Parlatório

Os explícitos e implícitos de quem somos.
quando não dá mais pra viver no planeta dos macacos
 
@Por  Flávia Figueirêdo
Julho de 2008
 
Alguém já disse que ninguém é um só. Isso é fato. Mas é sempre a conveniência que escolhe qual máscara representamos. A única tendência que tenho a acreditar nos rótulos é quando tenho que ir ao supermercado. E isso é um alívio que ilude a minha incapacidade de distinguir uma, entre tantas caixas de sabão em pó.
 
No mundo das coisas vivas tendo a acreditar naturalmente no que dizem, mas é preciso convir que tem sido difícil. A impressão que carrego é que muita gente realmente acredita ou nos quer fazer crer que somos apenas macacos prontos para bater palmas com que vier pela frente. Ou será que alguém realmente acredita que o tal sargento Laci Araújo, ao assumir publicamente que era gay, queria apenas perpetrar os anais (desculpem o trocadilho) dos direitos homossexuais? Que seu parceiro, Fernando Alcântara, só depois de tanto “sofrimento e incompreensão” das Forças Armadas decidiu pedir baixa do Exército?
Em reportagem da Revista Época é dito que “Laci Marinho estava afastado desde 2006 e deveria retornar ao trabalho em abril, mas apresentou um atestado, não homologado, para continuar afastado. A defesa de Laci alegou que ele não tem condições de trabalhar porque sofre de problemas neurológicos”. Certo. Só mesmo problemas neurológicos podem explicar a atitude de um sargento do exército que vai para a capa de uma revista de circulação nacional fardado, simulando um beijo, além de ir à público participar do altamente instrutivo programa de Luciana Gimenez com o mesmo discurso, e ainda achar que vai sair ileso de qualquer julgamento.
 
Fico me perguntando qual a finalidade de atitudes como essas. Todo mundo sabe que as Forças Armadas é tomada de homossexuais, de disfarçados, de hipocrisia e códigos. Quem está de fora sabe disso. Quem entra sabe disso. Quem está lá sabe disso. E se não concorda com aquilo pra que é que vai? Seu parceiro, Fernando Alcântara, só pediu baixa depois de ser preso duas vezes. Será que ele realmente achou que depois de toda a exposição a que se submeteram, reapareciam depois tomando um cafezinho na sala do capitão como se nada tivesse acontecido?
 
Laci é considerado desertor (segundo o código militar: ausentar-se o militar, sem licença, da unidade em que serve, ou do lugar em que deve permanecer, por mais de oito dias: Pena - detenção, de seis meses a dois anos; se oficial, a pena é agravada) pelo exército e tinha mandado de prisão expedido pela Justiça Militar desde o dia 21 de maio. Fernando, de infringir códigos de conduta, apresentar-se fardado ostentando informações não compartilhadas pela instituição a que serve e demais fatos acrescidos para justificar de forma mais velada a ação do Exército. Mas foi preciso eles irem a público. Fazer o quê ninguém sabe. Eu, pelo menos, não sei, ou melhor, não acredito no que alegaram.
 
Cada um é o que é. Todos nós somos. Mas não vamos – nós – viver com a ilusão de que coisas sérias como as nossas escolhas e direitos possam ser tratados de uma maneira tão irresponsável como essa. E antes que sejam atiradas as pedras, tão comuns em nossa sociedade de “vidros”, essa é somente a opinião de quem não consegue nem quer acreditar somente no que os variados setores do “supermercado convívio” querem nos fazer crer.
 
Não defendo o exército, mas me dou ao direito de não sacanear minha inteligência, muito menos meu bom senso. Arbitrariedade é uma coisa, conseqüência, uma outra bem diferente e muito mais custosa a eximir-se. Mas, para a falta de lógica há quem sempre bata palmas. No último fim de semana, durante a 11ª Parada de Brasília, milhares (11 mil, 22 mil, 30 mil... ninguém nunca chega a um consenso...) vestiram camisas camufladas numa “ode” ao pobre sargento e seu companheiro. “Ó vida, ó céus”, diria a Hiena Hardy ou o Uruca, dos Flintstones. Fernando Alcântara, claro, também tava lá. E o que a imprensa quer é “babado”, vender revista, ganhar audiência. Ninguém da Época ou do Super Pop tá nem aí pra esses caras.
 
 
Não agüento contos pós-modernos de Cinderela e mudo a TV porque encho o saco. Embalagens diferentes para os mesmos fermentos. E a “cereja” do bolo não vai para as causas homossexuais. Pelo contrário. Muito pelo contrário. Coincidentemente esta semana assisti a um episódio da 5ª temporada de The L Word, onde a capitã Tasha Williams é julgada pelo tribunal militar americano por conduta homossexual. Ela vai até o fim renegando as suas escolhas, desmentindo fatos verdadeiros simplesmente por amor ao que faz, que é lutar pelo exército americano. Entretanto, ao perceber que pode fazer um acordo subliminar com a promotora – também lésbica – que irá determinar a sua sentença, decide mudar a sua posição e em meio a todos os oficiais presentes no julgamento admite sua vida pública e pede a sua retirada das Forças Armadas. O motivo? Não continuar conivente com uma estrutura com a qual não mais acredita para servir de modelo. No final sai de mãos dadas com a mulher que ama. E sem que ninguém mais possa acusá-la de coisa alguma: nem deserção, nem mentira, nem infelicidade.
 
Precisa dizer mais? São as escolhas. As escolhas que fazemos é que fazem toda a diferença. E atitudes, como essas, sim, são representativas. Têm validade. Independente de partir de um homem ou de uma mulher. Tanto faz. O importante é um ser humano lutando com as armas que tem de maneira inteligente e, sobretudo, significativa.
 
Sabemos que não é simples - como uma propaganda da Oi - mas é possível. E quem bota a cara na rua tem que saber o que é e o que fala. Mais difícil é continuar somente acreditando e balançando a cabeça: sargentos, intenções, capas de revista, cotas, paradas camufladas, movimento dos fardados, dos sem armas...
 
Realmente ninguém é um só. E banana até dá pra engolir, mas tem uma hora, tem uma hora que é insuportável ser só mais um macaco. Desculpem.
 
PS: para que quer saber mais sobre os “macacos”, clique no link
http://br.youtube.com/watch?v=DRJqrLd7MrE 
 
* Flávia Figueirêdo é escritora, produtora de Rádio e TV, formada em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb).
flaviaxiv@gmail.com
 


 

 

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