Page copy protected against web site content infringement by Copyscape 
O Homoerótico é uma minoria
@Por Maria Eunice Torres
19.10.2009

Calma, meninos! Não é o que alguns poderiam entender. Minoria não é uma quantificação cognitivamente comparável, tampouco trata-se de uma dissidência identificatória, derivada de um “padrão” social, como entendem alguns ramos da psicologia e da sociologia. Minoria não é “menos”.

É certo que alguns grupos se comportam exatamente como grupelhos. A psicanálise chama a isso identificação com o agressor. Paulo Freire chama hospedar o opressor. Em nosso entendimento, a questão é mais complexa. Trata-se de estar emaranhado a um modo de subjetivação, no qual todos os signos de expressão coletiva estão amarrados semioticamente ao modo de produção do capitalismo. Daí uma improdutividade, uma ressonância, um voz esvaziada. Mais ou menos o mesmo que acontece com os grupos humorísticos de humores biliares: apenas repetem automaticamente os mesmos resíduos da sociedade do consumo, segregando e demarcando os estereótipos e reforçando a relação de identidade/dependência destes grupos que redundam na órbita do Significante Despótico.

É nessa pendência semiótica, nessa armadilha do modo de existir é que se encontra, em nosso entendimento, a questão da dificuldade em combater a homofobia, em todas as suas manifestações.

Por isso, é revelador o texto do jornalista Leandro Fortes, da revista Carta Capital, em seu blog, “Brasília, Eu Vi”, quando ele mostra que a discriminação contra o homoerótico é socialmente mais aceita do que a discriminação contra os negros. Fortes, a partir do que testemunhou no Maracanã, na semana passada, no jogo entre Flamengo e São Paulo, desenhou um panorama das relações de segregação na sociedade brasileira. Vale a pena ler.

Mas vale a pena mais ainda ler o que o texto diz, sem o dizer. Quando Fortes afirma que os homoeróticos são os novos negros, não significa dizer que lhe tomaram o lugar, simplesmente. A história, ou melhor, o momento histórico, é outro. Há que se compreender, por exemplo, que a segregação, no capitalismo de mercado, não se dá por simples exclusão, mas por uma inclusão esterilizante: “nós o queremos, mas apenas como consumidor”. Daí, por exemplo, a propaganda de produtos cosméticos ser voltada para a afirmação da identidade-mulher. Mas qual identidade? A mesma pergunta pode ser feita ao mercado gay friendly: para quem ele é feito?

A miséria social, a pobreza, a exclusão às benesses da sociedade de consumo, no entanto, são universalizantes: não discrimina e abraça a todos. A segregação na sociedade de consumo é muito mais sutil, e por isso muito mais perigosa. Se contra os negros, àquela época, usava-se o chicote, a teologia romana-paulina, a ciência e o senso comum para justificar o uso da mão-de-obra na modalidade de escravidão, hoje a subjetivação se dá de outros modos, não menos eficientes. Crenças, idéias, “verdades”, modos de expressão, de visibilidade, de status social e de estar no mundo são grilhões tão eficientes quanto o ferro. O quão agrilhoado está um homoerótico que deseja ardorosamente casar sob as bênçãos de um padre ou pastor? Submeter-se a uma ordem disciplinar que o considera fora dos parâmetros da normalidade? A uma ordem social que não garante (ao contrário) uma convivência livre e produtiva com o parceiro?

Da mesma maneira, combater a homofobia é trabalho para todos os campos do saber e do fazer. Mas principalmente no campo da produção intensiva de novos códigos sociais. Mudar a cultura, e não (somente) a lei. E para isso, é preciso se compreender as próprias demandas. Entender que o que oprime o homoerótico não se reduz à um cerceamento das produções estéticas/sexuais do corpo, mas envolve toda uma subjetividade, e que toca também ao negro, à mulher, à criança

Tudo o que é minoria, mas como produção distoante. Aquilo que produz numa disformância com o gabarito social. Que soa estranho e diferente. Outros prazeres, outros saberes, outros dizeres. Tornar-se mais leve, mais livre, mais efetivo e eficiente. Não alimentar a dor social, nem em si e nem no outro.

Aí sim, estaremos fazendo com que a expressão homoerótica (bem como a de todas as minorias) possam compor no plano da coletividade, como condições de existência dentro de uma sociedade plural e comunitária. Vamos nessa!

 
 
 
Envie esta página para alguém
Imprimir Página
 
 
 
Veja outros artigos do canal Observatório

Comente a matéria
SEu Nome  
Cidade / Estado  
Seu e-mail  
Comentário  
Digite o código  
 
 
ATENÇÃO:
Seu comentário será moderado, desta forma ele não será publicado até ser liberado pela nossa equipe. Toda e qualquer mensagem publicada através do sistema de comentários não reflete a opinião deste site ou de seus autores. As opiniões enviadas através deste sistema são de exclusiva e integral responsabilidade dos visitantes que dele fizerem uso. Comentários ofensivos e desnecessários não serão aprovados.
 


Anúncie | Fale conosco | Seja Parceiro | Política de Privacidade | Quem somos | Fale on-line
Farofa Digital 2002© Todos os direitos reservados