Queer

Como muitos fenômenos modernos, seja como a tecnologia e a ciência da informática, a cena da house music brasileira tem adaptado ao seu cotidiano muitas palavras inglesas. Será isto o resultado de uma cultura house music importada?

Antes de chegar na boate percebi que é comum para os meus amigos aqui, no Brasil, fazer um ‘chill–in’ na casa de alguém, onde a gente se encontra para conversar e tomar um drink. Na porta da boate, a ‘hostess’ nos recebe e confirma que o ‘promoter’ colocou nossos nomes na lista ‘VIP’. Para quem não está na lista, é dado um desconto se tiver um ‘flyer’.

A noite oferece set de vários ‘DJs’, às vezes tem um ‘show’ de ‘drag queen’ fazendo ‘playback’ ou um ‘performance’, e certas casas tem ‘gogoboy’ ou ‘gogogirls’. Se a noite for boa, ainda conseguimos chegar no ‘after–hours’, que começa numa outra casa noturna por volta das seis da manhã...

Essas palavras são conhecidas na noite. É verdade que são palavras inglesas, mas é justo de dizer que são todas coisas ou idéias que vem de fora? A balada GLS é tão dominada pela cultura inglesa/americana? Na minha experiência no Brasil, nos Estados e na Europa, eu acho que não. Tanto é que essas palavras estão sendo usadas incorretamente, ou tem um outro significado no Brasil.

‘Chill–in’, não existe, e é obviamente uma criação que vem do nome ‘chill–out’.

‘Hostess’ é a moça que recebe as pessoas na porta, mas é interessante que ‘hostess’ é a forma feminina de ‘host’. Já vi vários ‘flyers’ aqui no Brasil, que tem um menino na porta, mas chamam de ‘hostess’... Acredito que como na maioria das boates é uma ‘hostess’ mesmo, a noite adotou essa palavra como universal.

A palavra e o conceito do convidado VIP é uma coisa que acho muito interessante. ‘VIP’ significa ‘Very Importante Person’ no inglês, ‘Pessoa muito importante’. Aqui no Brasil, entrada VIP significa entrada de graça. No entanto, na Europa, o VIP não funciona do mesmo jeito. ‘VIPs’ são estrelas mesmo, celebridades que estão prestigiando a casa. E essas pessoas têm um tratamento preferencial, além de acesso à área VIP na boate.

Já para quem não é um VIP/pessoa muito importante, já vi algumas festas vendendo ingressos VIPs. No caso de comprar um ingresso VIP, a pessoa tem direito a tudo que o VIP tem. Só uma obsercação: ingresso VIP tem um custo três vezes maior que o ingresso normal. Um pouco parecido com primeira classe no avião.

O equivalente à lista VIP no Brasil seria ‘the guest list’ ou ‘lista de convidados’. Os ‘guests’ (convidados) são convidado pela casae não pagam ingresso, mas aguardam na fila, não tem nem um tratamento preferencial nem acesso á área VIP. Outras formas de ingresso, seguem a mesma linha que é conhecida aqui: um desconto é possível com o flyer da festa.

O fato de ter desenvolvido sua própria linguagem mudando o significado de certos termos, mostra que a cultura clubbing brasileira tem identidade própria. As palavras são inglesas, mas como quaisquer palavras estrangeiras em qualquer idioma, elas são adaptadas para o cotidiano local, neste caso o ‘clubber’.
A cada ano, a cena GLS do Brasil recebe DJs internacionais, que trazem influências e tendências, mas isso não quer dizer que a house music do DJ brasileiro não tenha estilo e identidade próprios. E mesmo que a ‘Club Culture’ tenha sua base nas cenas dos Estados Unidos e Europa, o Brasil está criando sua própria cultura clubbing – e eu estou tendo o maior prazer em participar de tudo isso.
 


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