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Comecei a ler um livro bastante interessante esta semana. Une dois assuntos que
freqüentemente dominam esta RecenteMente: cinema e cultura gay.
Bastidores de Hollywood: A Influência Exercida por Gays e Lésbicas no cinema
1910-1969, de William J. Mann, investiga exatamente o que dá a entender no
subtítulo. Ainda não tirei nenhuma conclusão crítica, mas as primeiras 80
páginas me impressionaram bastante – não pelos aspectos do assunto que abrange,
mas pelos que deixa de abranger.
Iniciativas como a de Mann não são novidade. Invariavelmente,
porém, tornam-se compêndios de fofoca e boatos, pendendo mais para a metade
homossexual de sua temática híbrida (em casos extremados, uma ânsia
injustificável pela extração de galãs enrustidos do armário) do que para a
cinematográfica. Mann fez questão de deixar de fora casos clássicos como o do
ator Rock Hudson para se concentrar outros profissionais gays de Hollywoood,
especialmente os da área de publicidade, cenografia, figurino, maquiagem e
roteiro. O “bastidores” do título não está lá por acaso.
A seleção de personagens casa com o enfoque também revolucionário
do livro. Ao invés de desenterrar de antemão o discurso panfletário de que os
estúdios humilhavam seus empregados forçando-os a esconderem sua sexualidade,
Mann acabou percebendo, de acordo com os relatos de seus entrevistados, que os
gays sentiam-se confortáveis neste arranjo. Mais do que confortáveis, sentiam-se
poderosos, numa espécie de “máfia” que controlava diversos aspectos da indústria
cinematográfica. Ao contrário de outros homossexuais que eram perseguidos e
viviam às escondidas no resto dos EUA, os gays e as lésbicas de Hollywood
contavam com a cobertura dos estúdios para viverem sua vida particular como bem
entendessem. Contanto, claro, que ela permanecesse particular.
A leitura de Bastidores de Hollywood coincidiu com dois
factóides recentes no cenário cultural brasileiro. O primeiro foi o surgimento
desse tal de Lacraia, o dançarino do (argh) funk da egüinha do pocotó (ou sei lá
como se chama a música). Lacraia preencheu a vaga de “homossexual negro
efeminado” deixada pelo finado Jorge Lafond e reacendeu o debate no mundinho
acerca da exposição pública da sexualidade de celebridades.
(Pausa para nos recobrarmos do choque – vivemos na lamentável
época em que uma Lacraia é considerada celebridade. Ok, vamos em frente).
Figuras públicas como o Lacraia devem esconder sua
homossexualidade, para evitar submeter todo o movimento gay ao ridículo? Ou,
pelo contrário, famosos enrustidos deveriam ser revelados para mostrar que ser
gay não é algo de que se deve ter vergonha? A dúvida é velha, velhíssima – que o
diga William J. Mann. Mas a solução também é. As duas perguntas, na verdade, não
se contradizem. Se optássemos exclusivamente por uma das duas propostas,
permitiríamos que o totalitarismo da opinião pública sobrepujasse nossa vida
particular. Não, eu não acho que todo gay deve sair do armário. Vivo minha
sexualidade abertamente porque escolhi assim e não posso esperar que os outros
respeitem minha decisão se lhes impuser que tomem decisão semelhante. Isso é
fascismo. Cada um sabe o que lhe é melhor. Se o Lacraia quiser dançar à vontade
no Gugu, tudo bem. Se o Tom Cruise quiser continuar fingindo com a Penélope
Cruz, tudo bem também. (Isso, aliás, vale também para os não-famosos pobres
mortais como eu e você! Seja dono do seu próprio nariz! E do próprio
armário!)
Por outro lado, sou totalmente a favor da exposição pública...
dos filmes homossexuais! Esse é o segundo factóide de que queria falar. Depois
de dois anos de atraso, finalmente saiu em vídeo Plata Quemada, filme
argentino que causou frisson no Festival Mix Brasil ao contar a história real de
um casal gay de assaltantes. A sinopse na contracapa da fita, porém, me
decepcionou, descrevendo os protagonistas como “amigos inseparáveis”. Me pergunto: em que década vivem essas distribuidoras de filme? “Gay” ou
“homossexual” são palavras vetadas no vocabulário delas? Se a preocupação é não
afastar o cinéfilo preconceituoso, acredito que o eufemismo prestou um
desserviço. Fico imaginando um desavisado alugando Plata Quemada e se
deparando logo com a primeira cena, que mostra o casal dormindo abraçado, só de
cueca. Não é muito pior um cliente sentir-se ludibriado do que um sucesso
restrito de locação? E a distribuidora presumindo, ainda, que o cinéfilo seja
burro e incapaz de considerar interessante um filme que mostra uma sexualidade
diferente da sua... Que decepção. Vamos tirar os filmes do armário já!!!! |