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- Teatro
de protesto Gay em 1984
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Estávamos em 1984. Apenas há poucos anos da existência do GGB e influenciados
pelas apresentações de rua do tipo teatro de cordel - então super populares nas
praças em Salvador e por ter próximo à nós o exemplo virulento do movimento dos
Poetas na Praça, com os seus recitais e as suas declamações públicas anti
autoritarismo, nós homossexuais decidimos nos movimentar também. Aqueles anos
representava o início de uma abertura política era o limbo da devolução do poder
militar aos civis, expectativas promissoras em que todos se viam na obrigação de
cobrar e exigir cada vez mais os seus direitos de expressão.
Como gente Gay e Lésbica, um povo dos mais segregados e
estigmatizados do país, resolvemos marcar aquele momento fazendo também o nosso
protesto particular, contra os agentes mais repressores de então: A Família como
célula mater onde brota e prospera todo sentimento de aversão à
homossexualidade, a Igreja hipócrita com os seus dogmas e sentimentos de pecado
frente ao amor entre iguais. Também a Escola que deseduca quando referenda
práticas anti gays, a Polícia que reprime, espanca, humilha e prende e outras
tantas instituições homofóbicas.
O texto da nossa peça, que não
precisou de dramaturgo especial para compô-lo , sempre tinha como base e se
inspirava na denúncia e na grita por direitos humanos, o trajeto e o percurso do
cortejo, o figurino, o palco da apresentação foram improvisados, tudo era muito
feito em cima da hora sem grandes planejamentos, mas o que queríamos era atingir
em cheio nossos inimigos históricos lhes dizendo da nossa presença e da
existência da grei, nós as "bichas militantes". No final dava tudo certo.
Mais uma vez entendam, duas décadas atrás o medo de aparecer em
público enquanto homossexual era bem pior. Pairava naquele momento da política
brasileira uma bagunça de idéias. O sentido era de repressão mesmo. Queriam por
no mesmo saco homossexualidade e pornografia, quem não se lembra desta cruzada
moral do final de governo do General Figueiredo? No carnaval tudo bem, se podia
tudo a permissividade baiana contagiava, mas estar na Praça Castro Alves e sob a
cripta do poeta morto alardear o bom da homossexualidade e fazer apologia dos
direitos de igualdade gay era algo no mínimo antipático para muita gente.
Até mesmo tínhamos dificuldade de arregimentar gays outros, que
envergonhados, amedrontados e egodistônicos, fugiam da gente como o diabo da
cruz. Cheguei a ouvir várias vezes das próprias bichas " vocês não tem vergonha
não?", "ficar aparecendo nas ruas, chamando a atenção pras bonecas ", "deixa
como está, pra que mexer com o que está quieto, sempre teve viado no mundo e
nunca precisou desta coisa de grupo gay" " tudo por debaixo do pano é melhor,
pra que aparecer".
Como também era difícil explicar pra
imprensa porque éramos tão poucos. Porque haviam tantos gays nas estatísticas do
Kinsey e tão poucos nos eventos públicos do GGB. Esta alienação dentro da
própria comunidade era o que mais nos constrangia. A mídia - que se influenciava
pelo que sabia - via e ouvia - do ativismo americano, sempre nos cobrava números
e grandes movimentações, o que para nós era difícil fazer, tínhamos poucos anos
de existência e engatinhávamos frente aos tempos de Stonewall de 1969, lutávamos
contra tudo e contra todos para fazer daquelas - hoje diante das gigantescas
Paradas Gays - tão minúsculas ações barulhentas de militância .
O nosso teatro gay de rua fez de palco o monumento em carrara,
obra de De chirico e tudo acontecia do lado e em cima da cripta [ela ainda
estava lá] do Poeta Castro Alves, na praça do mesmo nome - equipamento público
endeusado nas canções de Caetano e Moraes Moreira e festejada como coração da
alegria momesca. Aquela praça sim, era um reduto prestigiado e território livre
dos homossexuais no carnaval baiano. Por isso tinha tudo a ver com as nossas
encenações teatrais gays.
Muitas faixas e cartazes explicavam
visualmente o sentido da manifestação. O percurso principal do cortejo cênico
eram as muitas voltas em torno da estátua do Poeta dos Escravos. E naquela praça
do povo nos posicionávamos em pontos estratégicos. Nenhuma mulher participou do
nosso teatro, então os papéis femininos - como no teatro Noh clássico japonês -
era feito pelos homens gays mesmo. A personagem da mãe repressora do filho gay,
o da castradora esposa na instituição casamento, etc.
Uma das
múltiplas faces do Luiz Mott foi a de se sair muito bem como diretor teatral.
Ensaiávamos na sede do GGB e quando enfrentávamos às ruas o Mott ficava todo o
tempo cronometrando o tempo, pontuando as falas e situando a posição dos atores
en cena [que na verdade não eram atores profissionais pois nenhum de nós
tínhamos experiência alguma de teatro]. Aquele amadorismo nos empolgava porque o
que nos enchia de coragem e de orgulho de participar daquelas exposições
públicas, o que nos motivava a "mostrar a cara" enquanto gays, era porque
acreditávamos mesmo estar mudando algo. Desafiando o preconceito. Não dá pra
explicar em palavras o nosso sentimento de então. Era mais ou menos assim: "olha
vocês vão ter que nos engolir", "nós estamos aqui", "temos prazer em ser
homossexuais", "a cidade, a Praça Castro Alves também é dos gays", "não nos
matem", "não somos pecadores","polícia é pra proteger e não pra
prender","queremos respeito".
Hoje, passadas duas décadas
daquele teatro de rua do Grupo Gay da Bahia, vejo que muitos dos corajosos que
participaram como atores daqueles desafios estão bem. Uma ou duas baixas de
saudosa memória. Mas outros, continuam na cidade, são sérios profissionais,
alguns ainda militam, outros não, mas estão super vivos e atualmente se mostram
pessoas prósperas. Tanto na vida pessoal como no caráter e que sem dúvida, para
quem, ter passado pela escola de vida do GGB deve ter sido um excelente dever de
casa. Uma experiência inesquecível. Um aprendizado único. A história está
mostrando que tudo que fizemos valeu a pena! Eu repetiria tudo outra vez.
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- As
imagens
apresentadas neste
artigo são de arquivos
pessoais do autor
e muitas foram colhidas
do arquivo do GGB.
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