Crise existencial é quando todas aquelas perguntas que você sabe que não
têm a menor importância na sua vida se tornam definitivas e fundamentais para
cada um de seus próximos passos.
- Quem eu sou, pra que eu existo, existe um Deus, por que me danar pelos
outros...? São todas perguntas legais e interessantes... são a fonte de
milhares de horas de conversa... mas por um certo ponto de vista, são também
completamente irrelevantes ao dia-a-dia de cada um.
Para este dia-a-dia, talvez algumas respostas bem simples (não necessariamente
corretas) bastem: vivemos porque não estamos mortos, existimos para sobreviver,
Deus existe para que não tenhamos que pensar em como isso tudo surgiu e devemos
ser bons uns com os outros porque esta é uma regra social que, no limite,
garante um ciclo virtuoso.
Mas porque, então, entramos em crise existencial? Talvez porque nem sempre seja
um problema psicológico, talvez pelo vício de questionar e pensar, talvez por
falta do que fazer...
- Mas talvez ainda porque somos muito cobrados a agir "da forma
correta", um "correto" exógeno a nosso próprio eu, tão difícil
de definirmos. Na ânsia de entender essa "forma correta" e agir
dentro destes parâmetros... temos uma necessidade desenfreada de buscar o
conhecimento do sistema em que nos encontramos, para que possamos tomar
atitudes "acertadas" dentro desta realidade.
E é curioso que muitas vezes fugimos completamente desta "forma
correta", para não termos de nos enquadrar neste paradigma de mundo
imposto, mas sem querer caimos em uma outra espécie de crise existencial, por
abandonarmos o convívio social usual, quando então nosso "eu" passa a
gritar pela necessidade de vivência em grupo. Nisso, muitas vezes abandonamos
todo o senso de preservação apenas para nos enquadrarmos num grupo que não siga
os parâmetros normais "corretos".
A crise então passa a ser encontrar justificativas para não vivermos nos
padrões "normais". Como disse Renato Russo, "Era provar pra todo
o mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém"...
Isso porque a vida em sociedade é praticamente uma necessidade fundamental do
ser humano, uma grande e real necessidade. Alguns gostam de dizer que
"ninguém é uma ilha" e, apesar de não gostar da comparação, ela
expressa razoavelmente bem a natureza aparentemente social do ser humano. E uma
vida em sociedade tem inegáveis méritos... é evidente em tudo que a humanidade
é hoje, assim como é evidente na organização de um formigueiro ou uma colméia.
Entretanto as organizações humanas parecem ter um grau de complexidade para o
qual nós mesmos não temos competência de gerir, visto que a sociedade atual
está completamente desequilibrada e pressionando seus membros a um ponto quase
insuportável.
Temos freqüentemente colocado a culpa da queda da qualidade de vida na
alimentação, na falta de exercícios e tudo o mais. No entanto, o problema me
parece algo muito mais abrangente.
Hoje vivemos de uma forma artificial, não no sentido de "feito pelo
homem", mas no sentido de "não parece adequado que seja assim".
Trabalhamos quase o tempo todo em que não estamos dormindo, temos que inventar
formas mais rápidas de nos alimentar e a necessidade de dormir menos acaba
tirando o ânimo para qualquer exercício físico.
Com isso a alimentação é ruim - desde a má mastigação até o tipo de comida que
é possível ingerir em alguns poucos minutos. A falta de tempo para fazer coisas
prazerosas, bem como a falta de sono, geram ansiedade que diminuem nossa
produtividade (e portanto tendo que dormir ainda menos para produzir o mesmo).
Além disso, nosso sono fica ruim (ninguém dorme bem ansioso) e, em muitos
casos, ou passamos a comer demais num gesto compulsivo característico da
ansiedade, ou deixamos de comer por completo, num gesto depressivo... em
qualquer dos casos agravando ainda mais a situação.
Será que a culpa está de fato em comer demais e fazer exercício de menos, ou
isso é sintoma de uma doença chamada "exagero da cobrança do indivíduo na
sociedade"?
Eu fico sempre pensando: quando inventaram o regime de 8 horas de trabalho
diários, não imagino que as pessoas ficavam 3 horas por dia no trânsito. O
trabalho também não devia ser sentado e as pessoas não tinham que fazer 1 hora
de exercício fora do trabalho como hoje. Ninguém perdia 30 minutos do tempo de
almoço indo até o restaurante mais próximo. Na verdade, naquela época as
pessoas sequer deviam gastar 30 minutos no banho todos os dias.
O cansaço físico das pessoas devia ser grande e o mental menor. Apesar de
existir ansiedade (sempre existe) o sono do sujeito era quase garantido pelo
cansaço físico. Oito horas de sono? Sim. Oito horas. O sujeito acordava às
4:30, mas ia dormir às 20:30, depois de jantar... porque não havia luz nem TV.
Era o tempo de chegar em casa, fazer comida, dar um jeito na casa, conversar
com a pessoa amada dar carinho ao bichinho de estimação e ir dormir.
Não que a vida fosse "melhor" (na forma como aprendemos a valorar as
coisas), mas olhando as "horas que não se perdia" quando a jornada de
trabalho de 8 horas foi criada, é possível observar que trabalhando 8 horas e
dormindo 8 horas, o sujeito ainda tinha praticamente 8 horas, de fato, para
fazer suas coisas. Ou algo bem perto disso.
No nosso caso, se descontarmos as 3 horas de trânsito diárias (8-3 = 5), 1 hora
de exercício diário (5-1 = 4), 30 minutos do banho + 30 minutos do deslocamento
do almoço (4-1 = 3)... Vemos que o tempo que temos para lazer, cuidar da casa,
almoçar e jantar, ficar com o namorado, estudar para se aprimorar, etc... foi
reduzido de 8 horas para 3 horas, tudo isso em pouco mais de 100 anos.
Obviamente esta é uma análise mega-grosseira, mas termos apenas 3 horas para
realizar todas estas atividades é inviável. Resultado: como não podemos tirar
horas de trabalho, tiramos do sono e, ao invés de melhorar o quadro, pioramos.
E nesse ponto eu ainda não entrei na questão que, com o avanço dos meios de
produção, não existe mais trabalho para [(6.000.000.000 pessoas / 2
pessoas/pessoa_ativa) * 8 horas/dia] 24 bilhões de pessoas_ativas*hora/dia no
mundo. Por esse motivo, existem pessoas se matando de trabalhar (8 horas *ou
mais* por dia) e tendo todos os problemas que eu citei acima... enquanto outras
não possuem emprego e têm outros tipos de problemas - sub-nutrição, ansiedade
por não achar emprego, desespero por ver os filhos se marginalizando, etc.
Não sou sociólogo, mas acredito que o problema da saúde do ser humano atual é a
própria sociedade (ou o total descontrole em que ela caiu), cujas distorções
têm conseqüências horríveis na saúde de cada simples cidadão do mundo.
Até quando vamos tratar os sintomas, ao invés de tratar a doença?
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