- 31.maio.2010
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- "Mithly" não é uma revista como as outras, mas não porque deve ser lida da
direita para a esquerda. Lançada em abril, é a primeira revista gay a circular
em árabe num país de maioria muçulmana, o Marrocos.
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- O pioneirismo conseguiu uma
divulgação inédita para a causa, mas vem causando polêmica nos jornais locais e
o silêncio do governo do rei Mohammed 6º.
No país, "atos licenciosos
ou contra a natureza cometidos com indivíduos do mesmo sexo" podem ser punidos
com prisão de seis meses a três anos, além de eventuais multas.
O site da
revista (mithly.net), em árabe,
já atingiu, desde sua criação, mais de 1 milhão de visitantes únicos, segundo
Samir Bergachi, redator-chefe da "Mithly". Mas o fenômeno mesmo é que os 200
exemplares impressos em Madri e distribuídos em Rabat, a capital marroquina, de
mão em mão, gratuitamente, na mais rigorosa clandestinidade, viraram notícia na
Europa e nos EUA. O impacto do papel e de ser escrito em árabe clássico deu
destaque internacional à revista, que deixou de ser uma rede de militância na
internet para se tornar um instrumento de ação política inédito no mundo
islâmico.
Mithl = igual Para batizar a revista, foi
necessário também sustentar o uso de um termo novo. "Homossexual" não tem
equivalente em árabe, a não ser os pejorativos "zamel" (efeminado) ou "chaddh"
(perverso). "Mithly" -- em tradução literal, "igual a mim" -- ganhou o que os
especialistas chamam de "nova carga semântica", quando um sufixo ("y") amplia o
significado de uma palavra já existente ("mithl", igual).
A publicação é
iniciativa da associação Kif Kif, legalizada em 2005 na Espanha. Mais do que uma
rede de contatos entre compatriotas gays de Madri, Paris, Roma e Montréal, os
fundadores, todos marroquinos expatriados, pretendiam interferir na vida do país
que deixaram para trás. A sede da organização em Rabat tem três mil inscritos,
segundo seus líderes. A identidade dos associados permanece escondida; a Kif Kif
nem sequer é legalizada no país. "O governo não responde nossas cartas", diz
Bergachi, estudante de jornalismo da Universidade Complutense de Madri. "O que
temos é o silêncio."
Escritórios fora do Marrocos, com 50 a 60 militantes
em média, captam pequenas doações que, sozinhas, mantêm o site, a consultoria
legal e, mais recentemente, a revista "Mithly".
Elton
John Num projeto gráfico simples e com apenas 20 páginas, a revista
não faz provocações nem procura atrair leitores com consumismo, pornografia ou
"nus artísticos". Engajado, o primeiro número traz um artigo sobre o Dia
Internacioial da Mulher, testemunhos de homossexuais que "saíram do armário",
repercute as manifestações públicas contra o show do cantor britânico Elton John
no festival Mawazine, em Rabat, e traz um conto do escritor Abdellah
Taïa.
O marroquino Taïa, 36, vive autoexilado em Paris há dez anos. Por
escrever em francês, alcançou boa projeção no circuito literário internacional:
publicou três romances por uma das grifes do livro francês, a editora Seuil.
Participa de festivais literários internacionais, como o Beiruth 39 (com 39
autores de menos de 39 anos, selecionados pela Unesco), e o mais famoso de
todos, o de Hay-on-Wye, no Reino Unido (que começou no dia 27). Os romances de
Taïa são todos autobiográficos, ficção misturada às memórias de sua vida na
pequena cidade de Salem. Até mesmo no Marrocos, onde a Unesco registra 50% de
analfabetismo, os livros de Taïa vendem bem: segundo ele, "Le Rouge du
Tarbouche" ["O vermelho do turbante"] vendeu 15 mil exemplares. Como ele diz, é
"muito, muitíssimo". Dificilmente os escritores brasileiros com sua idade e
projeção atingem esse resultado.
O tempo da vergonha Taïa é
um ícone gay no Marrocos desde que, em 2007, foi capa da revista semanal de
informação "Tel Quel", editada em francês. Com tiragem de 20 mil exemplares --
apenas 100 vezes a da "Mithly" --, é a mais progressista do país e acaba de
ganhar uma irmã em árabe. Além de expor-se numa entrevista, Taïa publicou o
texto "A homossexualidade explicada à minha mãe".
E por quê? "Porque nós,
homossexuais, estamos emprestando a voz a uma sociedade que está presa no
silêncio de uma ditadura." A situação é parecida nos outros países da África do
Norte. Na Argélia, "todos os culpados de atos homossexuais são punidos com dois
meses a dois anos de prisão" (artigo 338 do Código Penal), além de multa. Na
Tunísia, o artigo 230 do Código Penal prevê prisão de até três anos por "sodomia
consentida entre adultos". Como em inúmeros outros exemplos ao redor do mundo,
os gays marroquinos são os primeiros a reagir à repressão moral -- que eles
também foram os primeiros a sofrer.
Efebos e
cortesãs Embora escorada na tradição, a atual cultura repressiva nos
países muçulmanos é um dado cultural relativamente novo, associado à recente
islamização política. Abdellah Taïa cita o poeta árabe Abu Nuwas (756-814), que
escrevia cânticos de amor aos rapazes. "É um clássico, e ainda é estudado nas
escolas públicas", diz ele. "Todos sabem que era homossexual."
O mesmo
acontece com Al-Jahiz (781-869), que escreveu um livro sobre "efebos e
cortesãs", "um diálogo entre homens que amam mulheres e homens que amam homens".
Nas "Mil e Uma Noites" (os manuscritos datam dos séculos 9º ao 18), não faltam
histórias que narram, metaforicamente, relações de amor sensual entre pessoas do
mesmo sexo. Não se trata de querer ver uma linhagem gay na tradição literária
árabe. Segundo Mamede Mustafa Jarouche, 47, que assina a mais recente tradução
brasileira do "Livro das Mil e Uma Noites" (Editora Globo) e dá aulas de árabe
na USP, "nos tratados eróticos clássicos, e em boa parte da narrativa literária,
não há exatamente uma visão essencialista sobre a escolha do parceiro".
Jarouche, que morou no Cairo, conta que, em 2000, uma editora do governo egípcio
teve a gráfica invadida por fundamentalistas que rasgaram livros de Abu Nuwas,
que viveu, vale repetir, no século 8. E em 2001, na feira do livro do Cairo,
houve uma tentativa de censurar a tradução árabe de "A sexualidade no Islã"
(1975), do tunisiano Abdelwahab Bouhdiba, publicado no Brasil pela editora
Globo.
Se pecou, não divulgue Para a comunidade islâmica do
Brasil, a tentativa de moralizar a literatura é uma volta aos "critérios claros"
da religião. Um de seus líderes, o xeque Jihad Hassan Hammadeh, 44, diz que não
há margem para dúvida na interpretação da lei corânica. "Homossexualidade é
proibida, é pecado."
Nascido na Síria e vivendo em São Paulo desde 1991,
o xeque não comenta os casos que ocorrem na comunidade islâmica que dirige. Mas
não deixa de ser um tanto brasileira a solução que propõe: para ele, a religião
dá ao crente a possibilidade de não divulgar seu pecado, para que haja espaço
para voltar atrás. Assim, o acerto de contas acontecerá entre o fiel e Deus. "Se
pecou, não divulgue."
Colonialismo militante Os marroquinos
da "Mithly" estão divulgando, e além da repressão do Estado, recebem objeções
intelectuais: publicar uma revista gay poderia ser um programa elitista e
ocidental.
Paulo Hilu Pinto, 42, antropólogo da Universidade Federal
Fluminense (UFF), especialista na Síria contemporânea, enxerga o risco de
"colonialismo militante" que pode haver na iniciativa. "O movimento gay
organizado é libertador para quem?", questiona. "Um morador da periferia, que
faz sexo com parceiros do mesmo sexo, pode nunca ter se enxergado assim." Hilu
Pinto acredita que, com a moral religiosa, o gay pobre acaba se vendo como
pecador. Os editores da "Mithly", de fato, pertencem a uma elite intelectual que
mora e estuda na Europa. Os escassos 200 exemplares que circularam na capital
marroquina não deixam de ser um sinal de elitismo, embora a íntegra da revista
esteja disponível (e de graça) na internet clique aqui para ler. Mas não importa a tiragem: a mera
existência da revista já é um respiro no abafado ambiente cultural do
Marrocos.
Integrar O sociólogo marroquino Mohammed
Mezziane, 47, afirma que a "Mithly" não propõe uma ruptura com o Estado ou com a
religião. Pelo contrário, seu objetivo é integrar o discurso homossexual na vida
do país. Cautelosos, os editores da revista ainda não reivindicam os temas da
pauta ocidental, como o casamento gay ou as pensões e planos de saúde para
parceiros do mesmo sexo.
O número 2 da "Mithly" sairá nesta terça, 1º/6,
apenas na internet, com reportagem sobre o alto índice de suicídio entre os
homossexuais. O terceiro número está prometido para o papel: julho é o mês do
orgulho gay, e também é o aniversário de cinco anos da associação Kif Kif. Os
editores preparam uma reportagem sobre o lesbianismo no mundo árabe, história
ainda mais escondida. Samir Bergachi, o redator-chefe, diz que quando os
tradicionalistas querem mostrar os riscos da descriminalização da
homossexualidade no Marrocos, exibem imagens do Carnaval carioca.
A
associação Kif Kif, segundo Bergachi, foi convidada para participar do congresso
internacional de direitos LGBT, em 2011, no Rio de Janeiro. "Finalmente vou
conhecer o Rio", comemora.
Com
informações do Folha Ilustrada UOL
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