Panorama Cult

Artistas gays e filmes gays
 As livrarias e locadoras sempre tem  novidades ou curiosidades que reacendem debate sobre homossexuais no cinema

@Por Marcel Nardale

Comecei a ler um livro bastante interessante esta semana. Une dois assuntos que freqüentemente dominam esta RecenteMente: cinema e cultura gay. Bastidores de Hollywood: A Influência Exercida por Gays e Lésbicas no cinema 1910-1969, de William J. Mann, investiga exatamente o que dá a entender no subtítulo. Ainda não tirei nenhuma conclusão crítica, mas as primeiras 80 páginas me impressionaram bastante – não pelos aspectos do assunto que abrange, mas pelos que deixa de abranger.

Iniciativas como a de Mann não são novidade. Invariavelmente, porém, tornam-se compêndios de fofoca e boatos, pendendo mais para a metade homossexual de sua temática híbrida (em casos extremados, uma ânsia injustificável pela extração de galãs enrustidos do armário) do que para a cinematográfica. Mann fez questão de deixar de fora casos clássicos como o do ator Rock Hudson para se concentrar outros profissionais gays de Hollywoood, especialmente os da área de publicidade, cenografia, figurino, maquiagem e roteiro. O “bastidores” do título não está lá por acaso.

A seleção de personagens casa com o enfoque também revolucionário do livro. Ao invés de desenterrar de antemão o discurso panfletário de que os estúdios humilhavam seus empregados forçando-os a esconderem sua sexualidade, Mann acabou percebendo, de acordo com os relatos de seus entrevistados, que os gays sentiam-se confortáveis neste arranjo. Mais do que confortáveis, sentiam-se poderosos, numa espécie de “máfia” que controlava diversos aspectos da indústria cinematográfica. Ao contrário de outros homossexuais que eram perseguidos e viviam às escondidas no resto dos EUA, os gays e as lésbicas de Hollywood contavam com a cobertura dos estúdios para viverem sua vida particular como bem entendessem. Contanto, claro, que ela permanecesse particular.

A leitura de Bastidores de Hollywood coincidiu com dois factóides recentes no cenário cultural brasileiro. O primeiro foi o surgimento desse tal de Lacraia, o dançarino do (argh) funk da egüinha do pocotó (ou sei lá como se chama a música). Lacraia preencheu a vaga de “homossexual negro efeminado” deixada pelo finado Jorge Lafond e reacendeu o debate no mundinho acerca da exposição pública da sexualidade de celebridades.

(Pausa para nos recobrarmos do choque – vivemos na lamentável época em que uma Lacraia é considerada celebridade. Ok, vamos em frente).

Figuras públicas como o Lacraia devem esconder sua homossexualidade, para evitar submeter todo o movimento gay ao ridículo? Ou, pelo contrário, famosos enrustidos deveriam ser revelados para mostrar que ser gay não é algo de que se deve ter vergonha? A dúvida é velha, velhíssima – que o diga William J. Mann. Mas a solução também é. As duas perguntas, na verdade, não se contradizem. Se optássemos exclusivamente por uma das duas propostas, permitiríamos que o totalitarismo da opinião pública sobrepujasse nossa vida particular. Não, eu não acho que todo gay deve sair do armário. Vivo minha sexualidade abertamente porque escolhi assim e não posso esperar que os outros respeitem minha decisão se lhes impuser que tomem decisão semelhante. Isso é fascismo. Cada um sabe o que lhe é melhor. Se o Lacraia quiser dançar à vontade no Gugu, tudo bem. Se o Tom Cruise quiser continuar fingindo com a Penélope Cruz, tudo bem também. (Isso, aliás, vale também para os não-famosos pobres mortais como eu e você! Seja dono do seu próprio nariz! E do próprio armário!)

Por outro lado, sou totalmente a favor da exposição pública... dos filmes homossexuais! Esse é o segundo factóide de que queria falar. Depois de dois anos de atraso, finalmente saiu em vídeo Plata Quemada, filme argentino que causou frisson no Festival Mix Brasil ao contar a história real de um casal gay de assaltantes. A sinopse na contracapa da fita, porém, me decepcionou, descrevendo os protagonistas como “amigos inseparáveis”.

Me pergunto: em que década vivem essas distribuidoras de filme? “Gay” ou “homossexual” são palavras vetadas no vocabulário delas? Se a preocupação é não afastar o cinéfilo preconceituoso, acredito que o eufemismo prestou um desserviço. Fico imaginando um desavisado alugando Plata Quemada e se deparando logo com a primeira cena, que mostra o casal dormindo abraçado, só de cueca. Não é muito pior um cliente sentir-se ludibriado do que um sucesso restrito de locação? E a distribuidora presumindo, ainda, que o cinéfilo seja burro e incapaz de considerar interessante um filme que mostra uma sexualidade diferente da sua... Que decepção. Vamos tirar os filmes do armário já!!!!


 

 

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