BÍBLIA: DECIFRA-ME OU DEVORO-TE!!!!!!

 

@Por José Carlos Bignardi (JotaC)
 

 

 Desmontar um preconceito é uma tarefa difícil. Entretanto quando esse preconceito vem referendado com "selo divino" ai assume proporções de tragédia humana. As vítimas são pessoas que tem na fé um referencial importante na sua vida. Invariavelmente resta ao homossexual o dilema de ter que optar por viver a culpa imposta pelas religiões (principalmente as muçulmanas, judaicas e cristãs) ou matar o "deus" que lhe oprime. Mas qualquer das escolhas, com raras exceções, implica em culpa que pode mani-festar-se desde crises esporádicas de choro ou raiva até o desenvolvimento de neuroses patológicas capazes de tornar a vida um peso insuportável.

As maiores vítimas, sem dúvida alguma, são os adolescentes. As igrejas estão repletas de homossexuais não assumidos nem para si mesmos e que, quase sempre, atribuem seus desejos a possessões demoníacas ou doenças.

Depois de 10 anos conversando com homossexuais que buscam harmonizar o que são com sua fé, sei o quanto é delicado o trabalho de desconstrução das estruturas religiosas arcaicas. Não raro as pessoas abandonam o diálogo e preferem viver a angustia da auto-negação.

Assunto sempre presente entre os que discutem o tema da homossexualidade, vez por outra são fornecidos endereços de sites ou nomes de livros que se propõem, através de estudos que esclareceriam os mistérios da vontade divina revelada na bíblia "sagrada", a apaziguar as consciências daqueles que sentem-se culpados. Para tanto são elaborados exercícios de exegese amparados por modernos métodos de pesquisas históricas, crítica literária, crítica documental e social propondo novas interpretações para os textos polêmicos. A busca, quase que desesperadora, de conciliação entre aquilo que se é efetivamente e os ditames da "fé" professada, amparadas por esses exegetas, embala o surgimento de comunidades eclesiais LGBTTs, sejam novas igrejas ou grupos constituídos dentro de igrejas "tradicionais". Entretanto, não se ataca a raiz do problema quando se insiste em manter o esdrúxulo dogma da "INSPIRAÇÃO DIVINA DAS ESCRITURAS".

Apenas substitue-se uma interpretação por outra, evitando dessa forma tocar nas estruturas que permitem à hierarquia religiosa manter o domínio coercivo sobre os fiéis através da autoridade eclesial.

E o que diz esse Dogma da "Inspiração divina das escrituras?" Diz que a Bíblia é um livro inspirado por Deus como tal expressa a vontade de Deus para a humanidade". Os fundamentalistas afirmam que, por ser divinamente inspirado, a bíblia não contem erros ou quaisquer contradições (inerrancia bíblica). Existe um grupo que se entende "progressista" e que admite rever a abordagem "literal" dos fundamentalistas fazendo estudos que mostrem que "o que está escrito não é bem o que a gente lê". Ou seja, se enterram em pesquisas para provar que a palavra tal não existia naquela época, ou que foi traduzida de forma equivocada ou ainda que "não é bem isso que o autor do texto analisado queria dizer". Fica estabelecido então um terreno pantanoso onde ninguém sabe bem o que está dizendo e todo mundo grita para ter razão.

Da minha parte abandonei tudo isso faz algum tempo. Entendo que a Bíblia é importantíssima para humanidade por trazer em suas páginas pelo menos três mil anos de história ( desde +/- 1500 antes de Cristo) que retrata as diferentes maneiras que o complexo cultural judaico cristão entendeu seu relacionamento com Deus. Por isso mesmo contem uma vastidão de interesses e percepções contraditórios definindo formas de se relacionar com o divino.

Negar a diversidade contida nesse amalgama cultural é compactuar com abordagens reducionistas absurdas que beiram a fronteira da desonestidade intelectual.

Quando em minha igreja perguntam o que o autor de Levítico quis dizer quando escreveu "maldito todo homem que se deita com outro homem como se fosse mulher" sabem o que respondo? Muito simples: respondo que ele quis dizer exatamente o que escreveu. Infelizmente ele fazia parte da horda de homofóbicos pretensiosos que se julgavam donos da verdade divina, assim como hoje. O que o levou a entender a homo-erotismo como uma maldição eu não sei.

Mas sei que era assim que ele pensava. Por outro lado temos o caso de Davi que declarou ser Jonathas, o filho de Saul, mais gostoso que as mulheres.

Davi transou com o amigo (provavelmente por isso Saul por diversas vezes tentou matá-lo), com as mulheres do pai do amigo (herdadas que foram do Rei falecido), com suas próprias mulheres e com a mulher do vizinho (que mandou matar para encobrir o erro). Isso, sem falarmos que quando já estava bem velhinho determinou que procurassem a donzela mais bonita de todo reino para "aquecê-lo". Desses, o único momento que lhe valeu uma dura repreensão foi no caso em que ele "pulou a cerca". Contrariando o gosto dos moralistas religiosos, a Bíblia registra que Davi foi "O homem segundo o coração de Deus" e afirma que Deus promete que seria de sua descendência que viria o Messias (que para os Cristãos foi Jesus e que o judeus aguardam ainda).

Todos esses costumes, leis e mandamentos tiveram sua utilidade e produziram seu bem e seu mal em momentos determinadas da história. Mesmo nas épocas que vigoraram foram contraditos e a aplicabilidade universal de seus valores questionada. Exemplos disso sobejam na própria bíblia. Tantos os profetas, como o próprio Cristo por diversas vezes desautorizaram a aplicabilidade de conceitos tidos como sagrados (alias por isso o mataram). Cristo ao ser questionado sobre a necessidade de se guardar o sábado, um dos pilares do judaísmo, respondeu que "O SABADO FOI FEITO PARA O HOMEM E NÃO O HOMEM PARA O SÁBADO".

Portanto, percorrer a Bíblia a busca de mandamentos e leis acrescentando-lhes a chancela de VONTADE IMUTÁVEL DE DEUS é de um cinismo absoluto uma vez que essa busca se faz de forma intencionalmente seletiva, desprezando ou ignorando trechos que podem produzir constrangimento ou despertar dúvidas (como os indicados acima). Estou convicto que a Bíblia, muito embora de valor inestimável e fundamental para a fé cristã, não é o MANUAL DIVINO DA VONTADE DE DEUS.

Normalmente nesse ponto os adeptos do dogma da "inspiração divina das escrituras" encerram o diálogo. Sem essa segurança os crédulos confessam-se ameaçados em suas convicções fundamentais e, não raro, preferem a angustia da autonegação a romper com a segurança de velhas tradições. E os pastores, padres, sacerdotes sem esse dogma igualam-se aos demais e perdem o argumento que legitima a autoridade e domínio que exercem sobre os fieis (e ninguém gosta disso).

Como então viver a fé sem o norte seguro do grande manual divino? Sem ter claramente delimitado o que é certo e o que é errado? Seria possível redescobrir a face de Deus para além da Bíblia, das leis e dogmas nela contidos? Obviamente que sim. Mas esse é outro que tratarei em outra ocasião.

 

 
José Carlos Bignardi Cursou teologia no Instituto Bíblico de Maringá e na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista em Rudge Ramos – SP, foi presidente fundador da ASA - PR - Associação de Seminaristas e Aspirantes ao Ministério da 6º Região Eclesiastica da Igreja Metodista, foi pastor da Igreja Metodista, atualmente é Pastor da Igreja Ministerial.
E-mail: jotacb@terra.com.br

 

 
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