Violência entre casais homossexuais se aproxima das registradas entre os casais hetéros em Portugal .
@Por Ana Cristina Pereira
Um sistema de justiça “extremamente preconceituoso” leva as vítimas a não recorrer às autoridades
A frequência dos comportamentos abusivos entre casais homossexuais é relativamente próxima da que ocorre entre heterossexuais. Pelo menos é o que informa uma pesquisa realizada pela Universidade do Minho em Portugal, nos meses de junho e julho 2008, que alerta para a necessidade de criar serviços de apoio para atender a estas vítimas.
O trabalho da Universidade, atentou para uma realidade “ignorada ou negada”, explica a pesquisadora Carla Machado. Ignorada por causa do predomínio das relações heterossexuais dentro das ciências sociais, mas também “pelo medo que a comunidade homossexual de diversos países tem” de ver alimentar “ um estereótipo negativo e estigmas associados à homossexualidade”.

No artigo “Dupla invisibilidade: a violência nas relações homossexuais”, a autora Carla Machado lança ainda outras pistas para esta ocultação: a idéia de que apenas os homens protagonizam agressões, a crença de que as “relações entre indivíduos do mesmo sexo tendem a ser igualitárias e imunes à violência íntima” e “o funcionamento de um sistema de justiça extremamente preconceituoso”, que leva as vítimas a não recorrer às autoridades.

Apesar de ter por base uma pequena demonstração de 63 indivíduos assumidos como homossexuais, o estudo traz resultados muito semelhantes aos encontrados em outros países. Atendendo à relação amorosa atual, um quinto (20,6 por cento) dos interrogados identificaram-se como vítimas e 15,9 por cento como agressores.
“O nível de violência é próximo” da dos casais heterossexuais. Numa investigação sobre violência conjugal entre homem e mulher conduzida em Portugal (tendo por base 2391 famílias), 22,2 por cento dos sujeitos assumiram-se como vítimas e 26,22 como agressores.
As diferenças “têm, sobretudo, a ver com o elevado nível de escolaridade” da amostra homossexual, diz a pesquisadora, sublinhando que “a violência de género existe e é dominante” na sociedade, mas “a violência doméstica é um fenómeno muito mais complexo do que isso”.
Também entre os homossexuais o insulto e a humilhação constituem as formas mais recorrentes de agressão. Há, ainda assim, uma especificidade: ao revelar ou ameaçar revelar a orientação sexual do parceiro - uma estratégia assumida por 1,6 por cento dos interrogados.
Atendendo à discriminação social a que estes indivíduos estão sujeitos, tal atitude pode resultar, por exemplo, na “perda de emprego ou no abandono de familiares e amigos”.

Relações passadas
mais problemáticas?
O índice de violência sobe quando as questões incidem sobre relações passadas: 61,9 por cento e 46 por cento dos interrogados referiram, respectivamente, terem sido vítimas ou agressores em relações passadas, o que Carla Machado não estranha.
A literatura descreve o conjunto de razões que levam a vítima a ter dificuldade em virar costas à situação - “proximidade emocional, falta de apoio social, dificuldades económicas, medo de rejeição pela comunidade homossexual, isolamento social”.
Outra hipótese tem a ver com as próprias limitações do estudo. O contexto do preenchimento do inquérito não foi concluido. É “impossível saber” até que ponto as respostas não estão ligadas ao fato de os agressores atuais “pressionarem as vítimas para ocultar alguns dos comportamentos abusivos”.

Cegueira social”
Um “fato isolado” é que alguns dos comportamentos referenciados no passado ocorreram em relacionamentos heterossexuais. Mas se deve levar em conta que “as atitudes negativas veiculadas pela sociedade em relação à homossexualidade, aliadas à legitimação social da violência nas relações íntimas”, tornam esta realidade muito mais difícil de denunciar. Resultado?  “Os agressores não são punidos pelos seus comportamentos e podem mesmo reforçá-los”, escreveu Carla Machado.

Reconhecendo todas estas dificuldades e limitações, o estudo alerta “para a importância de se refletir sobre a forma de ampliar os serviços disponíveis para as vítimas, de modo a incluir” os homossexuais. A pesquisadora diz que “o maior desafio face à violência nas relações homossexuais é a cegueira social”.

Na opinião de Carla Machado, “é fundamental as próprias instituições ultrapassarem as suas idéias homofóbicas, assim como a crença de que as relações lésbicas e “gays” são imunes à violência, para fornecer serviços apropriados e desenvolver políticas sociais efetivas”, Os pesquisadores estão trabalhando para fazerem pesquisas mais aprofundadas com a finalidade de esclarecer sobre esta realidade.

Ideias Fortes
“Assim como os casais heterossexuais, os homossexuais recorrem, frequentemente, à violência como uma forma de lidar com os problemas e de expressar os seus sentimentos”, especifica o estudo da Universidade do Minho, a que o PÚBLICO teve acesso. “Esta situação ainda é mais grave se considerarmos que os homossexuais vítimas de violência nas relações íntimas se deparam com dificuldades acerca da discriminação e a homofobia, que se combinam para criar uma afirmação implícita dessa violência.”
 
Curiosidades
Não foram encontradas diferenças significativas relativamente ao fato de a orientação sexual do sujeito ser ou não conhecida. “Estes dados parecem sugerir que mesmo aqueles cuja família tem conhecimento da sua homossexualidade podem não se sentir à vontade para revelar as situações de vitimação e ou agressão a que estão expostos, quer pelo mesmo tipo de imposição a que as vítimas em geral estão sujeitas, quer pelo eventual receio de que esta informação agrave as visões negativas e hostis relativas à homossexualidade.”
 
Falta de adaptação
Por causa das “dificuldade de acesso à população homossexual, a pesquisa utilizada é pequena e não representativa”. De resto, “considerando que praticamente todos os participantes estão envolvidos em alguma organização homossexual”, pode-se concluir “que estes representam uma minoria particularmente ativa, consciente e confortável com a sua homossexualidade, que não corresponde à população homossexual “escondida”".
O consistente da pesquisa é composta por “sujeitos de perfil urbano, escolarizado”.
 
A pesquisadora sugere uma pesquisa mais aprofundada que possa revelar um número maior de violência entre casais homossexuais.
 
Limitações
Não foi controlado o contexto de preenchimento da Pesquisa. É provável “ que alguns entrevistados ocultassem comportamentos violentos devido à pressão dos (as) parceiros (as) violentos (as), ou com medo de represálias. Da mesma maneira, alguns agressores podem ter omitido condutas violentas em relações passadas.
 
Sobre a autora:
Ana Cristina Pereira é estudante da Universidade do Minho - Brasileira - Tem 34 anos e se inscreveu na sessão Você Réporter do POrtal Farofa Digital.

 

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