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Panorama
Cult - Cinema
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Mistérios
da Carne - Um bad boy homossexual que conquista o coração
de um jovem problemático
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- @Por
Luiz Carlos Oliveira Jr.
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A grande surpresa de Mistérios da Carne não
está na primeira evidência que o filme entrega – a de um trauma originário que
repercute de forma absolutamente antagônica na vida de dois adolescentes. Nem na
estilização – a meio caminho entre o virtuosismo e o acometimento profundo em
relação ao assunto em questão – que seu diretor/roteirista/montador Gregg Araki
depura ao longo de 99 minutos.
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- O que espanta e deslumbra neste filme são as
saídas, sempre cativantes, que ele encontra diante das suas muitas sinucas de
bico. O trauma deixa de ser assunto psicanalítico à mesma medida que não se
esconde em figuras de recalque: é pela construção de um imaginário – fantasia
romântica de um verão perdido no tempo ou fábula sci-fi de abdução por
alienígenas – que Mistérios da Carne retorna à cena inaugural da história
que conta, ou seja, ao abuso sexual de duas crianças por um adulto. Mas talvez o
filme torne inapropriada essa expressão outrora inequívoca, "abuso", tamanha a
peculiaridade de seu relato.
Duas crianças, um mesmo episódio, dois
desdobramentos. Neil já começa contando como foi aliciado, quando tinha oito
anos de idade, pelo treinador de baseball de dentes claros e bigode
aparado, um tipo físico que ele mais tarde apreciaria nos homens. Enquanto Neil
lembra claramente, com rigor de detalhes, tudo que aconteceu na sala repleta de
brinquedos e jogos de Atari da casa do treinador, Brian diz que com aquela mesma
idade sofreu um apagão e cinco minutos de vida lhe foram arrancados da
consciência.
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- Mas percebemos que ele também foi vítima, se não do mesmo, de um
assédio semelhante ao que Neil narra até com certa nostalgia. Não é surpresa de
roteiro: o filme não cria suspense barato em cima disso, e seu paralelismo
narrativo traz uma enorme carga de honestidade frente às possíveis diferenças de
abordagem a um mesmo evento-trauma.
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- Nas primeiras imagens do filme já se define
essa divergência de visões: a chuva de cereais coloridos que cai em câmera lenta
sobre a cabeça de Neil, rosto maravilhado, sorriso aberto, é completamente
diferente do aguaceiro que desaba sobre Brian, encolhido atrás de seus óculos no
banco de reservas do time de baseball. Um mesmo movimento de câmera (o
tilt que desce da chuva em direção ao rosto da criança) introduz duas
situações díspares e – mais ainda – dois destinos opostos, que as vozes em
off de Brian e Neil evocam com estranheza e encantamento.
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- O que para
Brian se configura como a origem do engessamento de um processo – sua transição
da infância para a idade adulta, já que ele fica preso aos hábitos infantis e a
uma condição "assexuada", como se algo ocorrido naquele momento de que não se
lembra o travasse na eterna repetição de uma mesma quimera infanto-juvenil –,
para Neil não tem qualquer conotação de fuga do fato real através de uma
maquinação que extrapola os limites carnais e terrestres. Neil leva a cicatriz
para dentro da carne, revisitando-a todos os dias ao se prostituir para homens
mais velhos.
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- Eterno desejo de imagem, para um, e eterno desejo de corpo, para
outro. Mas o mistério é o mesmo: a história de aliens e a aventura por
motéis e boates guardam uma origem comum, são homólogas e portanto inseparáveis.
Ou melhor: devem se reatar um dia (como acontece no final).
Esse
episódio que aparentemente só pediria um tratamento, o do repúdio e do asco,
rende para Gregg Araki um misto de sobriedade e obnubilação.
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- Ele pôs a
interrogação de parti pris que nenhum outro filme anterior que tratasse
do mesmo assunto havia posto de verdade: nós adultos só conseguimos olhar para a
pedofilia do treinador com ares reprovadores e indignados, mas o que um
acontecimento como esse representa na mente da criança que o vivencia?
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A partir
dessa crucial interrogação, o filme não consegue se fixar nem na sordidez nem na
doçura (pois doce é a forma do treinador se aproximar dos meninos), e se torna
todo ele uma paisagem tão turva quanto interior – ainda que essa paisagem se dê
a ver na pele, nos rostos (maquiados ou não), nas paredes com pôsteres ou
pichações, nos signos externos. A fronteira entre os planos subjetivos e aqueles
mais próximos de um registro direto se torna aqui bastante oscilatória.
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Verdadeiro e falso, natureza e artifício pregueados um sobre o outro, não sobram
inferno nem paraíso incontestáveis: há um problema, como não poderia deixar de
haver, e o que se destaca daí é muito menos da ordem do abjeto e imoral do que
daquela – que não esconde seus poderes de sedução – do mistério, do enigma.
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- É
uma arte de abstracionismo que não reconhece senão maneiras irredutivelmente
concretas de mostrar o que deseja. Araki não encena eufemismos, nem põe em
dúvida o que vemos: se num determinado momento uma mão alienígena se substitui
ao toque do adulto pedófilo, é porque o filme se dedica, sobretudo, ao
imaginário dos seus personagens, às suas vias particulares de interação com o
mundo.
A pele, que o filme carrega no título original (adaptação do
romance de Scott Heim, de fortes traços autobiográficos), mostra-se a superfície
viva em que as mudanças do filme se inscrevem; um receptáculo de modulações
gráficas ou de signos de auto-inclusão numa cultura pop distante (a maquiagem,
os piercings e as roupas de Eric, o amigo de Neil que não sai da cidade
pequena em que vivem, mas parece antenado com tudo que acontece em Londres ou
Nova York), de sinais biológicos ou de sinais extraterrestres (as manchas do
sarcoma de Kaposi no tronco de um dos clientes de Neil; o corte na perna de
Avalyn – a amiga ufóloga que Brian arranja após assistir a um programa de tv –
que ela diz ter sido obra de seres de outro planeta).
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- A pele é o que permite ao
filme transformar tudo em jogo de superfícies, mas é também o que o obriga às
instâncias mais profundas. Local em que se manifesta tudo, do desejo ao medo, do
amor à doença. Quando Avalyn vai à casa de Brian e tenta afoitamente tirar sua
roupa, em meio a palavras de sedução nada convincentes, a ficha dele cai. O
curto-circuito entre sua obsessão com alienígenas e a violação sexual vem à
tona.
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- Entre a fascinante chegada de um disco voador, vista por uma criança, e a
brutalidade de um estupro sofrido por um adolescente (Neil encurralado na
banheira do redneck que o espanca), Mistérios da Carne estabelece
uma relação de notável franqueza com seus personagens. Eles recebem de Gregg
Araki uma liberdade emocionante, uma oportunidade de serem amados não importa o
que façam.
No final do filme, o retorno à casa vazia do treinador, lugar
que o tempo tratou de fantasmagorizar. Desenho da catarse por excelência: com
Brian deitado a seu colo, em posição fetal, no sofá (na cena do "crime", por
assim dizer), Neil acolhe o amigo carinhosamente e conta de uma vez por todas,
sem ignorar as nuances, o que ocorreu entre eles dois e o treinador.
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O filme faz
seu último movimento arriscado, e sai ganhando novamente. A penumbra da sala vai
gradualmente se acentuando até que sobram apenas o sofá e eles dois, todo o
resto da casa apagado e esquecido. Não é fácil saber toda a verdade e ter de
lidar com ela constantemente, como Neil confessa a Brian.
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- Dali em diante tudo
mudará para melhor? Ou será ladeira abaixo? Resposta que não cabe ao filme
induzir. O importante é ter em mente que descer a ladeira, em Mistérios da
Carne, não significa perder a viagem, ou muito menos passar ao largo da
beleza que pode existir na trajetória de vida de uma pessoa.
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- Até onde o filme se
permite ir, sobressai a vontade expressa em palavras por Neil, e que Araki
realiza ao fazer o espaço ao redor deles sumir e a câmera se distanciar para
atingir a escuridão do céu noturno, aquele em que se insinuam as estrelas, os
cometas e os discos voadores. Desaparição: desejo maior que a vida, porém
inegável neste filme.
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- Serviço:
- Mistérios
da Carne
Gregg Araki, Mysterious Skin, EUA, 2005
- Em
exibição:
- Cine
XIV
- Endereço:
Rua Frei Vicente, 12/14 - Quarteirão Cultural do Pelourinho
- Tel. 71. 3331-1279.
- Horário
das sessões: Sempre á partir das 18hs
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