- Homossexuais
que fizeram história- Parte 2
O amor homossexual sempre rondou os bastidores da
História, independentemente de classe social, raça, religião, postura política
dos seus agentes. E é isso que mostra o historiador Amílcar Torrão Filho, no
livro "Tríbades Galantes, Fanchonos Militantes". A obra mapeia a história,
começando por Gilgamech (acima, numa gravura), passando pelos gregos e grandes
imperadores romanos (como Adriano, acima) e chegando aos relacionamentos
homossexuais de personalidades do mundo contemporâneo.
Nunca a sociedade viu tantos
casais assumirem a homossexualidade como de umas três décadas para cá.
Estaríamos entrando numa fase mais liberal, certo? Errado. Espantosamente,
voltando alguns séculos podemos observar que a sociedade já foi bem menos
preconceituosa. É bem verdade que os homens sempre sofreram menos ao assumirem
uma preferência sexual fora dos padrões socialmente aceitos. O homossexualismo
masculino, inclusive, já foi considerado sinal de virilidade.
É o que consta do Código
Hamurabi, conjunto de leis babilônicas, de 1750 a.C. Trata-se de uma das mais
antigas inscrições de leis da Antigüidade e que inspirou códigos semelhantes em
diversas civilizações, como a dos hititas (que reconheciam o casamento entre
homens) e hebreus. Este código fala de certos privilégios para os prostitutos e
prostitutas sagrados. "Em muitos cultos antigos, os sacerdotes deviam
prostituir-se no templo e mesmo os fiéis deviam fazê-lo ao menos uma vez por
ano", explica Amilcar Torrão Filho, autor de Tríbades Galantes, Fanchonos
Militantes - Homossexuais que Fizeram História (Editora GLS).
Baseado numa dezena de livros,
e mais aprofundadamente em obras de John Boswell, Paul D. Hardman, Paul Veyne,
Aline Rousselle e Marie-Jo Bonnet; e em artigos de, entre outros, V.A Kolve, Tom
Cowan, Colin Spencer e António Sánchez, Torrão Filho fez um amplo levantamento
histórico e expõe a realidade sexual, antropológica e histórica do homoerotismo,
como ressalta o professor de História Moderna da Universidade Federal
Fluminense, Ronaldo Vainfas. "A intenção foi dar um panorama histórico da
situação dos homossexuais em vários períodos e, sempre que possível, introduzir
a vida de grandes personalidades gays e lésbicas", salienta o autor. "Tratar da
homossexualidade de personalidades famosas não é fácil, já que tal faceta na
vida destas pessoas costuma ser deliberadamente apagada de suas biografias."
Tábua de
argila, em caracteres cuneiformes assírios, de 2.000 a.C., descoberta em
Nínive por arqueólogos ingleses, revelou ao mundo a Epopéia de Gilgamech,
com o retrato do amor homossexual do rei de Uruc (ao lado).
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A garimpagem histórica de
Torrão Filho remete o leitor ao ano de 2000 a.C. Mais especificamente à
Epopéia de Guilgamech (ou Gilgamesh), um conjunto babilônico de 12
pedaços de argila. Foram descobertos em Nínive, em 1853, por arqueólogos
ingleses. O texto, uma bela obra de ficção, narra a história de Guilgamech, rei
de Uruc, criado pelos deuses. Eles lhe conferiram beleza, inteligência, coragem,
força... Era dois terços deus e um terço homem. Como o rei era mesmo o máximo
entre seu povo, verdadeiramente onipotente, não foi difícil vestir-se de
arrogância. Dono de um insaciável apetite sexual, era ele quem desvirginava as
donzelas antes dos maridos.
O povo, não suportando mais os
poderes ilimitados de seu rei, suplicou aos deuses a criação de um outro ser
para rivalizar com Guilgamech. Assim nasceu Enkidu, por quem o rei de Uruc
acabou se apaixonando. Quando Enkidu morreu, Guilgamech chorou sua morte como a
de uma amante:
"Ouvi-me, grandes de Uruc,/
Choro por Enkidu, meu amigo,/ Amargamente me lamentando, como mulher enlutada./
Choro por meu irmão./ Ó Enkidu, meu irmão,/ Foste o machado a meu lado,/ A força
de minha mão, a espada em meu cinturão..."
Segundo Torrão Filho, em Uruc
era comum a presença de sacerdotes travestidos, tanto homens vestidos de mulher
como mulheres vestidas de homem. "Os homens engajados na prostituição sagrada
eram vistos como aqueles cuja masculinidade a deusa Ishtar havia transformado em
feminilidade." Era uma época, comenta o autor, na qual a prostituição e a
homossexualidade não eram estigmatizados.
A epopéia de Guilgamech,
completa Torrão Filho, embora seja uma obra de ficção, mostra que na Antigüidade
as relações entre pessoas do mesmo sexo eram vistas como exemplo de virilidade,
e "uma relação honrada até mesmo pelos grandes heróis e deuses".
Na Judéia, reino dos judeus,
monoteístas e inimigos de práticas pagãs, também observou-se a prática da
prostituição sagrada, de homens e mulheres. Na Grécia, o Templo de Afrodite
guardava em torno de mil prostitutas que serviam à deusa e seus seguidores.
Escravos e tiranos
Sólon (c.640-c.558 a.C),
grande legislador considerado um dos sete sábios da Grécia, dizem alguns
autores, não resistia ao charme dos rapazes. Criador de importantes leis, como a
que estimulava uma maior participação dos cidadãos pobres na vida política e
lhes proporcionava mais acesso à justiça. Mas ele também proibiu que escravos
tivessem amantes. "Esta proibição nos faz pensar que não eram incomuns as
relações entre escravos e homens livres como amantes, não apenas como o uso de
um ser subalterno, o escravo, pelo seu dono e senhor, que podia fazer dele o que
bem quisesse", escreve Torrão Filho.
Dizem que o amor cega. Talvez
tenha sido esta a explicação para a maleabilidade de Sólon, praticamente o
responsável pela instituição da democracia em Atenas frente aos atos tirânicos
de seu parceiro. Pisístrato teria usurpado o poder em 561 a.C, mas foi deposto
duas vezes, em 556 e 552 a.C. Em 538, no entanto, Atenas estava novamente sob a
guarda dele. Muitos alegam que Sólon poderia ter agido com maior austeridade
para coibir os abusos do amado, o que não aconteceu. Ele preferiu apenas
abandonar o tirano. Pisístrato, por sua vez, foi consolar-se nos braços de
Carmo. Em sua homenagem, Pisístrato dedicou a estátua de Eros da Academia de
Filosofia, onde era acesa a chama sagrada.
Para o escritor Plutarco (46
ou 49-125 d.C.), em várias cidades gregas o tiranicídio teria sido resultado da
intervenção dos governantes em relações homossexuais dos cidadãos envolvidos em
revoltas contra o poder.
Na época de Aristóteles, a
tumba do legislador Filolau, o Coríntio, e de Diocles, atleta olímpico virou
ponto turístico. O casal teria vivido junto em Tebas, onde foram enterrados
juntos, como era tradição. Outro costume da época era a exposição, literalmente,
do amor. Apaixonado que era apaixonado escrevia o nome do seu amor em paredes,
árvores e muros. E foi o que fez Fídias, um dos maiores escultores gregos.
Gravou o nome do namorado no dedo da estátua de Zeus em Olímpia: "Belo
Pantárquio".
Muitos dos relacionamentos
amorosos tinham início nas aulas de ginástica nas quais homens e mulheres
praticavam exercícios totalmente nus. O amor entre soldados de guerra era outra
coisa bem incentivada. "Em Esparta e em Creta o amor entre os soldados era parte
fundamental da educação militar."
A poetisa Safo,
que escreveu versos sobre relacionamentos entre mulheres. Uma escultura de
Fídias, que marcou o nome do namorado no pé de uma imagem de Zeus. E o terrível
Calígula.
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Safo, considerada a "Décima
Musa" por Platão, nasceu na ilha de Lesbos. Dedicou estrofes e mais estrofes ao
relacionamento entre mulheres. A poetisa teve sua face estampada em moedas, em
vasos e também uma estátua em ponto de destaque. Torrão Filho diz que para o
filósofo Máximo de Tiro, Safo e Sócrates tinham a mesma linha de pensamento e
obras muito semelhantes, embora tivessem vivido em séculos diferentes.
"De uma erva de rara essência/ o corpo (que
aroma!) te ungi/ teus longos cabelos perfumei!/ E terna a meu lado deitada/ num
leito macio, como tu em mim/ não mitigavas tua sede e fome! (Safo)
Safo e suas alunas acabaram
outorgando às moradoras da Ilha de Lesbos a fama de voluntariosas e sexualmente
independentes. O local também ficou conhecido como grande celeiro lírico. Em
1073, em Constantinopla (atual Istambul), o papa Gregório VII ordenou que todos
os versos de Safo e de Alceu, também adepto dos versos alcaios, fossem
queimados. E o que restou acabou se perdendo no incêndio da Biblioteca de
Bazâncio em 1453.
Alexandre, o
Grande, num mosaico: o macedônio teve vários amores, entre eles Hefestião e o
eunuco Bágoas. Dois outros homossesxuais históricos: Nero e Júlio César.
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Entre os macedônios, o amor
grego também teve muitos adeptos. Por exemplo, Alexandre, o Grande (356-323
a.C). Seus grandes amores foram Hefestião e o eunuco Bágoas. quando Hefestião
morreu, Alexandre foi tomado pelo desespero. Ficou três dias sem nada comer,
cortou os cabelos e decretou luto oficial. "Ele preparou um funeral majestoso,
dirigindo ele próprio a carruagem fúnebre. Mandou cortar as crinas dos cavalos e
das mulas, bem como demolir as seteiras das muralhas das cidades, a fim de que
parecesse que até as muralhas mostravam luto", diz Torrão Filho no livro. Embora
nunca tenha abandonado o eunuco Bágoas, Alexandre casou-se logo depois com uma
prisioneira persa, Roxana.
A bissexualidade entre os
romanos era bastante comum. Porém, fazer sexo com adolescentes livres, com ou
sem consentimento, era passível de punição. Era permitido fazer sexo com
escravos, dançarinos, libertos, atrizes, com ou sem consentimento. Nas classes
mais altas, os homens tinham inúmeros escravos para servir a mesa e, comumente,
a eles e a seus convidados. As esposas tinham ciúmes dos rapazes considerados
favoritos. Quando nascia no rosto do meninos o primeiro bigode, ele perdia os
privilégios e era substituído. Eram conhecidos como delicati pueri ou delicium,
originários, normalmente da África, Egito, Alexandria, Etiópia e da Síria. Os
romanos condenavam a relação sexual com classes mais baixas, especialmente com
escravos, de maneira passiva. Também era condenável deixar-se dominar por
avassaladoras paixões. Era um passo para a "escravidão aos sentidos".
Imperadores romanos
Torrão Filho cita uma frase do
historiador inglês do século 18, Edward Gibbon: "dos 15 imperadores romanos,
apenas Cláudio não teve nenhum tipo de aventura homossexual". Por outro lado,
Royston Lambert afirma que de todos estes imperadores, o único que foi
exclusivamente homossexual foi Galba, sucessor de Nero.
Calígula alimentou grande amor
pela irmã Drusila, atacava mulheres de senadores, era, enfim um terror. Teve
ainda muitos amantes homens, como Lépido, Mnester; também costumava estuprar
presos de guerra. Não fazia questão de esconder afagos e beijos.
Nero teve dois maridos. Esporo
foi castrado e vestido de noiva no dia do casamento. Era tratado como a uma
imperatriz. O segundo era Pitágoras, a quem Nero se submetia como se fosse uma
mulher. Nos encontros amorosos entre os dois, Nero gritava como uma donzela.
Júlio César (100-44 a.C.), o
mais famoso dos governantes de Roma alimentou uma estreita relação com Nicomedes
IV (110-74 a.C.), rei da Bitínia. Comenta-se que o imperador teve sua reputação
arranhada por conta disso, e que teria aproveitado o romance para obter
vantagens políticas. Contudo, não perdeu poder ou prestígio. Júlio César também
costumava atacar mulheres, casadas ou solteiras, romanas ou não. Foi amante de
Eunoé, casada com o rei da Mauritânia, e de Cleópatra. Bruto, seu filho adotivo
e que ajudou a planejar sua morte, também tinha seus pupilos preferidos.
Públio Élio Adriano (76
d.C.-138 d.C.) promoveu um governo de grande impulso econômico, artístico e
cultural. Numa de suas viagens pela Ásia, conheceu um jovem grego de nome
Antínoo. Ficou com ele até sua morte. Adriano ficou tão desolado que o elevou à
categoria de deus, com seu nome foi batizada uma estrela e uma constelação, uma
cidade - a de Antinoópolis. Ainda em sua homenagem foram construídos templos,
altares, monumentos, estátuas e bustos e cunhadas moedas comemorativas.
Elagabalo ou Heliogábalo, um
príncipe sírio, foi imperador de Roma entre 218 e 222. Entre as medidas criadas
pelo imperador estavam a adoração ao deus sírio, o Sol, El-Gabal, e cultos ao
Príapo, pelo qual o falo masculino é adorado e deificado. Ficou conhecido por
sua preferência por homens fortes e viris. Teve três mulheres, uma, inclusive,
era sacerdotisa, o que contrariou todas as leis da época. Teve, ainda, vários
maridos, como o atleta Hierócles. Relacionava-se com homens e mulheres
pertencentes à classes inferiores. Morreu sem nunca aceitar os costumes e a
religião dos romanos.
Idade Média
Na Idade Média, percebe-se uma
mudança na conotação sexual. Médicos como Galeno, Oribásio, Rufo de Éfeso
pregavam a castidade, a vida monástica, longe das fulminantes paixões. A energia
sexual, defendiam, deveria ser poupada para a geração de filhos fortes, pois
acreditavam que o sêmen era finito e que, por isso, não deveria ser
desperdiçado. Também recomendava-se uma relação sem violência, o que desgastava
o corpo, diminuia a quantidade e interferia na qualidade do esperma. A
abstinência sexual contribuía para o desenvolvimento da mente e do corpo.
Passou-se, então, a privilegiar a relação heterossexual, já que a homossexual
masculina, normalmente, era mais violenta. Para as mulheres, os médicos nada
falavam.
Nos primeiros séculos do
cristianismo, os cristãos conciliavam valores pagãos à fé. "É difícil saber onde
a moral antiga e a cristã convivem ou separam-se nos primeiros séculos do
cristianismo. A passagem da tolerância quase ilimitada dos romanos com relação à
homossexualidade e às fogueiras dos cristãos é uma questão difícil de resolver",
salienta Torrão Filho. "Como observou Boswell, o cristianismo em seus primeiros
escritos não apresenta quase nenhuma condenação ao homossexualismo, que ainda
seria praticado com relativa liberdade por vários séculos."
Um dos mais famosos e
populares reis da Inglaterra, Ricardo Coração de Leão (1157-1199), coroado em
1189, durante seu reinado viajou praticamente o tempo todo. Nestas empreitadas,
levava consigo um amigo inseparável: Felipe Augusto II (1165-1223), rei da
França, filho de Luís VII. Felipe declarava amá-lo como a sua própria alma.
O pai de Ricardo, o rei
Herique II, questionava esta relação, mas devia entender já que ele próprio,
para desgosto da esposa, a rainha Eleonor de Aquitânia, tivera um caso com o
arcebispo de Canterbury Tomás Beckett. O romance entre Ricardo e Felipe Augusto
acabou, especialmente, por dois motivos. Ricardo não quis casar-se com a irmã do
amado, Alaís Capeto, e por disputa de poder. Ricardo, por determinação de sua
mãe, casou-se com a princesa Berengária de Navarra, mas muitos garantem que o
casamento sequer se consumou. Por outro lado, teve outros amantes, como Raife de
Clermon e Blondel de Nesles.
Alguns pesquisadores também
relacionam o nome de Ricardo ao de Robin Hood, apesar de não haver certeza sobre
sua existência. Stephen Knight, professor da universidade de Cardiff, garante
que algumas baladas medievais que mencionam os dois excluem o conteúdo erótico
homossexual. Uma das canções citadas pelo professor diz: "Quando Robin Hood
tinha uns vinte anos, conheceu João Pequeno, uma espada rápida e perfeita para o
negócio, porque ele era um homem cheio de desejo".
Adeptos do amor
grego na Renascença: Caravaggio, Leornardo da Vinci e Michelângelo.
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O amor grego fez-se presente
também no Renascimento entre os principais adeptos estão Leonardo da Vinci,
Michelângelo, Caravaggio, Shakespeare ou Giovanni Antonio Bazzi, o "Sodoma",
como gostava de ser chamado por causa de sua homossexualidade. Na Antigüidade, a
homossexualidade ainda tinha espaço considerável. O filósofo Montaigne
(1533-1592) publicou muitos ensaios sobre o assunto, sendo ele próprio um
afeiçoado pelo estilo.
Na realeza, meninos favoritos
Após a morte da esposa, o rei
Henrique III (1551-1589), da Polônia e depois da França, dedicou suas horas de
amor apenas aos seus mignons - sua guarda pessoal composta por belos rapazes e
que na intimidade chamavam-se por nomes femininos.
Jaime I (1556-1625), rei da
Inglaterra e Escócia, também teve seus meninos favoritos. Casou-se com Ana da
Dinamarca, mas em seu quarto pernoitavam os favoritos. Estes costumavam se dar
muito bem na vida, herdavam negócios e títulos. "Minha doce criança e esposa",
era desta forma que Jaime I chamava, em suas cartas, seu preferido George
Villiers. O rei costumava justificar seu comportamento alegando que "Jesus
também fizera o mesmo com os apóstolos e que também tinha seu preferido, João".
Jaime I e Francis
Bacon (de chapéu): homossexualismo explícito na corte. Livro trata também dos
monarcas afeminados, como Luís XV.
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Mais um nobre e político que
ficou conhecido por sua homossexualidade foi Sir Francis Bacon (1561-1626). Ele
foi chanceler na corte de Jaime I. Seu amante, trocavam carícias públicas para
desespero da mãe do nobre, foi Percy. O irmão de Bacon, Anthony, também tinha
conduta semelhante.
No século 17, a Inglaterra viu
surgir as molly houses (casas de veados). Numa delas, de propriedade de
Margarete Clap, um agente das Sociedades para a Reforma dos Costumes encontrou,
certa vez, cerca de 50 homens fazendo amor num único recinto. Neste mesmo
século, segundo Tríbades Galantes, o mais conhecido homossexual da corte
francesa foi Felipe de Orleans (1643-1715), regente do reino e irmão de Luís
XIV, casado com Henriqueta da Inglaterra.
Felipe não escondia sua
homossexualidade, vestia-se e pintava-se como uma mulher. Em 1667, dançou um
minueto em pleno palácio real fazendo par com seu amante, o Cavaleiro de Lorena.
Foi o duque de Orleans o fundador da Ordem dos Templários, da qual participavam
jovens adeptos da sodomia, como o Duque de Grammont, também seu amante; o
Cavaleiro de Tilladet e o Marquês de Brian.
Torrão Filho ainda cita os
Luíses, "reis conhecidos por sua efeminação e modos e trajes femininos, como as
perucas e os saltos altos Luís XV, foram grandes soldados e conquistadores,
adeptos fervorosos do poder absoluto dos reis, embora não tenham sido
exclusivamente adoradores do amor grego, como se pensa".
Na Idade Contemporânea
surgiram novas teorias sobre o homossexualidade. Para muitos especialistas, era
um problema congênito. Em contrapartida, estes mesmo médicos tinham medo de
"contaminar-se" por causa do contato com os "invertidos". Segundo Torrão Filho,
era o mais claro sinal de preconceito e contradição.
Dois nomes
homossexuais da literatura: Oscar Wilde e Marguerithe Youcenar. E o personagem
sempre lembrado Robin Hood.
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Grande nome da literatura,
Oscar Wilde (1845-1900), pecou, talvez, pela extravagância, tanto na maneira de
se comportar como na de se vestir. Lançava moda, chocava. De família irlandesa,
estudou em Oxford. Foi para Londres para conquistar fama. Mas conquistou fama e
derrota. Conheceu Frank Miles e tornaram-se amantes. Foi Frank que o apresentou
ao mundo do teatro e a personalidades famosas, como a atriz Lily Langtry, amante
do príncipe de Gales, e Sara Bernhardt, uma das maiores estrelas do século.
O primeiro romance de Wilde,
O retrato de Dorian Gray (1890) foi um escândalo. "Ele foi acusado de
expor uma ambígua personalidade homossexual na figura de seu protagonista; este
livro viria a ser um dos maiores ícones da cultura homossexual deste século, e
Dorian Gray praticamente um sinônimo de homossexual masculino", explica Torrão
Filho. Gray foi o nome de um de seus amantes preferidos, John Gray. Contudo, o
maior amor de sua vida foi Alfred Douglas, filho do marquês de Queensbery. Foi
devido a um processo contra o marquês que acabou preso e condenado. Ao sair da
prisão, dois anos depois, havia perdido tudo: fama, dinheiro, família, esposa e
amante. Morreu de meningite, em Paris, num quarto de hotel.
Mulheres famosas
A Revolução Russa, em outubro
de 1917, um dos grandes acontecimentos do século 20, também trouxe à tona um
significativo número de lésbicas famosas e assumidas. Para elas foram
inaugurados vários pontos de encontro, como bares e restaurantes, salões
literários, cafés e lançados livros. O movimento teve grande impulso nas
principais cidades européias. Nomes como o da escritora Virginia Woolf, Vita
Sackville West, Jane Addams, que ganhou o prêmio Nobel da Paz em 1931, apareciam
ligados ao lesbianismo. Jane, por exemplo, manteve um relacionamento de 40 anos
com Mary Rozet Smith.
A poetisa inglesa Renée
Vivien, que vivia em Paris, não ousou em assumir sua predileção sexual. Seu nome
verdadeiro era Pauline Tarn, mas foi com seu pseudônimo que assinou poemas de
amor lésbico.
Em seus versos, a morte
triunfava sobre a vida. Sua amante era a milionária Natalie Clifford Barney,
apelidada de "A Amazona". Viviam num círculo social que incluía as mais famosas
lésbicas da França daquele tempo, como as escritoras Marguerithe Yourcenar,
Colette, Gertrude Stein, Radclyffe Hall, Djuna Barnes, Lucie Delarue-Mardrus,
Liane de Pougy, Hilda Doolitle, as pintoras Marie Laurencin, Romaine Brooks, a
editora inglesa Sylvia Beach, Adrienne Monnier, as pianistas Wanda Landowska e
Renata Borgatti, Dolly Wilde (sobrinha de Oscar Wilde), os escritores Ezra
Pound, André Gide, Rainer Maria Rilke, a bailarina Isadora Duncan, etc.
A primeira mulher eleita para
a Academia Francesa de Letras, Marguerithe Yourcenar (1903-1987) viveu um
equilibrado e longo romance, de 1938 a 1979, com Grace Frick, quando esta
morreu. Publicou três livros sobre o homossexualismo masculino: Alexis, ou o
Tratado do Vão Combate (1929), Memórias de Adriano (1951) e A Obra
de um Negro (1968). Mary Renault, foi outra autora de sucesso com livros
publicados sobre o assunto. Sobre a homossexualidade feminina ela lançou The
Middle Mist.
Pesquisa
realizada a partir de dados apresentados pela Jornalista
e pesquisadora Cleide
Cavalcante
da Revista Magazine do Estadão
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