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A década de 90 foi
responsável por efervescências culturais, visibilidade e mudanças de
comportamentos significativos dentro do segmento GLS. Entre os acontecimentos
relevantes está a explosão das drag-queens, principais representantes de todo um
fundamento e cultura de noite até então underground, anteriormente,
representados pelas transformistas e travestis.
A transição deu-se no inicio
da década quando a atitude dramática, vedete, vitimista, sofredora e sexual dos
shows até então em voga cederam espaço a uma forma mais fashion, caricata e
livre de apresentação. Nascia aos poucos na noite GLS o conceito de drag-queen,
isto é, aquele que se veste, se produz e se comporta com referência a uma
atitude feminina, cuja transformação é feita através da produção: roupas,
perucas e maquiagem. A imagem final não é da mulher real, mas sim, um personagem
no limite da feminilidade, do glamour e do over.
Aos poucos, todos passaram a
falar e a querer ver de perto quem eram as drag-queens ou o que exatamente eram.
Muitos campineiros iam para a capital paulista – foco disseminador desta cultura
- somente para ver/conhecer determinada drag. Neste momento, devido ao boom,
muitas passaram a ser hostess de casas como Massivo e Clube B.A.S.E. em São
Paulo,
além de serem obrigatórias nas principais festas sejam gays ou straights.
Conseqüentemente, o sucesso
das drags e sua aceitação no segmento GLS em geral caiu nas graças da mídia.
Assim, do underground, foram parar diretamente nos principais programas de TV do
Brasil como por exemplo, o programa da Hebe Camargo, onde numa noite antológica,
reuniu em seu sofá as tops da época, entre elas, Dimmy Kieer, Paulette Pink,
Márcia Pantera e Nanny People. Outros programas populares também adotaram a
presença das drags em quadros específicos, como o Domingão do Faustão, onde top
drags davam conselhos de como os heteros deveriam se comportar com as mulheres
ou até no programa Show de Calouros, onde Silvio Santos apresentava as
participantes com seus nomes de registro.
O visual no inicio era
extremante over, com grande referência aos anos 70 e seus ícones, como a modelo
Twiggy ou a série televisiva “As Panteras”, por exemplo. O visual da vocalista
do grupo Deee-Lite, Lady Miss Kieer também era referência para a montação, assim
como Madonna, Marilyn Monroe, as super models Naomi Campbell, Linda Evangelista,
Cindy Crawford e outros ícones e era sempre preciso uma preocupação com o
ineditismo, surpresa e superação, já que o objetivo principal não era exatamente
o resultado mas sim o impacto que a imagem poderia provocar.
Um momento determinante para
o sucesso das drags na cena foi a explosão da Aids na década de 90. Isso
acontece devido ao fato de as drags significarem ainda que inconscientemente o
sexo seguro ou melhor, a ausência do sexo. Mesmo que no visual, na montação,
haja alguma referência sexual, a drag está lá para divertir, entreter, utilizar
palavras de ordem cujo objetivo é a negação de toda auto-estima gay levada para
um lado nonsense, redefinindo a imagem e o caráter social deste gay enquanto
individuo, inserido numa sociedade altamente homofóbica.
Naquele momento as drags não
estavam restritas aos palcos: circulavam pela pista e ferviam com o público,
pois até então os palcos ainda eram dominados pelas transformistas e travestis.
Aos poucos, a forma drag de show – bate cabelo, música gritaria e jogação de
corpo – foi tomando espaço e fazendo com que o público as admirasse a cada
noite, a cada apresentação. Era sempre uma ansiedade a espera do show, ápice nos
clubes gays. O palco tornava-se assim o centro das atenções. Ao mesmo tempo,
parte do público preferia justamente este momento para circular pelos arredores,
adentrar o dark-room e agitar a devida cassação da noite.
Em Campinas
(SP), as drags
começaram a surgir na extinta Bubbys, no final dos anos oitenta, onde
freqüentadores da casa se montavam pelo simples fato da diversão. Ali, a drag
profissional ainda não havia entrado em cena. O tipo de apresentação mais
elaborado passou a tomar espaço na boate Double Face, com os shows andróginos de
Helloá Meireles. Na época, a Double Face foi o centro disseminador desta cultura
ao revelar para a cidade no decorrer da década de 90 grandes talentos
imediatamente catapultados para as casas noturnas da capital, como Joyce
Meireles, por exemplo. E uma curiosidade: ao surgir uma nova drag, muitos
falavam a respeito e iam atrás para conferir e discutir se era boa, ruim,
bonita, bem produzida...Era típica esta troca de informações entre os
freqüentadores da noite.
A confirmação da tendência e
importância deste fenômeno para a cena campineira deu-se em 1996 quando a The
Club passou a trazer para Campinas todas as drags em evidência. Uma das
principais presenças era a de Silvetty Montilla, quando já havia despontado para
o spot-light na cena da capital. Com seu inconfundível “E Aí?”, Silvetty era
responsável por noites com recorde de público na casa, assim como Nanny People,
já famosa por seu quadro no programa “Comando da Madrugada”, de Goulart de
Andrade. Na The Club também surgiu a primeira top drag da cidade, a Sacha. Com
visual diva-sexy-punk, Sacha recebia a todos com muito carão, pose e montação.
Com a abertura do Massivo, Salette Campari e as Irmãs Manson – Gabi e Bia –
reinaram absolutas, além de suas absurdas performances. Reza a lenda que Gabi,
em uma de suas apresentações, utilizou o salto de seu sapato para simular uma
auto-penetração.
Aos poucos, a imagem da drag
foi cada vez mais se vinculando a apresentação de palco, conseqüentemente se
distanciando do contado com o público. Muitas eram vistas somente na hora do
show. As apresentações passaram a ser cada vez mais repetitivas, um novo rosto
passou a ser cada vez mais difícil de aparecer e por fim, o público – o mesmo
que viu e acompanhou a explosão - foi se cansando do esquema de noite e
apresentação das drags nas boates, o que deu abertura no final da década de 90 a
uma nova forma de diversão: boate sem palco, sem show, sem drag na porta, mas
com os hits da pista totalmente voltados aos conceitos drags, isto é, o famoso
bate-cabelo. Esta transição trouxe a tona a mania do lounge, que na época, mesmo
que erroneamente, significava uma diversão voltada para o fundamento da pista,
parafraseando as casas heterossexuais que buscavam um público especifico,
conceitual, dinâmico e iniciado às propostas de modernidade da cena que passou
assim a ser cada vez mais assexuada e a negar todos os conceitos gays de
diversão impostos na década anterior, incluindo aí até a extinção do dark-room.
A nova geração passou a
acompanhar as drags e de forma diferente da década anterior, não se vê
representada na figura da artista, mas sim, almeja estar no seu lugar.
Drag-queen passou a ser sinônimo de status, de poder, respeito e evidência.
Nesse meio tempo, muitas surgiram e não disseram a que vieram, o que mostrou a
fragilidade desta nova geração de meninos que querem se vestir de starlets mas
não possuem o talento suficiente para segurar um bom modelão. Paralelo a isso,
outras apareceram e se tornaram estrelas da noite, grandes apresentadoras,
grandes performers, altamente produzidas, mesmo que em meio ao descrédito do
público. Prova disso, temos recentemente a volta da figura da drag como hostess
de uma casa – no Clube Insano, a drag Priscila reinou e reinará absoluta. Antes,
Marine já dava o seu carão e simpatia na porta do Subway e também, no Subway,
pudemos presenciar no seu aniversário de três anos um dos melhores shows já
produzidos na cena, no caso, o “Cine Subway”, com total referência aos grandes
musicais da Brodway e um casting afinado e altamente produzido.
Criticar a importância da
figura da drag-queen hoje é algo muito delicado, ainda mais em um momento em que
todo o segmento já foi representado por mais de 1 milhão de pessoas, na maior
parada GLTTB do mundo. Mas uma coisa não podemos negar é que elas fazem e sempre
farão parte do nosso ideal de diversão, seja na portaria, no palco ou
simplesmente na pista. Precisamos delas, pois representam um dos nossos signos
de relação social, precisamos delas, pois nos proporcionam momentos de
escapismo. Precisamos delas, pois temos um pouco de todas elas dentro de nós.
Viva as
drag-queens!
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