Circuito FD

Edith Modesto: Entrevista com uma mãe coragem!

Uma mãe coragem!, assim podemos definir a mulher e mãe Edith Modesto que  conseguiu quebrar seus próprios paradigmas ao descobrir que seu filho era homossexual passou a ver a vida de uma outra forma, longe da visão que permeada pela ignorância e preconceito.

A descoberta fez com que Edith se aprofundasse mais no assunto para poder levar para outras mães os seus ensinamentos e lições ao longo de um relacionamento cercado de carinho, respeito e muito amor fundando o primeiro grupo de pais de homossexuais do Brasil e coordenando a ONG que tem 60 integrantes e se chama Associação Brasileira de Pais e Mães de Homossexuais.

Davi Santos conversou com ela. Confira esta entrevista exclusiva!

1. Como foi a sua reação quando seu filho Marcelo revelou ser homossexual?
Edith – Infelizmente, não foi nada boa. Eu não estava preparada para saber que um dos meus filhos é homossexual. Aliás, ninguém está preparado, porque a diversidade sexual não foi naturalizada pela sociedade em que vivemos. A maioria ainda acha que é doença – física ou psicológica –, é uma escolha, por safadeza, falta de caráter... Isso precisa mudar!
 
2. O que mudou em sua vida depois desta revelação?
Edith – Foi uma verdadeira revolução na minha vida. A partir desse dia, eu comecei a ler sobre o assunto, conversar com pessoas, enfim, tentei adquirir algum conhecimento. E, tenho certeza, de que desse dia em diante, eu me tornei uma pessoa muito melhor do que eu era: menos preconceituosa mais solidária.
 
3.Marcello tem namorado? E como é a ligação da família com os relacionamentos de Marcello?
Edith – Atualmente, Marcello não tem namorado. Já teve namorados e já foi casado. A ligação da nossa família com nossas noras e genros é a melhor possível. Nossa família é muito unida e os namorados e o companheiro do Marcello, antes de se separarem, foram recebidos na nossa casa com muito carinho.
Eu estou na maior torcida para que o Marcello encontre alguém. Não gosto de ver meus filhos sozinhos.
 
4. A senhora passou por algum tipo de preconceito quando esta noticia veio á público?
Edith – Por incrível que pareça, as famílias dos homossexuais sofrem preconceito, sim, mas nada que atrapalhe a nossa vida, pelo contrário. Eu penso que quem não aceita um dos nossos filhos, qualquer que seja, não merece a nossa amizade. São pessoas que não nos interessam.
 
5. E a associação, o que te levou a criá-la?
Edith – A fundação do GPH – Grupo de Pais de Homossexuais, assim como o livro que escrevi – “Vidas em arco-íris –, foram fases do longo processo de aceitação do meu filho. Quando eu soube que o Marcello era gay, eu quis muito conversar com outra mãe como eu e não a encontrei. Eu sabia que me sentiria melhor, trocando idéias com iguais. Para escrever o livro, eu entrevistei 89 homossexuais, homens e mulheres, de 15 a 62 anos. Eu queria aprender sobre a homossexualidade com quem melhor sabe sobre o assunto: os próprios homossexuais”.
 
6. A Associação serve como um alicerce para que facilite a aceitação de mães como a senhora ao saber que seu filho é homossexual?
Edith – O GPH é um grupo de ajuda mútua e seu objetivo principal é aproximar os pais de seus filhos homossexuais. O grupo é dedicado principalmente aos pais que têm dificuldades de aceitação. Eu converso por telefone com muitos pais e mães de todo o Brasil, a pedido de seus filhos (maes-de-homos@uol.com.br)
È incrível como a conversa entre iguais ajuda! Na verdade, o grupo tem um resultado verdadeiramente terapêutico.
 
7. Quais os pontos positivos e negativos numa relação mãe com filho em se tratando em principal da senhora com o Marcelo?
Edith – Atualmente não vejo nenhum ponto negativo no meu relacionamento com o Marcello. Nosso trabalho é semelhante (professores universitários, pesquisadores); somos amigos e conversamos sobre todos os assuntos. Ele não é militante, mas aceita aparecer na mídia ao meu lado, quando a pauta requer isso.
 
Eu me interesso muito pela vida profissional e amorosa de todos os meus filhos e, tentando não invadir, troco idéias com eles, sempre que me procuram pra conversar. Quando me sinto fragilizada, muitas vezes, também é aos meus filhos que eu recorro.
 
8. Hoje, quantas mães e pais fazem parte da GPH e como funciona a associação?
Edith – Hoje temos mais de 120 pais e mães associados ao GPH. Mas eu converso com um número muito maior de pais e com jovens homossexuais que me telefonam e me escrevem de todo o Brasil.
 
O GPH tem um grupo presencial, pais que se reúnem no mínimo uma vez por mês, e temos o grupo virtual, onde podemos conversar todos os dias (aqueles que usam a Internet). O grupo é exclusivo para pais de homossexuais e tudo que se conversa nele é confidencial
Além disso, Dr. Klecius Borges, psicólogo e terapeuta, especializado em Terapia Afirmativa nos EUA, dá apoio psicológico voluntário para o nosso grupo.
 
Também temos o AGPH – Amigos do GPH -, um grupo virtual somente para homossexuais, cujo coordenador é o filho de uma das mães do grupo, que foi capacitado para isso. No AGPH, só entram nossos filhos e seus amigos, namorados, aprovados pelo coordenador. Tudo que eles conversam no grupo também é confidencial.
 
9. Durante este tempo quais as histórias de alguma das mães vinculadas ao GPH que mais te chamou a atenção?
Edith – O que nos chama muito a atenção, em primeiro lugar, é a diferença da aceitação das mães e pais, antes e depois de entrarem no GPH. É de se admirar, a diferença pra melhor, em pouco tempo!
Também nos chama a atenção, a maior dificuldade dos pais religiosos, principalmente evangélicos. Eles sofrem muito e precisam de muito cuidado e atenção da nossa parte.
 
10.Se a senhora fosse presidente do Brasil o que a senhora faria para conter a homofobia no Brasil?
Edith – Eu acho que não se precisa ser presidente do Brasil para trabalhar pelo respeito à diversidade. Por exemplo, os homossexuais deveriam votar em homossexuais, claro que examinando seus programas de ação. As mudanças, a gente tem de começar em casa; temos de plantar para depois colher. E um presidente não consegue nada sozinho. Com uma bancada de apoio, forte, eu me preocuparia em capacitar multiplicadores, como, por exemplo, os professores, os profissionais da saúde... Isso já tem sido feito, mas de uma forma ainda muito incipiente. O preconceito é introjetado nas pessoas, desde que nascem! Tanto é que, infelizmente, a própria comunidade homossexual é muito preconceituosa, como se pode ver no meu livro “Vidas em arco-íris” (Editora Record). Paralelamente, a exemplo dos EUA, eu me preocuparia com os projetos de lei que criminalizam, não só a homofobia, mas, a discriminação contra qualquer minoria.
 
11. A senhora tem orgulho de seu filho? E os irmãos dele como é o relacionamento?
Edith – Eu sou uma mãe abençoada, graças a Deus! Eu me orgulho de todos os meus filhos, diferentes uns dos outros, mas igualmente amados. O relacionamento entre os irmãos é ótimo. Eles se respeitam e tem um grande carinho um pelo outro.
 
12. Que mensagem a senhora daria para todas aquelas mães que tem filhos homossexuais e que acham que com isso o mundo acabou?
Eu sou muito solidária com todas as mães e todos os pais de homossexuais, porque sou uma dessas mães e sei como foi difícil. Eu tentaria saber mais sobre a homossexualidade, conversar com especialistas sobre o assunto e, claro, entraria para o GPH – Associação Brasileira de Pais e Mães de Homossexuais.
Eu estarei lá, de braços abertos, para recebê-los!
 
Edith Modesto
GPH – Associação Brasileira de Pais e Mães de Homossexuais
www.gph.org.br
Fone: (11) 3031 2106 (c/ Edith)

Envie esta página para alguém

 


Anúncie | Fale conosco | Seja Parceiro | Política de Privacidade | Quem somos
 
Farofa Digital 2002© Todos os direitos reservados