Você sabe o que significa PUNK?
- Não ideologicamente, mas a palavra em si. Sabe? É um termo inglês, claro, e
quer dizer:
- 1. jovem sem
experiência;
- 2. pessoa ou coisa
inútil, imprestável;
- 3. homossexual
passivo
- 4. tocha, mecha [de
fogo]
- Entretanto, se formos além, na origem da palavra, descobrimos que
PUNK é um termo arcaico para denominar a
madeira seca que se utilizava para fazer tochas, o mesmo significado da palavra
FAGGOT (bicha, viado). Vocês devem se
lembrar que alguns séculos atrás as bruxas, homossexuais, criminosos e outros
inimigos do Estado eram queimados na fogueira. A nome da tocha que utilizavam
para atear fogo à essa fogueira logo foi utilizado para denominar as vítimas
também. Não lhes parece interessante?!, nada acidental que as palavras
PUNK e FAGGOT tenham a mesma origem... Será que os
punks são viados...?
-
Muito antes do punk significar moicanos e toda essa trecaiada, muitos garotos
jovens iam parar nas cadeias norte-americanas para saciar os desejos sexuais dos
presos, e eram conhecidos como "punks". Os presos diziam "I punked the kid". Esses punks originais estavam
cheios de tatuagens caseiras, muitos eram delinqüentes juvenis, quebravam as
normas da sociedade, e isso incluía tudo, desde a música que ouviam (Patty
Smith, Dee Dee Ramone, Sid Vicious e sua famosa camiseta), até suas roupas e
atitudes. Não podiam continuar na vertente do "amor livre" dos hippies. Mudaram
para algo muito mais duro, com muito couro negro e atitudes extremas. Os punks
criaram o fenômeno de uma subcultura visivelmente oposta às instituições que
tentam controlar tudo, incluindo a liberdade sexual.
-
Alguma vez te xingaram de "viado" por ser punk?
- Quem te xinga pensa que está te insultando, que você vai se ofender. As
pessoas se sentem indignadas e não sabem como denominar uma atitude ou um visual
que não conhece - é diferente, é viado! Mas ainda que te digam isso da forma
mais ofensiva, não interprete assim, pois:
- Como disse Tangalanga: "quem chama o outro de viado, é porque viado é";
- Te chamaram de viado porque a maneira que você se veste ou se comporta é tão
rebelde que se supõe que essa atitude deva se
estender aos hábitos sexuais "normais" da sociedade.
- Da próxima vez, não se ofenda, lembre-se das conotações que tem o suposto
insulto. Talvez devesse sentir-se até orgulhoso - como nós nos sentimos!
-
- Nos fins dos anos 60, começo dos anos 70 o rock havia chegado muito
longe...
...era uma indústria cada vez mais complexa. O conservadorismo havia invadido
suas estrelas e o protesto hippie já não convencia a nova geração. Tinha que
haver um retorno a rebeldia por si, à violência fácil e ao velho rock and roll. Assim o Gay Rock surgiu como grito
pela decadência, cercado de um visual sexy, muito contrário ao visual simples do
pacífico amor livre.
- David Bowie, catalizador de tudo que o gay rock chegou a significar,
adotava um visual totalmente glitter, o mesmo que já havia feito o lendário
Little Richard. Lou Reed brilhava como o rebelde. Eram exemplos de
um retorno àquela antiga força.
- Breve história da conexão gay-punk
Do rock gay ao punk gay foi um passo. E quem o deu foram os New York
Dolls. Com sua atitude decadente e exagerada, foram criadores diretos do som
punk-rock junto a outros expoentes do cenário novaiorquino.
- Durante o período de
formação dessa nova música e ideologia (75 - 76) a ênfase estava em livrar-se
dos conceitos estabelecidos e das limitações. O lance era experimentar mais do
que defender um rótulo. Alguns dos artistas mais importantes daquela nova música
(como Patty Smith, ou os Ramones) tinham músicas referentes a
homossexualidade em seus primeiros lp's. Nervous Gender, Catholic Discipline,
The Dicks, X-Ray Spex, todos questionavam os papéis sexuais em suas letras.
 Também os Buzzcocks no sucesso "Orgasm Addict" e até a Siouxie
cantava músicas dirigidas a outras mulheres. Grande número de punks famosos
tiveram experiências com seus companheiros do mesmo sexo, começando por
Sid e Johnny (antes da Nancy...). Existia uma manifestção muito
grande do sexo ligada ao punk, da imagem à atitude: roupa de couro e borracha,
namorados que se levavam por coleiras de
cachorro, correntes, etc., tudo misturado para criar uma visão agradável de
protesto contra a repressão social, cultural, sexual, GERAL!
-
Mas o punk não demorou pra transformar-se numa moda, e uns anos depois veio a transição para o hardcore. Nos EUA os caras continuaram a
acelerar a música e substituíram as roupas escandalosas e provocantes por outra
mais arrumadinha e "normal", que lhes permitia passar melhor (não serem presos,
trabalharem, irem à escola, etc.).
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- A experiência do punk ter sido absorvido pelo
sistema e se transformado em moda fez os
hardcores renegarem seus predecessores e vestirem camisetas de suas bandas
favoritas, bermudas, bonés, camisas e cortarem o cabelo. Assim, como sabemos, a
tendência se massificou muito mais que o punk, e várias das bandas que haviam
começado o movimento deixaram crescer o cabelo enquanto aprendiam a tocar seus
instrumentos. Não eram mais punks ou hardcores, mas "músicos". Alguns assinaram
contratos com grandes gravadoras e lançaram moda de "ser alternativo"
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 Mais uma vez tenho que esclarecer que havia exceções, nem todo mundo agia da
mesma forma. O período hardcore no entanto foi muito marcado por essa tendência
machista, criticada por algumas bandas, como Fugazi, Crucifucks e
Rhythm Pigs.
- Voltemos à cronologia! O hardcore trouxe consigo uma onda machista que não
existia no punk original. Assim, foi notável a diminuição da quantidade de
mulheres e gays não apenas nas bandas, mas também no público. Era uma sensação de que o hardcore
era música de "homens", e eles se encarregavam de demonstrá-lo dos palcos ao
público, e vice-versa. As mulheres já não tinham espaço nas danças, que se
tornavam muito mais violentas, e o
mesmo se passava com os caras mais fracos, que não podiam competir com quem
controlava o espaço, e aí tinham que cair fora.
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Em 86-87 parece que aqueles que haviam sido deslocados tomaram uma atitude.
Tanto é assim que o final dos anos 80 chegou com uma porrada de bandas, algumas
só de garotas, outras só de gays, bandas de homens e mulheres, todas buscando espaço. Isso se viu não
apenas no cenário musical, mas também através de zines feministas,
anti-machistas, anti-sexistas e cujo ponto alto foi o HOMOCORE, como zine
e como movimento, criado pelo [canadense] Bruce Labruce.
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Finalmente estes últimos anos têm consolidado a atividade das garotas
agrupadas como RIOT GRRRLS, como GIRL ACTION e consagrado bandas como L7,
Babes In Toyland, Bikini Kill (com pontos de vista extremos quanto
a atitude feminina). O mesmo se passa com as bandas que fazem do ato de ser gay
uma postura política: são muito importantes e respeitadas no panorama
underground (como Pansy Division, Tribe 8, e outras).
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- Este texto saiu originalmente no fanzine argentino "Resistencia",
em 1994. Este zine era publicado pela Patricia, da banda She-Devils, desde
aquela época em sintonia fina com o homocore e as grrrls. Depois este
texto foi incluído no encarte do EP "Perversos, Desviados, Invertidos", o
primeiro disco queercore latino.
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