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É comum ouvirmos a frase “eu não tenho preconceito”. Não se pode generalizar, mas muitas vezes a expressão serve de escudo para mostrar uma postura nem sempre verdadeira. Falar é fácil, o difícil é colocar na prática aquilo que julgamos pensar. Observe atentamente: as mesmas pessoas que se dizem sem preconceito torcem o nariz quando se deparam com outras de classe social diferente da sua; afirmam não ter nada contra, mas não pensam duas vezes em se referir ao outro como “veado”, além de ignorar negros, nordestinos e outras etnias que consideram menor. Sim, são pessoas que “não têm preconceito”, mas não suportam o diferente. Vivem numa bolha e acham que tudo se resume ao seu mundinho, geralmente coroado de padrões pautados pelo dinheiro, status e posições de poder. A verdade é que, por mais que a sociedade brasileira tenha evoluído nos últimos tempos, o preconceito ainda corrói as relações. Ele é velado, mas existe em todos os níveis, muitas vezes oriundo das próprias minorias que são suas vítimas.
Negros, pobres, homossexuais e deficientes são os que mais sofrem com “olhares tortos” de uma camada da população que se acha superior, quando na verdade vive imersa na hipocrisia com tantos ou mais problemas. Mas de onde surge o preconceito? Ele é somente fruto da educação ou tem a ver com tudo o que nos cerca desde que nascemos? Segundo a psicóloga Irene Correa Araújo, que trabalha com a linha cognitivo-comportamental, o preconceito, que como o próprio nome diz é um pré-conceito, uma idéia pré-concebida, pode surgir dentro de casa, seja por um aprendizado inadequado, que torna os filhos suscetíveis a influências, ou até mesmo por maus exemplos. Geralmente, dá-se muita importância às diferenças e pouca ênfase às semelhanças. “Com isso, perde-se a capacidade de aceitar naturalmente o outro como ele é ou está”, considera a psicóloga.
Fora de casa, no convívio social, o preconceito também é uma conduta discriminatória adotada para se obter aceitação. Quando falamos em preconceito, pensamos em aspectos como raça, credo, classe social e comportamento sexual, mas há os casos em que alguém pode disseminar um preconceito em relação a uma outra pessoa dentro de determinado grupo, apoiando-se em outros aspectos, reais ou não. Isso muitas vezes ocorre quando uma pessoa manipula outras, causando polêmicas ou escândalos que magoam e causam rupturas. Não se importa com o outro e muito menos com a dor que gerou, mas ainda assim, consciente da humilhação, se esconde por trás de uma postura de superioridade. Em vez de enfatizar as semelhanças, em todas as situações, prefere desqualificar o outro em nome de uma superioridade que não existe. São pessoas que desconhecem, no entanto, que o preconceito é um tipo de comportamento que não se baseia na realidade, mas em idéias generalizadas.
Homossexuais e negros na mira
Não se pode afirmar que grupo minoritácio é o mais discriminado, mas homossexuais e negros sofrem agressões mais visíveis, desde piadas a ações que chegam a parar na justiça. Embora ontem tenha sido comemorado o Dia Internacional contra a Discriminação Racial, o preconceito contra diferentes etnias, principalmente os negros continua. O negro, para provar seu valor, tem de esforçar mais que o dobro que o branco, assim como os homossexuais. O negro ainda é olhado de lado no transporte coletivo e tratado com maior agressividade em revistas feitas por autoridades. Em geral, a sociedade só não discrimina quem dessas minorias tem poder de consumo. Mas mesmo assim, há quem não se conforme com o sucesso de quem teria tudo para regredir diante da opressão, mas que acaba dando a volta por cima.
Uma pesquisa feita pela psicóloga carioca Adriana Nunan, que resultou no livro “Homossexualidade: Do Preconceito aos Padrões de Consumo”, aponta que o preconceito só é menor quando o gay tem dinheiro. Ou seja, contra ele, o preconceito é duplo: se é homossexual e não tem poder aquisitivo, maior será a exclusão. Outro ponto que demonstra o quão velado é o preconceito é quando uma pessoa diz: “nossa ele é tão bonito, inteligente e bem-sucedido e é homossexual”. Moral da história: a manifestação sexual exclui outras qualidades? Há pais que chegam a dizer que preferiam que seu filho engravidasse uma garota ou mesmo cederiam dinheiro para que ele gastasse com prostitutas a aceitá-lo como homossexual, uma manifestação da sexualidade que independe a opção, como muitos erroneamente alardeiam por aí.
Valor da educação Desde cedo, os pais podem evitar criar pessoas preconceituosas. Geralmente, as crianças imitam o comportamento dos adultos. Então, se o repertório dos pais é contaminado com preconceitos, as crianças terão essa referência. “O valor do respeito deve ser uma via de mão dupla. Ensinar às crianças a encontrar seu valor acreditando em si mesmas, acreditando que somos semelhantes com potencialidades e competência é condição essencial para combater o preconceito e a discriminação”..
Liberdade para escolher, não para humilhar O preconceito é um comportamento que pode passar de geração para geração, sem o menor discernimento, sempre como um julgamento prévio, rígido e negativo. A gente sempre acha que o outro é quem tem preconceito. Mas numa análise pessoal, será que todos nós sentimos algum grau de preconceito? A psicóloga Irene Araújo responde. “Sim, porque nem sempre estamos preparados para tudo. É preciso ficarmos atentos aos limites que temos e muitas vezes não percebemos claramente. É uma questão de responsabilidade consigo e com os outros”, diz. Somos livres para fazer escolhas e para aceitar as pessoas com as quais queremos conviver. Esse é um comportamento. Mas outra coisa é menosprezar e humilhar o outro. Isto é crueldade, falta de sensibilidade e respeito e faz parte de um repertório distorcido.
Segundo a psicóloga Irene Correa Araújo, o que determina que uma pessoa tenha mais ou menos preconceito que a outra é a intensidade com que ela recebeu influências. O preconceito só pode ser considerado uma autodefesa quando mantém a pessoa acuada em sua zona de segurança, o território dos valores distorcidos que adquiriu. Com relação ao preconceito observa-se também que, em geral, algumas pessoas que são vítimas do preconceito são elas próprias geradoras dele. Alguns acabam se comportando na defensiva, o que provoca ou reforça o preconceito das outras. Elas não percebem que agem assim porque a reação é mascarada pela defesa da auto-estima. É muito difícil perceber o preconceito encoberto dessa maneira.
Mas como uma vítima de preconceito deve lidar com a questão? Revidar, ignorar, fazer o quê? “A dor da humilhação provocada pelo preconceito é solitária e, ainda que seja verbalizada, nunca é expressa integralmente. A vítima do preconceito não deve se intimidar diante da discriminação, pois isso incentiva aqueles que apostam na impunidade”, diz Irene. Ignorar a situação nem sempre é a melhor saída pois pode reforçar esse comportamento. O que se pode fazer para enfrentar o preconceito? Existem leis severas que punem este crime. Denunciar é sempre importante.
- Contribuía para aprovação do PLC 122/2006 no Senado Federal
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A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros (ABGLT) iniciou uma
campanha para que gays, lésbicas e trans liguem no Alô Senado (0800 61 2211) e deixar recado na
Comissão de Direitos Humanos da casa pedindo a aprovação do Projeto de Lei
Complementar nº 122/2006. O Projeto criminaliza a homofobia no país, equiparando
atos homofóbicos aos atos racistas. A ABGLT sugere que após dizer o nome do
senador você repita essa mensagem. "Peço que vote contra o preconceito. Vote contra a
violência. Vote sim ao relatório da Senadora Fátima Cleide. Aprovar o PLC
122/2006 nesta comissão é simbolizar que o Senado é contra a violência cometida
contra todos os brasileiros e brasileiras GLBT". |