- 30.março.2010
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Qual é o mais óbvio segredo dos relacionamentos? Sempre buscamos algo no
outro. Buscamos no outro algo que idealizamos: carinho, amor, companheirismo,
atenção, fidelidade, etc etc. Esperamos que o outro nos supra nossas
necessidades de afeto, nossas carências e faltas. Esperamos que o outro seja o
príncipe ou a princesa encantados, que não tem defeitos, que está sempre
disponível e que nos aceita incondicionalmente.
Se buscamos isso nas pessoas, jamais encontraremos alguém verdadeiramente
humana, de carne e osso, e defeitos. Se idealizamos a perfeição, precisamos
olhar com lucidez para nós mesmos e nos darmos conta de que somos sim
imperfeitos, e ser imperfeito é o melhor que podemos ser, pois é o que
somos.
Relacionamentos começam na grande empolgação do apaixonamento, em que mentes
e corpos estão conectados quase que numa mesma sintonia. Esperamos do outro o
complemento absoluto. Mesmos gostos, mesmos hábitos, mesmos valores, mesmo tudo.
O outro não é nosso igual. Ele não é nosso espelho narcísico. E, se acontece de
encontrarmos nossa alma gêmea, logo logo nos daremos conta de que o igual limita
e nunca é absoluto.
Quando estamos num relacionamento homossexual já temos uma semelhança dada a
priori – o mesmo sexo, o mesmo corpo e desejos que acreditamos ser os mesmos.
Entretanto, o outro é sempre outro. Não podemos transpor para ele nossos
próprios desejos e nossas formas de obter prazer. O outro não pensa igual a mim,
não tem as mesmas expectativas de relacionamento, e se comporta diferente de
mim.
Um relacionamento sem desestendimentos já traz um sinal de descompasso.
Alguém está se anulando, fazendo mais concessões que o outro, para não ferir a
imagem idealizada de relacionamento perfeito. Relacionamentos perfeitos não
existem! E o pior de tudo é quando não nos damos conta disso. Quando culpamos o
outro ou nos culpamos por as coisas não terem saído da forma como queríamos. Nos
frustramos por criarmos expectativas impossíveis de serem satisfeitas.
Nem todo gay é liberal. Nem todo gay é promíscuo. Nem todo gay é
independente. Nem toda lésbica é apaixonada. Nem toda lésbica é atenciosa. Nem
toda lésbica é ciumenta. Nem todo todo é sempre o mesmo. E o mesmo sempre é
diferente.
Precisamos aprender a perceber e valorizar a diferença, considerando-a não
como um obstáculo para a relação, mas como uma oportunidade para o crescimento.
Quem se apega sempre ao mesmo, vive num mundo restrito, cristalizado em torno de
uma idéia, uma idealização, uma abstração criada que não necessariamente tem
sustentação no real.
É importante também ter consciência de nossa imperfeição, não para nos
subestimarmos, nem para justificar nossos erros, mas para termos a medida sobre
o que podemos ou não oferecer ao outro, para que não esperemos do outro aquilo
que não podemos retribuir. As relações não necessariamente precisam ser de
trocas quase comerciais, num toma-lá-dá-cá em que sempre visamos um lucro, mas
sim numa relação de interdependência, uma relação intersubjetiva, uma relação
sempre ENTRE duas pessoas. Nesse entre as trocas favorecem o crescimento. E só
há troca onde há o diferente – necessidades, recursos, sentimentos, desejos
diferentes.
- A perfeição é o impossível. Aprender a confiar e valorizar o possível talvez
nos ajude a con-viver bem com o outro, VIVER COM. Essa é a essência de todo
relacionamento, o viver com… E só podemos viver com aquele que nos é real, em
seu possível, naquilo que ele realmente tem e pode nos dar de si. Senão,
estaremos sempre nos relacionando com um ideal inexistente, com um fantasma que
acreditamos ser o outro, com nossas expectativas e projeções. E, nesse estar
sempre guiado pela ideal, buscamos também, nós mesmos, sermos perfeitos e
ideais.
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- Luis
Fernando Calaça é Psicólogo, psicoterapeuta, professor substituto do curso de Psicologia da UFBa e
aluno especial de Filosofia Contemporânea (UFBa). Membro do UNISEX
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