se divertindo horrores”, como dizíamos. Enquanto procurávamos um lugar para estacionar, o jeito era acompanhar a plenos pulmões o hit “Dancing Queen” do Abba, para já irmos entrando no ritmo. A quinta Parada do Orgulho GLBT, a primeira da qual eu participava, prometia. Mal sabíamos que até o fim da tarde, voltaríamos a ouvir a mesma canção mais umas duzentas vezes.

Sabe aquele clichê clássico sobre “celebrar a diversidade” que aparece em todo texto panfletário na época da parada? Pois é, até chegar lá eu também achava que era um só um clichê. Não quanto à diversidade, mas mais na parte do “celebrar” mesmo. Quem disse que preconceito é só coisa de hétero? Não que eu fosse sair na porrada com alguma drag queen no meio do caminho. Até porque a cena ia ser bizarra. Mas eu nunca tinha imaginado que ia me divertir tanto com gente tão diferente – e perceber, afinal, que somos mesmo todos iguais.

Você precisa tentar entender o surrealismo da cena: imagine subir a Brigadeiro e encontrar aquela multidão colorida, os tipos mais exóticos, o som enlouquecedor, toda a agitação, as bandeiras e as bexigas. Tudo isso em uma Paulista isolada, vazia, idílica. O centro nervoso do país estava à toa na vida, esperando para ver a banda passar cantando coisas de amor.

Só que a banda curtia um bom techno e veio armada com trios elétricos potentes, daqueles de fazer o bate-estaca impregnar no canto mais recôndito do seu inconsciente. Pegando carona no topo vinham artistas, ativistas, anônimos privilegiados e uns go-go boys para fazer a farra da galera. Assim que o desfile começou, eu e meus amigos nos infiltramos no meio da bagunça. Corremos até um dos primeiros trios e acompanhamos dançando sem muita pressa, para aos poucos irmos sendo tragados pelo próximo. Desse jeito, experimentamos todos. A tática funciona e eu a recomendo para seja lá qual manifestação popular você participar – carnaval, micareta, cortejo fúnebre...

No fim, ficamos no trio patrocinado pela danceteria So-Go, que era definitivamente o mais animado. Passamos metade da tarde procurando vários amigos que também vinham para a parada e, claro, não encontramos nenhum. Duzentas mil pessoas é gente demais até para o famoso radar dos gays. Trombamos, isso é verdade, com alguns outros conhecidos, acidentalmente. E é da expressão no rosto desses encontros casuais que mais me recordo. A felicidade era palpável, os abraços eram imediatos. Havia alguma coisa diferente, uma sensação de união e de comemoração genuína, como eu não provava há muito tempo. Se o objetivo da parada era inspirar orgulho, posso dizer que, no meu círculo social, funcionou muito bem.

Quando dei por mim, tudo havia acabado. Disseram que era porque tínhamos que liberar a Paulista para os corinthianos. Já estávamos na reta final e a parada parecia haver passado rápido demais – mais ou menos a mesma impressão que tive quando desfilei no Sambódromo do Rio. Aliás, os paralelos com o carnaval não terminaram por aí. Descendo a Consolação, desconsolado, fui notando a imensa quantidade de transeuntes que nos acompanhavam das calçadas, interessados na mera diversão do espetáculo. Nas janelas dos prédios, sexagenários dançavam “I’ll Survive” (outro clássico) em passos de rumba desajeitada. Bebês davam tchaus para as drags, aquelas imensas bonecas de porcelana. E aí eu me liguei que tudo era mesmo um imenso carnaval. Só que com música melhor.

Gays, lésbicas ou heterossexuais, pouco importa: quem sublimou qualquer preconceito e seguiu a multidão aproveitou uma bela de uma festa. E com certeza aprendeu um pouco mais de respeito pelo próximo. Estarão sempre convidados a virem... hummm... “celebrar a diversidade” conosco. Para alguns clichês não há cura, mas para a intolerância e o medo sempre tem.

Marcel Nardale é jornalista da revista eletrônica Rabisco e colaborador do Portal Farofa Digital.


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