Queer

Onde está o arco-íris?

Antipatia é um sentimento que se adquire. Em instantes ou ao longo de mais alguns minutos numa blitz da SET, numa mesa de bar... Da antipatia pode nascer a simples indiferença ou, mais lá no fundo, a profunda repulsa; aquela que ataca, que estica o dedo, que bate na cara, ou nos moldes mais “cafajestamente” brasileiros, alisa pra depois bater.
 
No mundo inteiro há antipáticos a inúmeras coisas – inclusive à gente. No mundo inteiro, inúmeras fobias, porque - desde pequenos – a maioria de nós já nasce com medo. Medo de sair da barriga, medo da luz, de andar, de crescer; medos, até então, inerentes a todos nós. Depois os medos se generalizam e os riscos para denominá-los também. Mas, uma coisa está clara: fobia não e medo. Fobia é aversão, antipatia, repulsa, máscara. Para alguns, “viadagem”. Egos e inconsciências à parte, ninguém venha dizer que as aversões a negros, brancos, azuis, gays, Et´s, Ozamas e adjacências seja um sentimento que nasça com a gente.
 
As fobias não são orgânicas. A homofobia, muito menos. Daí, tantos especialistas em lingüística e psicologia não admitirem o termo como o mais condizente com o sentimento que milhões de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais lidam diariamente: o preconceito. Este, sim, irracional e adquirido, subjugado ao mais corriqueiro e intrínseco sentimento humano de superioridade. A superioridade que não aceita porque se julga melhor e que se auto - afirma por não saber admitir e conviver simplesmente com o que é diferente. Isso não pode ser fobia. Nem aqui nem na China. Nem no Brasil nem, sequer, na Bahia, onde, o então governador Otávio Mangabeira, certa feita disse com sabedoria: “se algo não existe, na Bahia, certamente já tem precedente!”.
 
Bahia que aparece em primeiro lugar, com 18 homicídios contra homossexuais, Bahia que tem uma Parada Gay cerceada pela censura de horário e os atravessados olhares da polícia militar, Bahia onde a diversão dos homossexuais está em grande parte à mercê dos becos. E há quem diga, de artistas.
 
Muitas conquistas merecem ser comemoradas no dia em que se declara Dia Municipal de Combate à Homofobia, especialmente na mesma Bahia onde um antropólogo como Luiz Mott tem voz em todo o país, onde o Grupo Gay tem sua representatividade reconhecida, principalmente na Justiça e onde também cada vez mais empresas reconhecem as uniões homossexuais como válidas para garantias de direitos básicos de seus funcionários, como assistência médica e seguridade, por exemplo.
 
A maioria dos direitos pelos quais se luta são - ou deveriam ser –conquistados ou garantidos por lei. Mas, e o respeito? Quem vai garantir? Como diria o Lukytto, “eu te digo, meu, bem”: só você mesmo. Só você mesmo pode parar pra pensar no que fala, no que sente, no que pensa e principalmente no que admite como certo e errado, falso ou verdadeiro. No que acolhe e no que dissemina.
 
Quer reconheçamos ou não, muitos preconceitos que, negros, brancos, azuis, Et´s, Ozamas, Marias, Josés e também homossexuais rechaçam, começam, vez ou outra, no próprio “gueto”. Despercebidamente.
 
E como a moda agora é ser politicamente correto, atenção! Se há baiano que só toca berimbau porque tem uma corda, também tem bicha que pode ser presa por que chamou a outra de veada!
 
“Vestir camisa” não é imprescindível pra nada, mas assumir a bandeira que traz um arco-íris estampado é uma enorme responsabilidade. E que começa em aceitar a verdade de cada cor. Seja ela qual for.
 
 * Flávia Figueiredo é escritora, produtora de Rádio e TV, formada em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb), colunista e redatora-chefe do Portal Farofa Digital.


 

 

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