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Se observamos atentamente, veremos como existe algo que está
por detrás de todas as nossas idéias, pensamentos e ações. Alguma coisa meio que
invisível, atravessando nossa concepção de homem, de mundo etc. Em nosso caso,
aqui veremos que lógica perpassa ou está subjacente à nossa maneira de amar.
Vivemos numa sociedade capitalista. Nesta, prevalece a
economia de mercado. Sem querer esgotar esta característica fundamental, podemos
considerar uma que é muito importante. Ou seja, no capitalismo, os produtos são
oferecidos ao consumidor no mercado. As prateleiras dos supermercados, as
vitrines maravilhosas dos shoppings expõem seus produtos com as mais variadas
decorações, luzes, cores, sons. Os consumidores usam como critério para escolher
determinados produtos o gostar ou o não gostar. Assim olham, gostam e compram.
Neste sentido, o que leva a comprar é se ele é bonito, confortável, etiquetado,
enfim, a aparência, a superfície do produto. O sujeito compra, é seu.
Podemos constatar esta lógica muito presente na nossa maneira
de amar. Hoje em dia, as pessoas estão extremamente preocupadas em se apresentar
para as outras como um produto possível de ser consumido. Isso explica a
preocupação exagerada com a questão da imagem, da aparência. Cada pessoa tem que
ter hoje um estilo, seguir um padrão de corpo, roupa, cabelo, hábitos, vícios.
Assim, no capitalismo é dado um valor exagerado à aparência (culto ao corpo) em
detrimento do que está no Interior do ser humano. Isso fica muito claro nos
barzinhos, boates, festas. As pessoas não se conhecem. O som alto impede uma
certa comunicação. Ocorre então um desfile não oficial em que os jovens
apresentam-se com a última moda, exibindo-se uns para os outros. Se olham, se
gostam e saem para a satisfação do próprio corpo. Lembramos que o critério de
escolha do parceiro é a aparência. Quando retornam para o ambiente, as pessoas
se separam com indiferença, como se nunca tivessem estado juntas. Vazio,
solidão, angústia.
Como ocorre no capitalismo, se você observar todas as
instruções do funcionamento da máquina, você obtém o produto desejado. Assim,
revistinhas, filmes, entre outros, ensinam a fazer amor instruindo os amantes,
dando a posição correta da perna, a maneira adequada de beijar, prometendo aos
leitores a satisfação desejada: um orgasmo mecânico, biológico, sem nenhum tipo
de cumplicidade entre os envolvidos na relação.
Então, podemos definir sem receio algum, que o amor no
capitalismo é objetal, manuseável, descartável. O outro, objeto do fazer amor, é
visto em partes: ouve-se dizer: "gosto da boca dela" ou "gosto da bundinha, das
pernas dele". Não se leva em conta que o outro é muito mias que um corpo, ou
melhor, é também um corpo, unido a sentimentos, pensamentos, a toda uma história
íntima de vida, cheia de vitórias, fracassos etc. Toda esta infinidade de coisas
no ser humano é também bela e dá prazer.
Pois bem, falar então do que seja amor não objetal é
desafiante. Mas, com muita coragem, vamos tentar. Compreendo que quando partimos
para conhecer o outro em profundidade significa a você mesmo. E tem mais:
conhecer e aceitar você do jeito que se é. Ou seja, amar-se. É impossível alguém
te amar se antes você não se ama.
Suponhamos que você esteja disposto a Isto. Ai fica tudo uma
beleza. É impressionante, mas, na medida em que você vai conhecendo o outro, ele
vai se abrindo para você e você também vai se abrindo para ele. Ocorre que você
percebe que o outro é infinito. A gente tem a sensação de que sempre conhecemos
pouco o outro e ele a gente. O amor é infinito. Assim, queremos mais e mais esse
conhecimento profundo, recíproco, mútuo. Sabemos nossas capacidades e limites.
Não há cobranças, ciúmes. Só tem liberdade, verdade. Amamos uma pessoa inteira.
Mas, não podemos esquecer o título deste texto: "Amor em tempos
de Aids". Aqui vou defender uma posição que tem sido polêmica. O número de
pessoas infectadas pelo vírus HIV tem aumentado consideravelmente. Ora, isto tem
ocorrido porque o tipo de amor que impera entre os jovens é o amor que chamo de
objetal - atravessado pela lógica capitalista. Observem bem: um jovem que
desconhece a beleza da profundidade do ser humano, que não tem compromisso com a
vida, que trata o outro como um objeto a ser manipulado a seu bel prazer, se
preocupa em se cuidar prevenindo sua vida e a dos outros? Uma pessoa que se ama
se cuida.
Quer a vida e não a morte. Conclusão: O problema da Aids é um problema
de amor próprio e em profundidade. Acho louvável as campanhas incentivando o uso
de preservativos, mas não é só isso. É necessário desmascarar esta lógica
alienante que atravessa as relações humanas fazendo-as superficiais e fúteis.
Fundamental é resgatar a solidariedade, a reciprocidade, a entrega sem medidas
ao outro, a fim de construirmos relações amorosas mais confiáveis, responsáveis
duradouras e belas em nosso meio.
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