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- Triste
Bofetada- 10 Anos sem Moacir
Moreno
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Alguns ingênuos se acham seguros dentro
do seu mundinho perfeito, para quem, só no jardim dos outros nascem ervas
daninhas. Há os que julgam e condenam: “morreu porque quis, foi se dar com quem
não prestava, comigo não seria assim!” os ditos perfeitos, que pensam estarem
livres da desgraça que apenas supõem bater em porta alheia. Como se o mal
tivesse a cara estampada e todos o conhecessem por antecipação. A coisa é
diferente.
- A encenação do mal tem requintes. Nos cerca e nos
espreita. Tem coisa pior para o mal do que ver gente feliz? Claro que Moacyr
Moreno seria a presa fácil. Era um dos que ousava. Arrancava risos efazia brotar
da letargia geral, a alegria sincera. E mais das vezes, sempre foi ele mesmo e
pronto! De irreal, só os seus personagens e no teatro, porque de resto, Moacyr
era a própria vida em pessoa.
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- As boas recordações de Moacyr não faltam. Para o
diretor Fernando Guerreiro da peça “Vixe
Maria – Deus e o Diabo na Bahia”, "Moacyr veio ao mundo para trazer
alegria, bom humor, diversão. O artista talentoso e criativo, escondia um ser
humano companheiro, as vezes tímido, mas nunca disposto a perder a piada. Sempre
procuro lembrar de tudo de agradável que vivemos juntos e do incrível legado que
ele deixou para a formação da identidade da comédia produzida na Bahia.
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O humor
de Moca era a tradução de nosso povo e com sua ausência a cultura baiana ficou
mais triste e mais silenciosa”. Mais artistas à época da morte do
ator se pronunciaram. Tipo a dor que sentiu Lelo Filho, com quem a vítima
ensaiava “As Noviças”, e até hoje um dos integrantes do elenco original de “A
Bofetada”: “a gente estava vivendo uns momentos legais na sala de
ensaio, eu não consigo imaginar o Moacyr numa coisa tão violenta”, "
esperamos que o processo continue e que os criminosos sejam punidos.
Acho que esses caras devem passar o resto da vida na cadeia. A gente vai ficar
em cima até que a justiça seja feita" e de Frank Menezes: “ele
foi a pessoa mais cheia de energia que conheci, eu não quero pensar no que
aconteceu”. “Não combina com o Moacyr” acrescentou o
ator Diogo Lopes.
O que fez surgir um claro manifesto de repúdio ao
violento crime pela classe artística à ponto de fazerem caminhada - com todos
vestidos de preto e portando cartazes de protesto - do Fórum ao Ministério
Público. No cabeçalho do abaixo-assinado produzido pelo sindicato de Artistas e
Técnicos em Espetáculos e Diversões – SATED, era clara a preocupação contra a
possibilidade de impunidade aos
algozes “para que a sociedade baiana tenha a consciência de que não pode
tolerar a execução sumária de um trabalhador sob qualquer razão”. Tanto
que foram solidárias, acertadas e bem vindas as palavras da teatróloga Aninha
Franco: “nós queremos garantir na justiça a mesma eficiência mostrada
pelas polícias civil e militar”. Estas eram todas ações afirmativas no
sentido da valorização da vida e da reivindicação da justiça neste triste
episódio.
Refrescando a memória e para que este crime não caia no esquecimento.
- O relatado
nos periódicos nos fala que Moacyr Moreno, que na verdade se
chamava Moacyr da Cruz Conceição, de 37 anos, foi morto na madrugada do domingo,
dia 02 de outubro de 1994, em seu ap. 304 do Edf. Francisco Gomes, na Barra.
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Primeiro, segundo a confissão dos assassinos
Paulo Sérgio Carvalho Moreira, 23 anos –
- o “Paulo Bomba” e Paulo Moreira Argolo,
28 anos – o “Paulo de Eloy”, eles
saíram de um pagode em Cosme de Farias e “combinaram de procurar um homossexual
para ganhar algum dinheiro”. Foi neste momento e á porta de uma boate na Carlos
Gomes que parou o carro de Moacyr Moreno – “Paulo Bomba” se dirigiu ao ator
fazendo um acerto e a vítima os convidou para a sua casa. O restante do relato
transcrevo na íntegra o que consta nos jornais Bahia Hoje e A Tarde: ... ao
chegar ao apartamento Moacyr os pediu que tomassem banho. No chuveiro, os dois
homicidas combinaram que iriam “fazer uma limpa” no apartamento.
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- O Ator abriu
uma champagne e enquanto isso Paulo Eloy foi até a cozinha e pegou uma faca tipo
serra e voltou ao quarto da vítima, onde iniciaram a orgia. Moacyr Moreno foi
amarrado com um lençol rasgado em tiras, sendo amordaçado, depois de perguntar
aos criminosos, o que eles queriam e passar a gritar por socorro. Em meio à
resistência, Moacyr foi esfaqueado no pescoço e como ainda dava sinais de vida,
foi finalmente sufocado com um travesseiro.
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- Enfim, toda uma rica existência e uma carreira
brilhante encerradas por um ato insano e brutal. Cena animalesca em que a presa
é escolhida porque “é frágil e na escala de valores dos criminosos não
representa nada – homossexuais? Quem liga se o matamos?”.
Moacyr sem a menor dúvida tinha muito carisma e
uma maneira bem particular de fazer rir. Parado, quieto e mudo já nos fazia
gargalhar. E com um simples olhar o reconhecíamos sublime no ato de representar.
O “Oxente” da personagem “Vânia Leão” de Moacyr era muito especial. Dava-se
gosto, sair do teatro e jocosamente repeti-lo aos amigos. Como também era
hilária a descoberta da primeira menstruação pela adolescente “Camila”
interpretada pelo ator.
- Triste bofetada.
Passados dez anos da execução do
Moreno um dos criminosos está à solta. Figura na lista de criminosos procurados
pela justiça no programa Linha Direta da Rede Globo [que fez um
histórico do crime, seguido da simulação do brutal assassinato por atores] num
episódio que foi ao ar no dia 20 de julho de
2000. Programa jornalístico que presta um grande serviço de utilidade pública ao
disponibilizar aos cidadãos a interatividade da denúncia. Portanto quem souber
do paradeiro de Paulo Sérgio Carvalho Moreira o “Paulo Bomba” entre no site do
progama Linha Direta e de forma anônima ajude a polícia a localizar o foragido.
Para que não caia no esquecimento esta página
triste da homofobia na Bahia, todo o relato do crime, circunstâncias e a morte
de Moacyr Moreno foram mostradas nos mais importantes jornais locais à época e
no período de 12 à 19/10/1994. E para o GGB – Grupo Gay da Bahia - no Brasil se
mata um homossexual a cada 48 horas e 2.218 foram os chacinados nos últimos
vinte anos. Dados superficiais porque nem todos os crimes contra homossexuais a
vítima é identificada como tal. Seguramente o número deste homocausto é bem
maior. Só no ano de 2002 foram 10 as vítimas baianas e em 2003 assassinaram 17
gays e lésbicas sem contar o mês de dezembro. Já agora em 2004 e até julho já
contávamos com 06 baianos cruelmente mortos vitimas do ódio e da aversão.
As pessoas só morrem de fato quando as
apagamos da mente. Moacyr Moreno foi a grande dose de otimismo que perdemos
muito cedo. Oxalá a capacidade de nos indignar diante do mal e do ódio que
executa inocentes, não nos abandone.
A mais triste bofetada será essa, a nossa
covardia e inércia diante das injustiças, sendo assim, não tem jeito, o mal
somos nós mesmos. Aplausos Moacyr. Brilhe e brilhe. Oxente -
como dizia a ferina Vânia Leão - não vamos nos esquecer de você! Esteja certo.
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