Queer

Vida e Fantasia
@Por José Augusto Lopes
Enquanto Marion Cotillard brilha na interpretação cinematográfica de Édith Piaf, a grande dama da canção francesa, nada menos do que Brad Pitt é premiado como Melhor Ator, no Festival de Veneza, pelo filme “O Assassinato de Jesse James”, onde ele interpreta o famoso bandoleiro do Oeste estadunidense, conhecido por suas características românticas. James era um misto de bandido e bom moço. Ainda hoje, ocupa um lugar relevante na mitologia norte-americana. O anterior Jesse James na tela foi o belo Tyrone Power, ator tão popular como Brad Pitt durante os anos 40 e 50. A produção, cultuada até hoje, resultou num dos maiores êxitos de bilheteria do cinema.

As biografias cinematográficas, ou “biopics”, são tão antigas quanto a própria Sétima Arte. Em 1899, o francês Georges Méliès dirigiu um filme silencioso de 10 minutos sobre Joana D´Arc e, em 1927, Abel Gance teve a ousadia de rodar um épico sobre a vida de Napoleão Bonaparte, com quase seis horas de duração.

A década de 1930 representou uma fase áurea para os “biopics”. O excelente Paul Muni consagrou-se vivendo personalidades tão díspares quanto o cientista Louis Pasteur, o mafioso Al Capone e o revolucionário presidente mexicano Benito Pablo Juarez. Já quase quarentona, a limitada Norma Shearer interpretou a desditosa rainha da França, Maria Antonieta, mas não convenceu como uma personagem na realidade bem mais jovem. Fisicamente, o papel calhou melhor no físico de Kirsten Dunst, quando esta recentemente incorporou a rainha guilhotinada em um polêmico filme de Sofia Coppola.

Sucesso garantido
Outros grandes sucessos do gênero, no passado, foram “Madame Curie”, com notável atuação da atriz Greer Garson; “À Noite, Sonhamos”, onde o popular galã Cornel Wilde fazia o compositor polonês Chopin; e os tradicionais “biopics” de compositores populares americanos como Cole Porter (“Canção Inesquecível”), Jerome Kern (“Quando as Nuvens Passem”) e George Gershwin (“Rapsódia Azul”). Nas décadas seguintes, as cinebiografias escassearam, para ressurgir com força total a partir do ano 2000, quando surgem inúmeras produções no gênero, sempre com excelentes e premiados desempenhos de seus protagonistas.

Merecem destaque especial, entre outros, Will Smith como o lutador de boxe Mohammad Ali; Salma Hayek interpretando a sofrida e genial pintora mexicana Frida Kahlo; Kevin Kline, superando-se sempre como ator, ao incorporar, com maestria, a sensibilidade do compositor Cole Porter em “De-Lovely”; Fanny Ardant, simplesmente genial ao reviver a cantora Maria Callas, sob a direção de Franco Zeffirelli; e Philip Seymour-Hoffman, Oscar como o irreverente escritor Truman Capote.

Adaptações das trajetórias de santos católicos também eram comuns, com destaque para a odisséia espiritual de São Francisco de Assis, filmada por inúmeros diretores, e as incontáveis produções, sob os mais diversos enfoques, em torno de Jesus Cristo.

Vidas marginais
Embora tendam a enfocar vidas exemplares, sobretudo em épocas de crise, as biografias do cinema também fazem muito sucesso ao apresentar personagens marginais. Um dos maiores sucessos de bilheteria em todos os tempos foi “Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas”, sobre um casal de criminosos que aterrorizou os Estados Unidos. Vidas ambíguas, como a do ator George Reeves (o mais conhecido Superman da televisão), encontrado morto em circunstâncias até hoje misteriosas, igualmente podem resultar em bons filmes, como o recente “Hollywoodland”, que conseguiu o milagre de extrair uma boa interpretação do crônico canastrão Ben Affleck.

Recentemente, foram bastante bem recebidos pela crítica os filmes sobre as vidas do cantor Johnny Cash (Joaquin Phoenix); os flagrantes sobre a juventude de Che Guevara (Gael Garcia Bernal), captados em “Diários de Motocicleta” pelo cineasta brasileiro Walter Salles; e a genial interpretação de Jamie Foxx como o cantor Ray Charles, no musical “Ray”. “O Último Rei da Escócia”, a respeito do ditador africano Idi Amin Dada, pecou por certa falta de objetividade, mas Helen Mirren em “A Rainha”, como Elizabeth II, emprestou emoção a um roteiro apenas um pouco mais envolvente do que um especial de televisão.

No Brasil, onde não existe uma tradição de “biopics”, algumas das mais bem acolhidas produções no gênero foram “Carlota Joaquina - Princeza do Brasil”, de Carla Camuratti, mesmo com alguns exageros sob o viés da sátira; “O Homem da Capa Preta”, de Sérgio Rezende, sobre o truculento político Tenório Cavalcanti; e, mais recentemente, “Zuzu Angel”, também de Sérgio Rezende, enfocando a famosa estilista eliminada pela ditadura militar, por suas violentas denúncias contra a tortura e assassinato de seu filho. Entre outros biografados famosos do cinema nacional, encontram-se ainda Leila Diniz, a mulher que revolucionou os conceitos de feminilidade no País; “Mauá, O Imperador do Rei”; “Villa-Lobos”; “Luz Del Fuego” e o antigo “Vendaval Maravilhoso”, sobre o poeta baiano Castro Alves, em produção luso-brasileira com a célebre fadista portuguesa Amália Rodrigues.
 
Renovação dos “biopics”
Em pelo menos um ponto, os “biopics” atuais superam os do passado. São bem menos romanceados e não omitem detalhes supostamente negativos, ou constrangedores, sobre a vida privada das personalidades abordadas. A homossexualidade do compositor Cole Porter foi ridiculamente camuflada na primeira versão cinematográfica de sua vida, “Canção Inesquecível”. O próprio Porter comentou após ver o filme: “Depois disso, não vou acreditar em mais nada mostrado pelo cinema”. A versão mais atual, com magnífica atuação do ator Kevin Kline, expõe de modo bem claro, embora com sensível delicadeza, as preferências homoeróticas do compositor, assumidamente “gay” na vida real. Estão também em alta os documentários biográficos, sobretudo no Brasil, alguns com grande receptividade, entre os quais os sobre o poeta Vinícius de Moraes e sobre o pianista Nelson Freire.

Outros “biopics” estão para ser lançados em breve. “O Assassinato de Jesse James”, com o ícone Brad Pitt, concorreu, inclusive, à premiação paralela “gay” do último Festival de Veneza. Adrien Brody, ganhador do Oscar de Melhor Ator por “O Pianista”, de Roman Polanski, vem aí como o célebre toureiro espanhol Manolete, outrora ídolo do público feminino e tema constante de poemas e canções. São aguardadas com ansiedade pelos cinéfilos: uma nova versão sobre as mitológicas escritoras conhecidas como irmãs Brontë e a vida da romancista Jane Austen (“Razão e Sensibilidade”, “Emma”), a ser interpretada na tela por Anne Hathaway, aquela funcionária infernizada por Meryl Streep em “O Diabo Veste Prada”.

Muitas vezes, o público reage contra a escolha do ator ou atriz para viver seu ídolo. Alguns consideram a jovem Hathaway com pouca densidade dramática para um papel tão relevante como o de Jane Austen. Mas isso não impede que esses mesmos contestadores acorram em massa às bilheterias dos cinemas quando o filme for lançado. No mínimo, para avaliar a capacidade interpretativa da escolhida, ou nela encontrar motivação para eleger um novo ídolo, tal como aconteceu com inúmeros espectadores em relação à atriz mexicana Salma Hayek, ao vê-la incorporar tão bem na tela a complexa personalidade da pintora Frida Kahlo.
Sobre o autor
José Augusto Lopes é jornalista e escreve para o Diário do Nordeste.
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