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Desmontar um preconceito é uma tarefa
difícil. Entretanto quando esse preconceito vem referendado com "selo divino" ai
assume proporções de tragédia humana. As vítimas são pessoas que tem na fé um
referencial importante na sua vida. Invariavelmente resta ao homossexual o
dilema de ter que optar por viver a culpa imposta pelas religiões
(principalmente as muçulmanas, judaicas e cristãs) ou matar o "deus" que lhe
oprime. Mas qualquer das escolhas, com raras exceções, implica em culpa que pode
mani-festar-se desde crises
esporádicas de choro ou raiva até o desenvolvimento de neuroses patológicas
capazes de tornar a vida um peso insuportável.
As maiores vítimas, sem
dúvida alguma, são os adolescentes. As igrejas estão repletas de homossexuais
não assumidos nem para si mesmos e que, quase sempre, atribuem seus desejos a
possessões demoníacas ou doenças.
Depois de 10 anos conversando com
homossexuais que buscam harmonizar o que são com sua fé, sei o quanto é delicado
o trabalho de desconstrução das estruturas religiosas arcaicas. Não raro as
pessoas abandonam o diálogo e preferem viver a angustia da
auto-negação.
Assunto sempre presente entre os que discutem o tema da
homossexualidade, vez por outra são fornecidos endereços de sites ou nomes de
livros que se propõem, através de estudos que esclareceriam os mistérios da
vontade divina revelada na bíblia "sagrada", a apaziguar as consciências
daqueles que sentem-se culpados. Para tanto são elaborados exercícios de exegese
amparados por modernos métodos de pesquisas históricas, crítica literária,
crítica documental e social propondo novas interpretações para os textos
polêmicos. A busca, quase que desesperadora, de conciliação entre aquilo que se
é efetivamente e os ditames da "fé" professada, amparadas por esses exegetas,
embala o surgimento de comunidades eclesiais LGBTTs, sejam novas igrejas ou
grupos constituídos dentro de igrejas "tradicionais". Entretanto, não se ataca a
raiz do problema quando se insiste em manter o esdrúxulo dogma da "INSPIRAÇÃO
DIVINA DAS ESCRITURAS".
Apenas substitue-se uma interpretação por outra,
evitando dessa forma tocar nas estruturas que permitem à hierarquia religiosa
manter o domínio coercivo sobre os fiéis através da autoridade
eclesial.
E o que diz esse Dogma da "Inspiração divina das escrituras?"
Diz que a Bíblia é um livro inspirado por Deus como tal expressa a vontade de
Deus para a humanidade". Os fundamentalistas afirmam que, por ser divinamente
inspirado, a bíblia não contem erros ou quaisquer contradições (inerrancia
bíblica). Existe um grupo que se entende "progressista" e que admite rever a
abordagem "literal" dos fundamentalistas fazendo estudos que mostrem que "o que
está escrito não é bem o que a gente lê". Ou seja, se enterram em pesquisas para
provar que a palavra tal não existia naquela época, ou que foi traduzida de
forma equivocada ou ainda que "não é bem isso que o autor do texto analisado
queria dizer". Fica estabelecido então um terreno pantanoso onde ninguém sabe
bem o que está dizendo e todo mundo grita para ter razão.
Da minha parte
abandonei tudo isso faz algum tempo. Entendo que a Bíblia é importantíssima para
humanidade por trazer em suas páginas pelo menos três mil anos de história (
desde +/- 1500 antes de Cristo) que retrata as diferentes maneiras que o
complexo cultural judaico cristão entendeu seu relacionamento com Deus. Por isso
mesmo contem uma vastidão de interesses e percepções contraditórios definindo
formas de se relacionar com o divino.
Negar a diversidade contida nesse
amalgama cultural é compactuar com abordagens reducionistas absurdas que beiram
a fronteira da desonestidade intelectual.
Quando em minha igreja
perguntam o que o autor de Levítico quis dizer quando escreveu "maldito todo
homem que se deita com outro homem como se fosse mulher" sabem o que respondo?
Muito simples: respondo que ele quis dizer exatamente o que escreveu.
Infelizmente ele fazia parte da horda de homofóbicos pretensiosos que se
julgavam donos da verdade divina, assim como hoje. O que o levou a entender a
homo-erotismo como uma maldição eu não sei.
Mas sei que era assim que ele
pensava. Por outro lado temos o caso de Davi que declarou ser Jonathas, o filho
de Saul, mais gostoso que as mulheres.
Davi transou com o amigo
(provavelmente por isso Saul por diversas vezes tentou matá-lo), com as mulheres
do pai do amigo (herdadas que foram do Rei falecido), com suas próprias mulheres
e com a mulher do vizinho (que mandou matar para encobrir o erro). Isso, sem
falarmos que quando já estava bem velhinho determinou que procurassem a donzela
mais bonita de todo reino para "aquecê-lo". Desses, o único momento que lhe
valeu uma dura repreensão foi no caso em que ele "pulou a cerca". Contrariando o
gosto dos moralistas religiosos, a Bíblia registra que Davi foi "O homem segundo
o coração de Deus" e afirma que Deus promete que seria de sua descendência que
viria o Messias (que para os Cristãos foi Jesus e que o judeus aguardam
ainda).
Todos esses costumes, leis e mandamentos tiveram sua utilidade e
produziram seu bem e seu mal em momentos determinadas da história. Mesmo nas
épocas que vigoraram foram contraditos e a aplicabilidade universal de seus
valores questionada. Exemplos disso sobejam na própria bíblia. Tantos os
profetas, como o próprio Cristo por diversas vezes desautorizaram a
aplicabilidade de conceitos tidos como sagrados (alias por isso o mataram).
Cristo ao ser questionado sobre a necessidade de se guardar o sábado, um dos
pilares do judaísmo, respondeu que "O SABADO FOI FEITO PARA O HOMEM E NÃO O
HOMEM PARA O SÁBADO".
Portanto, percorrer a Bíblia a busca de mandamentos
e leis acrescentando-lhes a chancela de VONTADE IMUTÁVEL DE DEUS é de um cinismo
absoluto uma vez que essa busca se faz de forma intencionalmente seletiva,
desprezando ou ignorando trechos que podem produzir constrangimento ou despertar
dúvidas (como os indicados acima). Estou convicto que a Bíblia, muito embora de
valor inestimável e fundamental para a fé cristã, não é o MANUAL DIVINO DA
VONTADE DE DEUS.
Normalmente nesse ponto os adeptos do dogma da
"inspiração divina das escrituras" encerram o diálogo. Sem essa segurança os
crédulos confessam-se ameaçados em suas convicções fundamentais e, não raro,
preferem a angustia da autonegação a romper com a segurança de velhas tradições.
E os pastores, padres, sacerdotes sem esse dogma igualam-se aos demais e perdem
o argumento que legitima a autoridade e domínio que exercem sobre os fieis (e
ninguém gosta disso).
Como então viver a fé sem o norte seguro do grande
manual divino? Sem ter claramente delimitado o que é certo e o que é errado?
Seria possível redescobrir a face de Deus para além da Bíblia, das leis e dogmas
nela contidos? Obviamente que sim. Mas esse é outro que tratarei em outra
ocasião.
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