-
|
- Homofobia e o caso de Carapicuíba
-
|
- Janeiro
2009
-
Quem se lembra do caso sobre
assassinatos de homossexuais no Parque dos Paturis, em Carapicuíba, na Grande
São Paulo? A pergunta até pode parecer estranha visto o fato ser recente, mas
não soa muito mais estranho ninguém tocar no assunto?
- As mortes, que somam até as últimas estatísticas 13, vinham ocorrendo
desde o ano passado, mas só no final de 2008 começaram a ser investigadas,
devido a descoberta – tardia – de que mantinham características em comum. Também
demorou a repercussão desses acontecimentos na mídia, que por sua vez não soube
– ou talvez, pior, não quis dar - o devido tratamento ao caso.
- Alguns suspeitos foram levantados de ser o “maníaco do arco-íris”, como
foi denominado pela polícia o serial killer; um até foi preso, mas o episódio
não despertou a atenção nem os cuidados que merecia. Noticiado como um
acontecimento qualquer, não provocou atitudes indignadas, campanhas de
solidariedade nem espasmos de protesto. Também não mereceu entrar no rol de
discussões de programas pretensamente educativos. Nem motivou reflexões acerca
de homofobia e criminalização, coisas atualmente tão caras aos homossexuais em
sua luta contra o preconceito.
- Ora, as 13 mortes têm o mesmo grau de tragédia, de horror, de violência,
de parentes desolados e etc. em relação a outros episódios ocorridos no ano e
que sensibilizaram a chamada opinião pública, mas nem por isso se ouviu falar de
pessoas à porta da delegacia pedindo justiça nem ONGs de direitos humanos se
manifestaram. O governador de São Paulo, José Serra, até pediu eficiência na
apuração dos assassinatos, mas além disso não foi, e o delegado de Carapicuíba,
Paulo Fernando Fortunato, a cada cobrança feita, tenta explicar as dificuldades
do caso, afirmando que as investigações contarão com o fator sorte, pois não
houve testemunhas.
- Mas, para além de identificar o assassino, as 13 mortes fornecem indícios
para um outro tipo de reflexão. Reflexão que ninguém se aventurou a esboçar, é
bem verdade. Está faltando sensibilidade para perceber que neste país se morre,
entre outras coisas, por ser gay. As mortes em Carapicuíba são só um exemplo.
Imaginem quantas outras não acontecem sem sequer chegarem notícias às redações
de um jornal? Quantos travestis não são agredidos na calada da noite? Quantos
casais gays não são alvo de violência simplesmente por um beijo trocado?
- Analisar o caso por essa ótica, obviamente, é ainda mais difícil porque
além de tocar em pontos críticos numa sociedade que ainda não encara muito bem a
homossexualidade nos forçaria a perceber a quantas anda o nosso senso de
cidadania. Só espero que o caso não caia no esquecimento e possa ser lembrado
pelos parlamentares do Senado, quando forem chamados a opinar e votar sobre o
Projeto de Lei 122/06, que criminaliza a homofobia no país. O projeto foi
aprovado pela Câmara e agora se encontra no Congresso Nacional para votação.
-
- Fonte
Original: Jornal A Tarde
|
|
Comente
a matéria
|
|
|
ATENÇÃO: Seu comentário será moderado, desta
forma ele não será publicado até ser liberado pela nossa equipe. Toda e qualquer
mensagem publicada através do sistema de comentários não reflete a opinião deste
site ou de seus autores. As opiniões enviadas através deste sistema são de
exclusiva e integral responsabilidade dos visitantes que dele fizerem uso.
Comentários ofensivos e desnecessários não serão aprovados.
- Envie
esta página para alguém
-
|
|
|