Observatório

Para que servem as Paradas do Orgulho Gay?
O direito de um começa onde o do outro termina.

De acordo com os meus conhecimentos a luta pelos direitos dos homossexuais se iniciou com o famoso incidente entre a polícia e os homossexuais no Stonewall Bar, na cidade de Nova York, no final dos anos 60. O local freqüentado por gays da região, era vítima de constantes batidas policias onde os homossexuais eram agredidos e humilhados. Após o
conflito, onde muitos gays e policiais sairam feridos, a luta pela causa homossexual
ganhou força em todo o mundo. Daí foi decidido que o dia 28 de Junho, dia deste incidente, seria lembrado como o dia em que os homossexuais levantaram a cabeça e a voz
para exigir os seus direitos e se fazerem visíveis aos olhos do mundo.

Muitas décadas se passaram e hoje todos os dias vemos nos jornais, na televisão, na
mídia em geral, que a luta homossexual continua e está cada vez mais forte. Em todo o
mundo grandes desfiles, chamados de paradas, em comemoração aos direitos e a liberdade dos homossexuais ganham mais destaque, apoio e adeptos. Seja homossexual ou heterosexual os participantes se fazem ouvir com faixas, músicas, efeitos visuais, carros alegóricos e com a presença de personalidades que nada têm a ver com a luta pelos direitos dos homossexuais em geral.

No mundo inteiro esses grandes "desfiles" são vistos com bons olhos por uns e com
desprezo por outros. Há países onde essas manisfestações são fruto de anos de luta e
da liberdade conquistada a sangue, suor e lágrimas. Nos países ditos civilizados, as
manifestações em prol dos direitos homossexuais são mais intensas e têm caráter
político. Mas mesmo assim em alguns desses países esse direito conquistado não é
posto em prática. Posso citar alguns exemplos como a Polônia, onde os homossexuais
continuam sendo tratados como cidadãos de segunda classe e onde recentemente a parada do orgulho gay foi proibida pelo prefeito de Varsóvia e pelo primeiro-ministro polonês. Na cidade de Riga, capital da Letônia, alguns homossexuais que organizavam a parada do orgulho gay foram agredidos por manifestantes contra a parada e por neo-nazis, que na ocasião atiraram fezes nos organizadores. Em Moscou, capital da Rússia, seguindo o mal exemplo de Riga teve a parada proibida pelo prefeito e grupos neo-nazis marcaram
presença agredindo alguns manifestantes.

No Brasil a febre das paradas se iniciou na cidade de São Paulo, e como tudo o que é
novo e vira moda em São Paulo, rapidamente se espalhou pelo país. No início as
manifestações tinham realmente um sentido de luta, mas com o passar do tempo passou a ter um caráter de festa, ainda que alguns inocentes vejam nessa fantástica
"demostração de liberdade", com números recordes de participantes, algum sentido
ideológico. Políticos, personalidades famosas, todos aqueles que querem aparecer e
demonstrar que são simpatizantes da luta dos homossexuais, pegam carona nos animados trios-elétricos com música eletrônica e enfeitados com drag queens e gogo boys, para fazer a sua promoção pessoal. Fora dali pouco lhes interessa a luta dos homossexuais.

Depois de serem fotografados para revistas e jornais nacionais e internacionais, é só
esperar chover convites para aparecer em programas na TV, onde debatem sem a mínima
idéia sobre os direitos dos homossexuais e outros assuntos. "Eu tenho vários amigos
gays. Eles são os meus melhores amigos!" - dizem algumas estúpidas, ou "Eu trabalho com gays, respeito muito eles. São pessoas como outra qualquer." - diz um estúpido que, se um gay lhe der uma cantada provavelmente sairá com um olho roxo.

Toda essa questão de ter ou não uma parada não vale de nada. Os direitos não se
conquistam com trios-elétricos, gente semi-nua, travestidos, malhados mostrando o corpo
artificialmente cultivado, personalidades estúpidas que não têm a mínima idéia do
que acontece ao seu redor ou do que seja a luta por um direito que é de todos, o direito
de existir. Todo esse carnaval não levará a lugar algum. Não sou contra as paradas,
sou contra a comercialização e a elitização de um movimento que tem um significado
importantíssimo, que é a luta dos homossexuais para serem respeitados, aceitos e vistos
como gente pela sociedade.

Não importa se participam 10 mil, 100 mil, 500 mil, 1 milhão, 2 milhões. As manifestações não terão nenhum valor se continuarem a ser vistas como um grande carnaval. Tem que ter alegria? Tem! Entusiasmo? Tem! Tem que ter garra? Tem! Mas acima de tudo tem que ter consciência. Uma manifestação do orgulho gay não é um carnaval.
 
Uma manifestação, seja do que for, é algo sério. É uma arma importantíssima e as
pessoas não se dão conta disso. Alguém já viu uma manifestação contra o racismo, o
terrorismo, a corrupção (se houve alguma), o desemprego, a liberdade de espressão, que
mais parece um desfile de escolas de samba ou um carnaval fora de época com cantores
famosos, atores e etc.? Sem falar na falta de respeito por parte das pessoas que não
estão a favor dos homossexuais e que por ignorância, que vem de família, atacam
física e verbalmente aos participantes.

Será que as paradas são realmente bem vistas? Será que as pessoas que assistem de
longe, as famílias que levam os seus filhos (ainda crianças) para ver uma parada do
orgulho gay realmente recebem e passam aos seus filhos ou aos outros a mesma mensagem que nós queremos passar? Será que os políticos, que querendo ou não são os que decidem (em parte) o nosso futuro, recebem essa mensagem? Será que eles levam a sério e acreditam realmente que estamos lutando por algo? Ou será que no fundo o que todos vêm é o que nós, quiçá sem perceber, realmente passamos? Ou seja, que uma parada do orgulho gay nada mais é do que um carnaval fora de época onde, segundo dizem, "as bichas, sapatões, travestis, rapazes semi-nus e gente famosa querendo aparecer", se
reunem para "fazer barulho" usando como bandeira uma causa importante que merece
atenção, respeito, apoio e o mesmo tratamento dado a qualquer outra.
 
*Colaborou nesta matéria
Lázaro Telles direto de Madrid

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