Perfil::::

 Entrevista com Mauricio Santana- Por Davi Santos

 
Farofa Digital-Conte um pouco de sua história de vida.

Mauricio Santana-Sou Maurício José de Santana, 39 anos, nascido em Recife na Maternidade do Derby, que outrora foi a primeira Escola de Medicina, em 05/06/1965. Sou mais conhecido como “oh! Linda”, o primeiro palhaço gay do Brasil. Sou palhaço e soropositivo, fiz a campanha do PT na candidatura do Lula nas ruas do Rio de Janeiro. Fui Delegado de Cultura no Seminário Regional Nordeste em 2003, em Recife, assim como no Fórum Cultural Mundial. Também sou delegado de cultura da cidade de Camaragibe - PE, além de produtor cultural, ator, maquiador, e palhaço com registro do sindicato dos artistas e técnicos  em espetáculos de diversões no estado de Pernambuco. Trabalho também como carnavalesco na cidade do Recife.

FD- De onde surgiu a idéia de criar o palhaço gay?

Após uns momentos muito difíceis de minha vida, estava muito deprimido, tinha novamente assumido minha homossexualidade, pois passei um longo período nas religiões, em busca de cura, paz, perdão, fiz barganha com Deus, foi um período muito bom de minha vida apesar dos conflitos, consegui me libertar das drogas, apesar de conflitos durante a minha abstenção sexual, pois ser homossexual era coisa do diabo. Quando era criança sempre tive muita admiração por palhaços quando ia com minhas mães de criação ou com empregadas prostitutas aos circos aqui em Recife, foi quando em 1997 quando surgia uma forte mobilização  americana que veio influenciar  artista, homossexuais  a ser tornarem Drag Queens, para mim era um novo tipo de palhaços, e parecia ser um espaço novo onde eu poderia ganhar dinheiro e fama, um espaço fora dos guetos GLBTS, pois no início após ter saído das igrejas não me identificava mais com os lugares onde tinha droga sexo e rock’n roll, dark room!? Nem pensar! Achei que poderia ser  inserido de maneira  legal no novo mercado de trabalho para homossexuais, pois  em todo Brasil  as Drags eram  bastante solicitadas para todos eventos, me parecia ser  gay palhaço era uma maneira de ser aceito  eu acho que foi que surgiu depois de várias terapias, pois passava por um momento de depressão, precisava dar uma levantada na  alto estima, então nasceu Oh!Linda que no início era uma Drag com barba e bigode,  depois veio no carnaval no bloco Galo da Madrugada  Oh!Linda o primeiro palhaço gay do Brasil. Num episódio isolado, uma criança pouco tempo depois de me ver na TV dando entrevista estava diante de mim,  e disse: “mãe o palhaço  que estava na TV.  o palhaço – frango”, frango é a maneira que homossexual  são chamados aqui em Recife, ai eu respondi: “não meu nome é Oh!Linda, o palhaço gay” ai ele repetiu para mãe o palhaço gay. Tiramos fotos e segui os milhões de foliões durante o percurso. A princípio a comunidade GLBTS não entendeu o que era o palhaço gay, a mídia também não, achei que no início  existia uma camada forte de preconceito que eu mesmo tinha sofrido  durante minha infância e adolescência, sempre eu era aceito entre meus colegas, quando era o palhaço da turma, a bichinha, o franguinho, ' vai lacraia ' como se eu não tivesse os miolos no lugar, eu não gostava de ser tratado assim como uma ovelha negra da sociedade em alguns lugares eu tinha vergonha de ser gay depois eu brigava na escola na rua em ser uma criança assumida aquilo na época era um  coisa do diabo mesmo, eu queria ser um menino, mais era um palhaço gay.

FD- como é o trabalho do Palhaço Gay?

No início do trabalho eu não percebia que meus depoimentos tinham uma carga emocional muito forte, eu queria  fazer as pessoas refletirem  e também rirem do palhaço gay, mas muitas vezes vi pessoas chorando, agora estou um pouco mais experiente, tento fazer o trabalho na hora certa para o público certo, tem lugares que sou mais irreverente, palhaço mesmo, mas sempre que posso gosto de deixar meu depoimento, sei que tenho uma missão gosto de levar exemplo, alegria e forçar as pessoas que não tem fé que a vida pode ser melhor, mesmo com tantos problemas, mesmo com tantos problemas eu consigo ser uma pessoa de momentos muito felizes. Felicidade não tem fim, tristeza sim, mas o poenta já diz: “tristeza não tem fim, felicidade sim”. Meu trabalho é levar vida às pessoas, já fui em vários programas de TV, rádio, jornais, entrevistas em sites, documentários no cinema, protestos em bailes de carnaval, nas ruas do recife e de outros estados do Brasil, conferências de saúde, seminários de cultura, direitos humanos e saúde, fóruns, paradas gays, campanhas políticas, recentemente fui mostrado na campanha do Lula  nas ruas do Rio de Janeiro, tudo documentado nas revistas Época e Isto é, assim como no dia  da posse do Lula em Brasília, pelo jornal O Globo e outro veículos de comunicação.  Em quase todos os estados que estive  sempre sou procurado para dar meu depoimento, participando de debates em escolas, igrejas, festas infantis, telegramas animados feiras de ciências, prostíbulos praças públicas, poucas vezes trabalhei em saunas e boates GLS, um trabalho que no início era  dolorido  agora estou mais acostumado. No meu trabalho gosto de reivindicar acabo sendo polêmico e militante em minhas performances. Também já visitei muitos portadores do HIV e outras doenças contagiosas, pois no início da Aids muitas pessoas  da própria família não visitavam,   com medo de pegar o vírus. Foram muitas as boas ações que já  fiz. Trabalhei e viajei com meu próprio dinheiro para dar minha contribuição em paradas e eventos  para ajudar soropositivos, sem ganhar nenhum dinheiro em troca, eu peço a Deus para me dar saúde  e disposição, pois eu já dou o que deus me ensinou, através dos meus depoimentos e minhas ações, Deus  faz o resto. Adoro trabalhar, me sinto vivo quando amanheço e tenho algo para fazer.

FD- A sua opção sexual e a sua relação com sua família.

É assumida desde criança, minha mãe sempre percebeu que eu era uma criança homossexual. A minha relação com a minha família  é 90% bem aceita, graça  a Deus, e minha conduta diante deles é de respondida na resposta anterior.

FD- Você é um ativista das causas homossexuais, como é o trabalho desenvolvido como militante?

Irei contar três experiências entre tantas. Eu e minha mãe estávamos para ir para São Paulo no fim do ano, festa de natalinas etc., com a família, a Aids ainda era uma peste de gays,   havia informações duvidosas  dos médicos de como se transmitia o vírus HIV, foi então que meu irmão disse que a família não quer que eu vá a São Paulo com minha mãe, isto nas vésperas da viagem, de malas prontas. Eu recém batizado na igreja Assembléia de Deus em Recife não ‘estava’ mais homossexual, perguntei a Deus porque estava sofrendo tanto sendo rejeitado  por meus familiares  católicos apostólicos romanos, onde na igreja Assembléia  eu não era  rejeitado por estar com o vírus. Deus sempre enxugou minhas lágrimas e me ensinou a driblar, pois tive por muitas vezes vontade de tirar minha vida. Outra experiência foi recentemente, quando participei de um grupo das travestis  onde aprendi muito com elas, mais fui afastado por não ser travesti, apesar do grupo ser de alto ajuda a pessoas portadoras do HIV, saí numa boa, apesar de ter feito ótimas amizades com as travas deste grupo. Outra experiência foi quando fui afastado de uma ONG de Recife por ter discordado da maneira que eles queriam conduzir a parada gay de Recife, e por ter  dado minha opinião pessoal a respeito de uma pesquisa do livro do Luiz Mott, tive que ser afastado de duas coisas que gosto muito: o ativismo e da pessoa do Luiz Mott, o qual sou admirador número um, foi como se tivessem tirado a minha alma.  Eu quase tirava minha vida, pois passei por constrangimentos, danos morais,  mais graças a Deus agora me relaciono bem com ambos, pois aprendi a perceber os meus erros perdoar o  das outras pessoas, sem guardar mágoas delas.

FD- Como contraiu o Vírus da AIDS?

No ano de 1986 fui ao Rio de Janeiro  aos meus 21 anos com carta de apresentação da Secretaria de  Cultura Esporte e Turismo da cidade do Recife, para participar de uma audição de dança para formação de bailarinos da escola de dança Maria Ollenewa na Lapa, para compor o corpo de baile do teatro municipal do Rio  de Janeiro. Fiquei morando no rio em Copacabana para me aperfeiçoar tecnicamente no balé clássico, pois não tinha conseguido passar na prova da escola de dança, pois em Recife na época não tinha aulas específicas para formação de bailarino do sexo masculino,  no Rio fiquei viciado em drogas (cocaína e maconha), muito sexo com e sem camisinha, muita baladas com gente bonita e rica, não sei exatamente com quem mais acho que  posso ter me contaminado, pode ter sido com um fotógrafo canadense ou um piloto de avião americano, ou ainda um bailarino internacionalmente famoso. Digo isso pois estes não usaram camisinha comigo.

FD- Como você avalia o atual governo e a preocupação (se existe) com os portadores do vírus da AIDS?

Acho que existe preocupações sim,  acho que falta aperfeiçoar os projetos, a exemplo o do ex-ministro  da saúde José Serra, se postas em prática as promessas feitas em campanhas do atual Governo. As ONGs  precisam de mais verbas, para realizarem seus projetos, e serem chamadas pelo Governo e Secretarias para construção dos programas, campanhas de prevenções as DSTs e a cerca dos tratamentos das pessoas  portadoras do vírus HIV, a fim de conscientizar que os remédios sem uma boa alimentação podem matar os pacientes e causar danos físicos etc...

FD- Que tipo de mobilização da Parte de militantes gays e ONGS poderia haver para melhorar a saúde no Brasil?

Acredito no crescimento através de um trabalho de base nos municípios e estados onde atuam as ONGs  que lutam pela garantia dos direitos do homossexual e portadores do vírus HIV, um trabalho de base em busca de formas novas ativistas para formação de futuros militantes, parlamentares homossexuais, talvez partidos GLBTS. Falta mobilização para atrair novos ativistas,  muitos comparecem na parada gay de suas cidades mais não freqüentam  as reuniões, acho que pode ter um problema, uma maneira nova de atrair este homossexuais a participarem das reuniões, uma nova  estratégia  ainda não sei responder como, acho que os homossexuais ficam esperando dos militantes das ONGs  e os ativista e os parlamentares, que na sua maioria não são homossexuais, e fica  sempre à espera. Acho que o Luiz Mott e outros ativista como  Marcelo Cerqueira, Beto de Jesus podem assumir um compromisso deste porte  pois já não devemos mais ficar esperando que outras pessoas simpatizantes venha a defender com sangue se possível , nossas reivindicações , de cidadania e direitos.

FD- Qual o momento de sua vida em sua profissão que você jamais vai esquecer? Seja boa ou ruim!

Quando fui ao palco levar flores, no lançamento nacional do filme Central do Brasil atriz Fernanda Montenegro  e eu ficamos juntos abraçados chorando com um público seleto de críticos, diretores e atores de cinema no festival de cinema da cidade do Recife, após ter assistido o lançamento do filme aqui no Brasil  nesta noite eu não dormi de tanta alegria pois tudo foi acontecendo de repente eu estava ao lado de minha atriz preferida,  foi muita emoção.
Outro momento foi quando o pessoal do prédio onde eu morava no Rio de Janeiro falou que eu estava aparecendo no VT da campanha do Lula presidente convocando a população a irem as urnas votar no lula para presidente foi outro momento inesquecível. Outro foi estar na posse do Lula em Brasília, e graças a Deus foram mutios outros momentos inesquecíveis e estou aguardando muito mais.

FD- Quais são os projetos futuros?

Gostaria de  ser convidado para participar de um curta, ou longa sobre minha vida , ou de ser dirigido para no palco do teatro para contar um pouco de minha vida, ou ainda escrever um livro alto biográfico , ou abrir uma casa de apoio  para homossexuais da 3ª idade, uma casa de apoio para soropositivos,  tenho muito sonhos, projetos fica difícil de fazer mais  acredito que o que tem de acontecer, no tempo Deus saberá trazer o sonho e transformar em realidade.

FD- Uma mensagem para todos os internautas brasileiros que acessam o Farofa Digital.

Três coisas tenho certeza na vida: primeiro da existência de Deus, segundo da morte física, terceiro que antes de morrer farei o possível para fazer de minha vida  algo positivo para mim e meu próximo.

Contatos para shows, palestras, eventos.
 
(0xx81) 32246308 ou 91233914
e-mail: palhacogay@hotmail.com
site: www.palhacogay.hpg.com.br
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