Deus opera com bisturi e não usa anestesia

Maio 2009
 
Aceitar. Pra uns é mais fácil aceitar que resistir. Pra outros, a resignação é mais difícil do que um dia de ressaca. Não sei. Eu sempre insisto na boemia dos sonhos, mas chega uma hora em que sonhar é a pior das cachaças. E das ressacas. É preciso por os pés no chão e ver a vida exatamente como ela é: um momento.
 
Adiar decisões, renunciar escolhas, fazer-se cegos, surdos e mudos quantas vezes for conveniente são atalhos fáceis até que ponto? Até que ponto ignorar os próprios conflitos é a solução para um encontro pessoal e intransferível: o seu com você mesmo?
 
Desculpem as filosofias. Até porque elas não servem pra absolutamente nada quando o assunto vida real deixa de ser um assunto e passa a ser só a verdade. Sem atalhos nem Sartres. Dor não tem a ver com papel, mas com pele ou alguma coisa parecida com alma. Não só a dor, mas todos os sentimentos que precisam ser escutados para serem realmente vivenciados. Então, meus amigos, a partir de hoje, ao se depararem com alguns destes constantes e às vezes inoportunos visitantes, não os ponham pra fora, mas os convidem a entrar. Vossa casa também é deles. Não se enganem. E cada vez em que são rejeitados em suas longas ou curtas temporadas, sempre voltam – travestidos com outros nomes que inventamos para esses velhos conhecidos.
 
Outro dia, no píer do Solar, enquanto tomava minha chuva sozinha e me perguntava o que eu tinha e pra onde iria, um segurança veio em minha direção pra dizer que Deus sempre opera em nossas vidas. Então, pensei que se Deus é o Senhor, o Senhor é o Pastor e nada me faltaria, ele já tinha começado a me curar de min mesma. E continuava com a ponta de suas luvas, operando em min - com bisturi e sem anestesia.
 
Eis o momento e a verdade de que sempre existe algo acontecendo. E já que a gente arranja tempo e maneira pra tudo, menos para lidar com quem realmente somos ou gostaríamos de ser, fica mais uma dica: esqueçam o tempo. Pelo menos esse que está sempre nos incitando a olhar pra trás ou pra algo que não temos olhos de ver. Se tirarmos do “jogo” o que não podemos mais mudar (o passado), nem sermos obsessivamente ansiosos em relação ao que pode vir a acontecer ou não (o futuro), nos sobra a única coisa que realmente temos e que Deus – por gentileza ou extremo senso de humor – chamou de PRESENTE. Abram os seus.
 
* Flávia Figueirêdo é escritora, produtora de Rádio e TV, formada em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb).
flaviaxiv@gmail.com
 

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