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Panorama
Cult
- 04.03.2007-
Belos e sarados: Casal gay será sensação do
novo folhetim Global
- @Por
Giovanne Letiere
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Foi-se o tempo em que personagens homossexuais eram implodidos junto com shopping center ou morriam subitamente nas novelas por problemas de aceitação do público. Desde 2003, com "Mulheres apaixonadas", não há um folhetim sequer do horário nobre da Globo que não tenha mostrado ou insinuado relações entre casais do mesmo sexo
- O que antes era tabu virou tradição e uma arma poderosa de audiência para o canal.
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- - Hoje a homossexualidade não só é mais bem vista como também provoca uma grande curiosidade do público. Os gays formam um mercado poderoso, e são capazes, por exemplo, de botar um sujeito homófobo para fora do "Big Brother" com mais de 90% dos votos. Uma novela, que fala para 40 milhões de pessoas, tem a obrigação de falar também para eles - defende o novelista Aguinaldo Silva.
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- Já seu colega Sílvio de Abreu discorda do fato de que abordar a homossexualidade seja uma alavanca para os números do Ibope:
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- - Antigamente havia um grande medo das emissoras de que o assunto pudesse ofender as famílias e afastar o público. O sucesso das novelas que abordaram a homossexualidade provou que não era uma verdade. Pessoalmente, não acredito que casais gays contribuam muito para aumentar a audiência, mas acho importante que façam parte do cotidiano das pessoas, sem preconceitos, nas novelas e na sociedade.
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É difícil precisar quando surgiu o primeiro personagem gay na TV brasileira, até porque eles existiam - de maneira velada - desde os tempos do teleteatro ao vivo, ainda na década de 50. Segundo o doutor em telenovelas pela USP Mauro Alencar, a primeira novela a ter um homossexual foi "Assim na terra como no céu", de Dias Gomes, em 1970. O ator Ary Fontoura interpretava o carnavalesco Rodolfo Augusto, um gay caricaturizado.
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- - Mas chocou muito mesmo a sociedade da época a novela "O rebu", de Bráulio Pedroso, em 1974, com o primeiro casal homossexual: o enrustido Conrad (Ziembinsky) e seu protegido, o jovem Cauê (Buza Ferraz). Tomado de ciúmes, Conrad mata Sílvia (Bete Mendes) ao saber do interesse de Cauê pela moça - lembrou Alencar.
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- A ousadia, a quebra de tabus, é apontada pelo pesquisador como marca da telenovela brasileira.
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- - São comportamentos que sempre existiram na sociedade. E a novela sempre foi a tribuna da nação brasileira, ampliando os caminhos e quebrando tabus. Ela se alimenta desse real, que está encoberto, e o torna comum. A novela sempre bebeu sua matéria-prima na realidade, o que acabou contribuindo para uma maior tolerância das questões sociais no Brasil, tal sua importância - conclui Mauro.
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Cada trama aborda a homossexualidade de forma diferente. Se em "Mulheres apaixonadas" foi o lesbianismo de Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli), sua sucessora no horário, "Celebridade", tratou o tema de forma contida, com a malévola Laura (Cláudia Abreu) tendo um "affair" momentâneo com a personagem de Renata Sorrah para conseguir um precioso documento. "Senhora do destino" trouxe dois casais: Ubiracy (Luiz Henrique Nogueira) e Turcão (Marco Vilela) e Eleonora (Mylla Christie) e Jenifer (Bárbara Borges), que contavam com aceitação da família, fato inédito até então.
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- - Tentei dar um tratamento diferente ao tema. O carnavalesco Ubiracy e seu namorado Turcão eram os gays com os quais o público está mais acostumado. Já as meninas eram para valer. Nunca antes numa novela neste país houve cenas de romance homossexual tão explícitas. Não teve o famoso beijo gay de novo, mas em compensação no dia seguinte à noite do beijo que não houve elas acordaram nuas na cama - relembra o autor, Aguinaldo Silva.
- O tão esperado beijo entre pessoas do mesmo sexo nas novelas, aliás, é uma reinvidicação antiga dos gays e das ONGs de defesa da homossexualidade.
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- Foi uma frustração muito grande não deixarem ir ao ar o beijo gay entre Júnior e Zeca em "América". Poderiam ter aproveitado essa oportunidade para mudar bastante a questão do preconceito aos homossexuais - aponta o artista plástico Gilvan Nunes, de 40 anos, em relação ao polêmico não-beijo do último capítulo da novela de Glória Perez - que jura que o beijo foi gravado.
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- Cláudio Nascimento, coordenador do grupo Arco-íris e membro do Conselho Nacional de Combate à Discriminação da Presidência da República faz coro:
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- - Conseguimos avançar na questão da caricaturização dos gays nas novelas, que sempre tinham papéis jocosos, frívolos, como se nossas vidas fossem alegres o tempo inteiro. Mas até hoje não houve um beijo entre os gays, que parecem assexuados nas tramas ao não demonstrarem afeto. Há ainda um padrão de imagem para aceitação, sendo os gays sempre sarados e belos nas novelas. Reconheço o avanço no debate, mas acho que a TV pode ser mais ousada. Está faltando o beijo - cobrou ele.
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Melhor do que mostrar um beijo gay é fazer a sociedade entender que o amor entre homossexuais é uma opção legítima de afeto e merece respeito
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- E a reinvindicação promete durar muito tempo ainda. Os autores são reticentes em relação à demonstração de carinho entre casais do mesmo sexo. Aguinaldo Silva diz que em suas novelas não haverá beijo gay. O colega Sílvio de Abreu concorda.
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- - Não acho isso muito importante. Melhor do que mostrar um beijo gay é fazer a sociedade entender, de uma vez por todas, que o amor entre homossexuais é uma opção legítima de afeto e merece todo o nosso respeito - pondera Sílvio, que considera a homossexualidade "lugar comum" nas novelas atualmente.
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- Sua "Belíssima" (2005/2006), segundo ele, usou a "homossexualidade como possibilidade dramática" com os personagens Gigi, gay na terceira idade e enrustido vivido por Pedro Paulo Rangel, e Rebeca (Carolina Ferraz) e Karen (Mônica Torres), que terminaram a trama brindando com champanhe a "nova" forma de amar a bordo de uma lancha.
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- A trama seguinte do horário, "Páginas da vida", que chegou ao fim, trouxe gays panfletários com o casal Rubinho (Fernando Eiras) e Marcelo (Thiago Picchi) que lutam para adotar uma criança.
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- A partir desta
segunda 05 de março, o amor entre iguais estará em pauta também em "Paraíso tropical", de Gilberto Braga. Os atores Carlos Casagrande e Sérgio Abreu viverão Rodrigo e Tiago, jovens, sarados e sem bandeira. Haverá ainda um outro casal - cujos atores não foram escolhidos ainda - que aparecerão durante três semanas em participação especial. Esses serão "coloridos".
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- E pode tirar o cavalinho da chuva quem pensa que a nova "tradição" nas novelas da Globo vai acabar. "Duas caras", novela de Aguinaldo Silva que sucederá a "Paraíso tropical" a partir de novembro, trará, sim, personagens gays.
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- Fonte
Pesquisada: CEDOC e Jornal O Globo
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