Panorama Cult

Leila Maria para todos os tipos de amor
Salvador 03.05.2007
Parafraseando Gertrude Stein, "uma canção de amor é uma canção de amor, é uma canção de amor".  Para embalar qualquer tipo de amor. Assim como essas músicas aqui selecionadas, que encantaram e encantam apaixonados de todos os sexos. O que não impede que elas também tenham a peculiaridade de estarem de alguma forma conectadas ao universo gay. Seja pela temática das letras, por terem sido adotadas por esse público ou mesmo pela opção sexual de seus compositores.
"Nature boy", de Eden Ahbez, é, senso comum, entendida como uma das pioneiras canções gay, mesmo que não fosse essa a intenção de, por exemplo,
intérpretes como Nat King Cole e Frank Sinatra (este, por sinal, anos depois, viu, a contragosto, "Strangers in the night" virar hino no gênero).  Aqui no Brasil, o mesmo aconteceu com a balada "Você vai ser meu escândalo", de Roberto e Erasmo Carlos, lançada por Wanderléa, e que logo seria adotada como trilha pela comunidade.
As canções de amor de Cole Porter quase sempre ilustraram cenas “boy meets girl” em musicais, mas tanto podem ter sido escritas para Linda (sua mulher), quanto para os inúmeros amantes do compositor, um homossexual muito bem resolvido para a época (anos 30, 40 e 50), em suas temporadas em Nova York, Veneza, Paris, Los Angeles... "All of you", uma canção de amor total, é daquelas que se adaptam a todas as opções.

Pela biografia de Billy Strayhorn (compositor, pianista e arranjador que, a partir de 1939, virou braço direito e esquerdo, cérebro e alma da orquestra de Duke Elligton) é admissível pensar que o adjetivo usado na frase de abertura de "Lush life" já tinha acepção além da habitual "alegre": "I used to visit all the very gay places…". Segundo David Hajdou, autor da melhor biografia de Strayhorn, este e seus amigos realizavam anualmente na década de 50 audições privadas de musicais gay criados apenas para aquelas ocasiões. O livro não diz  se ainda existem as partituras dessas obras ou se parte delas foi aproveitada depois.

k.d. lang  ("Sexuality") e George Michael ("Kissing a fool") estão entre os artistas contemporâneos que, a partir dos anos 90, tiveram a possibilidade, que Strayhorn não conseguiu, de sair do armário e viver sem máscaras sua sexualidade. Algo que aqui no Brasil, quase uma década antes, a pioneira Ângela RoRo já fazia de maneira escandalosa em sua vida, e delicadamente em suas letras, como "Se você voltar" (música de Antonio Adolfo). Algo que, discreta e filosoficamente, Marina Lima também tem afirmado em sua obra, em canções, muitas com letras de Antonio Cícero, como esta "Mapa-múndi".

Apaixonada declaração de um amor velado - "nem de leve sabes que eu te quero" – o clássico "Ilusão à toa", de Johnny Alf, inspirou nos anos 80 a letra de Ronaldo Bastos para "Um certo alguém", música (e sucesso) de Lulu Santos – e agora  inspirou Caetano Veloso em "Amor mais que discreto", canção composta recentemente e ainda inédita em sua discografia.

Já "Gatas extraordinárias", de Caetano Veloso, e "Seu tipo", de Eduardo Dusek e Luiz Carlos Góes, estão entre as letras que na voz de uma mulher ganham uma leitura gay. Enquanto em  "Mar e lua", Chico Buarque descreve com a sua habitual sensibilidade para a alma feminina "o amor proibido" de duas mulheres.

Grandes canções que, reunidas por  Leila Maria, uma  das maiores cantoras do Brasil, ganham um novo e muito musical olhar. O produtor Dunga (também no baixo e nas programações) reuniu um time de ótimos instrumentistas – Vinicius Rosa (guitarra e violão), Chocolate (bateria e percussão) e Hiroshi Mizutani (teclados e piano), mais as participações de Marcos Sabóia (programações adicionais), Bruno Migliar (contrabaixo em "Lush life"), Rodrigo Braga (piano em "Lush life") e Milton Guedes (flautas e harmônica em "All of you" e saxofone em "Ilusão à toa") –  para roupagens que transitam com elegância entre o pop e o jazz, a bossa nova e os sons eletrônicos. Longe do lounge, mas que também poderá agradar a amantes do gênero "easy (to love) listening".

Na única visita que fiz ao estúdio, ouvi boa parte das bases, gravadas  com todos tocando ao vivo, e a voz guia de Leila, que pra mim já soava  definitiva. Disco pronto, confirmo que, independentemente do tema, ele é para apaixonados pela grande música.


Envie esta página para alguém

 


Anúncie | Fale conosco | Seja Parceiro | Política de Privacidade | Quem somos
 
Farofa Digital 2002© Todos os direitos reservados