Observatório

 O Lolito
Lolito cruzou com Mário pela primeira vez dentro de um shopping. Um subia, o outro descia pelas escadas rolantes que uniam os dois pisos do templo de compras. Bastou um simples e rápido olhar, para que a centelha da paixão fizesse morada em ambos os corações.

Mário, 34, tentou apagar rapidamente a imagem do adolescente de sua mente. Mas algo dentro dele insistia em afirmar que aquele encontro aparentemente casual ainda não havia chegado ao fim.

Os dois acabaram se cruzando novamente, agora no interior de uma lanchonete badalada na praça de alimentação. Separados por apenas quatro mesas, a cada batatinha consumida a troca de olhares tornava-se cada vez mais intensa. Alguém tinha que tomar a iniciativa de um contato verbal. Lolito respirou fundo, se levantou, e segurando desajeitadamente sua bandeja, dirigiu-se até onde estava o seu objeto de desejo.

Após um sorriso e um forte aperto das mãos, a conversa engatou num bate-papo extremamente agradável e adulto. Mário ficou encantado com a maturidade de Lolito. Discutiram os mais diversos assuntos, passando pela política, pela cultura e até mesmo pela saúde do planeta, uma preocupação real de Lolito.

As horas voaram. Mário ainda tinha diversos compromissos de trabalho a cumprir e Lolito tinha que voltar para casa e terminar uma pesquisa para ser entregue na manhã seguinte, durante a aula de Química.

Mário ofereceu carona para Lolito, que aceitou prontamente. Dentro do carro, ainda no interior do estacionamento do shopping, Lolito tocou a coxa direita de Mário, apertando-a com delicadeza.

Durante uma curva um tanto fechada que dava acesso ao exterior do estacionamento, Lolito encostou seu corpo junto ao corpo de Mário. Este quase perdeu os sentidos e o carro passou a poucos centímetros do muro de proteção que separava a saída do estacionamento do mundo exterior.

Os dois não se falaram durante o trajeto. Apenas as mãos alucinadas de Lolito buscavam a textura da pele de Mário. Ao chegarem em frente ao prédio onde Lolito morava, Mário – ainda petrificado – se preparava para se despedir do novo amigo, quando o menino roubou-lhe um beijo de lábios fechados. Mário entrou em pânico. Despediram-se e cada um seguiu o seu caminho.

Os dias foram passando e todas as noites ambos trocavam mensagens por e-mail ou através de mensageiros instantâneos. Uma amizade bonita foi surgindo. Ambos discutiam muito sobre a possibilidade do início de um namoro, mas Mário mostrava-se apreensivo, com muito medo de ser acusado por algo que não fazia parte de sua natureza.

Combinaram de manter e aprimorar a amizade, deixando que a intimidade nascesse e crescesse de maneira natural e espontânea. Os dois se encontravam duas ou três vezes por semana. Faziam programas sociais, como ir ao cinema, pedalar no Ibirapuera, se divertir no HopiHari. Mário sentia-se adolescente novamente, tamanha era a energia que Lolito trocava com ele.

Tudo corria bem com a relação, até o dia em que Lolito passou a cobrar, indiretamente e sempre através de pequenos gestos, uma postura íntima de Mário.

Lolito implorava por um beijo. Um beijo completo, intenso, profundo. Mário não tinha forças para satisfazer o desejo do seu garoto. O máximo que conseguia, que se permitia, era uma troca rápida de toques de lábios fechados.

Mas a perseverança de Lolito acabou por minar as resistências de Mário. E após quatro meses de convivência, finalmente ambos entregaram seus corpos aos prazeres da carne e à comunhão do espírito.

Lolito perdera a virgindade com Mário. Conheceu toda forma de prazer através de um homem experiente, que soube proporcionar ao garoto momentos mágicos de intenso amor, carinho e respeito.

Lolito teve sorte de se entregar ao homem certo. Um homem que soube conduzir o ato supremo. E ambos sentiam-se felizes, realizados, abençoados por terem feito tudo com a pureza dos justos.

Mário passou por semanas terríveis de mea culpa, condenando-se por acreditar ter feito algo abominável. Mas foi a maturidade de Lolito que convenceu Mário a retirar essas acusações infundadas. Lolito teve muita paciência e precisou de horas de diálogo para afirmar que nada do que fizeram fora errado, pecaminoso, inaceitável. Lolito simplesmente se apaixonou por Mário e desejou fazer sua primeira vez com aquele homem, nada mais.

E os anos foram passando. O amor foi crescendo e se fortificando dia-após-dia. Hoje o casal pode se considerar privilegiado por ter superado todo tipo de preconceito e ter provado que o amor e o respeito que os une é mais forte do que todos os problemas que possam enfrentar.

Um homem que abusa, alicia ou aproveita sexualmente da inocência de uma criança é algo condenável e merece todo tipo de repressão das autoridades e da sociedade.

Mas um adolescente que alcança a maturidade para saber discernir o sexo do “fazer amor” (algo, convenhamos, raríssimo); apostar numa relação estável, honesta e sincera com um homem mais velho e conseguir viver plenamente essa relação é algo digno de admiração e respeito...

... é algo que nos faz refletir sobre o tema... e repensar nossos conceitos.

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