Queer

30 anos se passaram e eu te pergunto; Será que os Punks são Gays?
Você sabe o que significa PUNK?
Não ideologicamente, mas a palavra em si. Sabe? É um termo inglês, claro, e quer dizer:
1. jovem sem experiência;
2. pessoa ou coisa inútil, imprestável;
3. homossexual passivo
4. tocha, mecha [de fogo]
Entretanto, se formos além, na origem da palavra, descobrimos que PUNK é um termo arcaico para denominar a madeira seca que se utilizava para fazer tochas, o mesmo significado da palavra FAGGOT (bicha, viado). Vocês devem se lembrar que alguns séculos atrás as bruxas, homossexuais, criminosos e outros inimigos do Estado eram queimados na fogueira. A nome da tocha que utilizavam para atear fogo à essa fogueira logo foi utilizado para denominar as vítimas também. Não lhes parece interessante?!, nada acidental que as palavras PUNK e FAGGOT tenham a mesma origem... Será que os punks são viados...?
 
Muito antes do punk significar moicanos e toda essa trecaiada, muitos garotos jovens iam parar nas cadeias norte-americanas para saciar os desejos sexuais dos presos, e eram conhecidos como "punks". Os presos diziam "I punked the kid". Esses punks originais estavam cheios de tatuagens caseiras, muitos eram delinqüentes juvenis, quebravam as normas da sociedade, e isso incluía tudo, desde a música que ouviam (Patty Smith, Dee Dee Ramone, Sid Vicious e sua famosa camiseta), até suas roupas e atitudes. Não podiam continuar na vertente do "amor livre" dos hippies. Mudaram para algo muito mais duro, com muito couro negro e atitudes extremas. Os punks criaram o fenômeno de uma subcultura visivelmente oposta às instituições que tentam controlar tudo, incluindo a liberdade sexual.
 
Alguma vez te xingaram de "viado" por ser punk?
Quem te xinga pensa que está te insultando, que você vai se ofender. As pessoas se sentem indignadas e não sabem como denominar uma atitude ou um visual que não conhece - é diferente, é viado! Mas ainda que te digam isso da forma mais ofensiva, não interprete assim, pois:
Como disse Tangalanga: "quem chama o outro de viado, é porque viado é";
Te chamaram de viado porque a maneira que você se veste ou se comporta é tão rebelde que se supõe que essa atitude deva se estender aos hábitos sexuais "normais" da sociedade.
Da próxima vez, não se ofenda, lembre-se das conotações que tem o suposto insulto. Talvez devesse sentir-se até orgulhoso - como nós nos sentimos!
 
 Nos fins dos anos 60, começo dos anos 70 o rock havia chegado muito longe...
...era uma indústria cada vez mais complexa. O conservadorismo havia invadido suas estrelas e o protesto hippie já não convencia a nova geração. Tinha que haver um retorno a rebeldia por si, à violência fácil e ao velho rock and roll. Assim o Gay Rock surgiu como grito pela decadência, cercado de um visual sexy, muito contrário ao visual simples do pacífico amor livre.
David Bowie, catalizador de tudo que o gay rock chegou a significar, adotava um visual totalmente glitter, o mesmo que já havia feito o lendário Little Richard. Lou Reed brilhava como o rebelde. Eram exemplos de um retorno àquela antiga força.

Breve história da conexão gay-punk
Do rock gay ao punk gay foi um passo. E quem o deu foram os New York Dolls. Com sua atitude decadente e exagerada, foram criadores diretos do som punk-rock junto a outros expoentes do cenário novaiorquino.
Durante o período de formação dessa nova música e ideologia (75 - 76) a ênfase estava em livrar-se dos conceitos estabelecidos e das limitações. O lance era experimentar mais do que defender um rótulo. Alguns dos artistas mais importantes daquela nova música (como Patty Smith, ou os Ramones) tinham músicas referentes a homossexualidade em seus primeiros lp's. Nervous Gender, Catholic Discipline, The Dicks, X-Ray Spex, todos questionavam os papéis sexuais em suas letras.

Também os
Buzzcocks no sucesso "Orgasm Addict" e até a Siouxie cantava músicas dirigidas a outras mulheres. Grande número de punks famosos tiveram experiências com seus companheiros do mesmo sexo, começando por Sid e Johnny (antes da Nancy...). Existia uma manifestção muito grande do sexo ligada ao punk, da imagem à atitude: roupa de couro e borracha, namorados que se levavam por coleiras de cachorro, correntes, etc., tudo misturado para criar uma visão agradável de protesto contra a repressão social, cultural, sexual, GERAL!
 
Mas o punk não demorou pra transformar-se numa moda, e uns anos depois veio a transição para o hardcore. Nos EUA os caras continuaram a acelerar a música e substituíram as roupas escandalosas e provocantes por outra mais arrumadinha e "normal", que lhes permitia passar melhor (não serem presos, trabalharem, irem à escola, etc.).
 
A experiência do punk ter sido absorvido pelo sistema e se transformado em moda fez os hardcores renegarem seus predecessores e vestirem camisetas de suas bandas favoritas, bermudas, bonés, camisas e cortarem o cabelo. Assim, como sabemos, a tendência se massificou muito mais que o punk, e várias das bandas que haviam começado o movimento deixaram crescer o cabelo enquanto aprendiam a tocar seus instrumentos. Não eram mais punks ou hardcores, mas "músicos". Alguns assinaram contratos com grandes gravadoras e lançaram moda de "ser alternativo"
 
Mais uma vez tenho que esclarecer que havia exceções, nem todo mundo agia da mesma forma. O período hardcore no entanto foi muito marcado por essa tendência machista, criticada por algumas bandas, como Fugazi, Crucifucks e Rhythm Pigs.
Voltemos à cronologia! O hardcore trouxe consigo uma onda machista que não existia no punk original. Assim, foi notável a diminuição da quantidade de mulheres e gays não apenas nas bandas, mas também no público. Era uma sensação de que o hardcore era música de "homens", e eles se encarregavam de demonstrá-lo dos palcos ao público, e vice-versa. As mulheres já não tinham espaço nas danças, que se tornavam muito mais violentas, e o mesmo se passava com os caras mais fracos, que não podiam competir com quem controlava o espaço, e aí tinham que cair fora.
 
Em 86-87 parece que aqueles que haviam sido deslocados tomaram uma atitude. Tanto é assim que o final dos anos 80 chegou com uma porrada de bandas, algumas só de garotas, outras só de gays, bandas de homens e mulheres, todas buscando espaço. Isso se viu não apenas no cenário musical, mas também através de zines feministas, anti-machistas, anti-sexistas e cujo ponto alto foi o HOMOCORE, como zine e como movimento, criado pelo [canadense] Bruce Labruce.
 
Finalmente estes últimos anos têm consolidado a atividade das garotas agrupadas como RIOT GRRRLS, como GIRL ACTION e consagrado bandas como L7, Babes In Toyland, Bikini Kill (com pontos de vista extremos quanto a atitude feminina). O mesmo se passa com as bandas que fazem do ato de ser gay uma postura política: são muito importantes e respeitadas no panorama underground (como Pansy Division, Tribe 8, e outras).
 
Este texto saiu originalmente no fanzine argentino "Resistencia", em 1994. Este zine era publicado pela Patricia, da banda She-Devils, desde aquela época em sintonia fina com o homocore e as grrrls. Depois este texto foi incluído no encarte do EP "Perversos, Desviados, Invertidos", o primeiro disco queercore latino.

Envie esta página para alguém

 


Anúncie | Fale conosco | Seja Parceiro | Política de Privacidade | Quem somos
 
Farofa Digital 2002© Todos os direitos reservados