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Um amigo chamou-me a atenção para um fato: afinal, nós nos
comportamos ou não como os heterossexuais no quesito crueldade?
A luta ferrenha para a sobrevivência, as guerras e a globalização,
a miséria, fome e as questões econômicas e sociais graves levaram o mundo a um
estado constante de violência. Mas não é bem dessa violência que eu falo. Falo
da outra, interna, nossa, mais cotidiana. Como tem sido o seu dia-a-dia?
Na ânsia de penetrarmos de vez na sociedade heterossexista que aí
está e deixarmos de lado as décadas de marginalidade que cerca a
homossexualidade, penso que estamos também – e infelizmente –”comprando”
comportamentos da cultura heterossexual que na verdade não queremos ter. Ou deveríamos
não querer... Vamos ingressar nessa sociedade, mas não importa a que preço.
Vamos então, juntos, a uma boate gay. Qualquer uma. Música, muito
dance e muito drink, olhadas e paqueras que tanto bem fazem ao nosso ego. Mas,
infelizmente, não é apenas isso o que acontece. Começando que, se você não usa
o uniforme oficial, ou seja, roupas de grife e da moda, já pode ser considerado
uma carta fora do baralho e não será considerado como um colega ou um eventual
parceiro.
Passada essa fase, vamos à seguinte: você é forte, malhado, “sarado”?
O termo “sarado” já é carregado de preconceitos e significados, afinal passa a
idéia que todo o corpo que não for malhado seria o quê? Doente? Doente é o
antônimo de sarado... Ou seja, a nossa aquisição da sociedade heterossexual
começa já aí, na ditadura da estética e da juventude eterna. Tem coisa mais
cruel que isso? Cruel principalmente por ser uma mentira, uma mentira tão
cultivada, cultivada com tanto afinco. Mais dia ou menos dia, todos iremos
envelhecer. Portanto, como podemos cobrar do outro um fato que é natural, que
não dá para ir contra? Alguém mais velho pode ser considerado inferior? Mas
você é jovem, ainda não chegou aos 28, faz diariamente três horas de academia e
escapou de mais essa. Esteja, então, preparado para a próxima fase - uma das
mais doloridas: você é afeminado? O mais correto seria perguntar: você é MAIS
afeminado que eu? Se for, tô fora... Pois é, julgamos o nosso próximo pela
carga de feminilidade que ele carrega.
Num mundo que valoriza o homem, o macho,
a masculinidade, a virilidade, o tamanho do pênis, ser ou não feminino deixa de
ser apenas um jeito de alguém para ser uma qualidade – ou melhor, um defeito –
desse alguém. Ok, você é viril. Ou até sabe disfarçar a sua feminilidade e
deixá-la vir à tona apenas na solidão do seu quarto. Portanto, livrou a cara
nessa também.
Aí, a música aumenta e começam os shows da noite. Vem a drag da moda, no palco, sempre muito
aplaudida. Ela está atenta na platéia, procurando uma ou várias vítimas. E vai encontrar:
quanto mais frágil, mais inocente ou mais simples, mais tímido for esse menino,
mais útil ele será às crueldades que a artista irá aplicar: humilhações,
gozações várias, exposição pública de possíveis defeitos e etc. etc. etc.
Quanto mais sarcástica e cruel essa drag
for, mais aplaudida será, afinal a vítima é o outro e não eu.
Como não sou eu, não sinto na minha pele o que fazem com ele. Não
me identifico com ele. Até acho legal que existam sempre as vítimas e os
carrascos, desde que eu nunca seja a vítima... E como eu quero desesperadamente
fazer parte daquele grupo, eu aplaudo também. Esse é o nosso show, o show visto
nas boates gays.
Em que diferimos dos nazistas, quando eles pegavam qualquer
judeu para humilhar publicamente? Afinal, não sou judeu... Lembrei-me até de
uma triste e viperina figura que fazia show na boate Nostro Mundo, nos anos 90,
que sempre tinha as piores e mais violentas piadas feitas em cima de
soropositivos e da Aids. Outra drag,
muito famosa até hoje, costuma pegar um espectador da platéia e elogiar muito a
sua bunda. Quando o coitado está bem envaidecido ela ataca: “pena que esteja
toda cagada!!” E o seu público delira.
Por falar em soropositivos, percebam
como eles ficam se comparando nas salas de espera dos Centros de Referência.
Algo como: “ainda bem que não estou como aquele” ,”estou melhor que aquele
outro” , “nossa, como ele está magro!” “ ... não tem grana para o
Metacrilato??” ... Isso não seria crueldade também?
Sempre vi a homossexualidade como algo
fortemente transgressor e revolucionário. Penso que a força demolidora do nosso
sexo e amor seria capaz de criar uma nova sociedade, muito diferente dos
parâmetros da atual. Por isso que me sinto tão desiludido quando vejo gays
reproduzindo papéis e comportamentos tão negativos e que machucam tanto.
- E
mais, nessa reprodução há uma armadilha. Uma cilada que irá cobrar um alto
preço, mais tarde, quando não existir nem tempo mais para o arrependimento.
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- A
sociedade que aí está foi construída por heterossexuais, segundo os valores
deles, (somos minoria, alguns falam em 10% da população, outros menos. Mesmo
que eu considere a visão maior/menor preconceituosa e reducionista, tenho a
certeza que esta sociedade não é feita para os menores) valores esses que não
precisaríamos comprar: o machismo exacerbado antes de tudo, o futebol em
detrimento da arte e da cultura, o Ter antes do Ser, o culto das aparências,
vivemos em nome de uma imagem a tal ponto que nem sabemos mais quem somos, no final das
contas. A sede pelo dinheiro, a banalidade sexual.
- Vejo cotidianamente gays se entregando para uma autêntica miséria
sexual, outra forma de crueldade, consigo e com outros: pegação em banheiros
públicos, cinemões, shoppings, parques etc. E ponto. Se contentam com isso. Eu
costumava pichar portas de banheirões com a seguinte frase: “Não façam apenas
pegação. Façam também a Revolução!”. Nada contra pegação generalizada. Mas acho
pouco. Muito pouco. Nada contra a pegação, mas também nada contra o amor e a
revolução. Nada contra usar o soberbo poder do sexo para mudar o mundo. Nada
contra os que procuram entrega nas suas relações e nos sentimentos. Não usar de
toda a nossa força também é cruel. Boicotes e auto-boicotes, idem.
Negar o amor é cruel.
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Mensagens
dos Internautas
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- Anderson
- São Paulo-SP
- Apenas terminada a leitura, veio-me em mente aquela declaraçao de Caetano, feita no TUCA em 1968. Tomo a liberdade de reproduzir um trecho: "Vocês estão por fora! Vocês não dão pra entender. Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? Vocês jamais conterão ninguém. Vocês são iguais sabem a quem? São iguais sabem a quem? (...) Àqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada. E por falar nisso, viva Cacilda Becker!" Acho que sou um romantico ingenuo; sonho com um dia em que a solidariedade serah capaz de represar em nos nossa pulsao de crueldade. Ateh lah, serah preciso dizer ainda de tanta coisa que nao funciona! Como fizera o Ricardo Agueiras. Parabens! Belo texto!
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- Eddie
Savatt - Salvador-BA
- Infelizmente
ou felismente “gay” valoriza o que
é belo, luxo e tudo que é referência
destes valores, bem isto não é algo
que nasceu ontem, e provavelmente
não acabará amanhã, já que as tribos
estão tomando focos e grupos dentro
do próprio grupo. Mais ser malhado
ou sarado e poder ostentar uma cueca
de marca ou uma tatoo é apenas mais
um perfil isto não é pecado!é mais
uma ref do século XXI. Quanto a
forma de se postar (afeminado ou
menos) depende de vários fatores;
dês de gen. , criação e ater posição
social. Tem gente que gosta e tem
gente que não, mais a coisa rola
mais em torno do tesão mesmo...
Niguem é obrigado a dormir com uma
“leide” simplesmente pelo fato de
ser um homossexual se não desperta
nada pelos afeminados. Sou a favor
dos grupos e das tripos...mais tem
para todo mundo!!! E todos vão passando
por elas barbys, leides, ursos...
não pode esquecer que todos levam
uma sigla GLBT e uma bandeira colorida
que nos une a uma só causa. rsrsrsrs
abração. Ta show a matéria. apenas
meu ponto de vista!
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- Neto
Oliveira - Salvador-BA
- Tudo isso é a mais pura realidade do mundo gay,quem vive nele sabe. Esse texto
é o que muita gente precisa ler e refletir, Parabéns!
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- Tiago Freitas -
Salvador-BA
- Que lindo o texto. Concordo contigo. Eu só teria uma coisa a acrescentar.
Acredito que a repressão social durante a infância e adolescência do gay
provoca-lhe impactos bem negativos, complexos e similares. Acredito que em
algumas pessoas este tipo de repressão possa provocar perfis eivados de
crueldade, inveja e desvios de caráter. Não se trata de um costume geral, como
os que você expôs, e sim de uma linha específica. Espero não cruzar novamente
com esta sorte de indivíduos, pois os conheço bem de perto. Parabéns pelo texto.
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- Joana
Simões - Salvador-BA
- Texto
prefeito, atualissímo e verdadeiro.
- Seria
ótimo que pudessemos começar a concertar,
rever nossos conceitos e melhorarmos
como seres humanos á partir daqui.
- Parabéns
ao autor e ao Farofa Digital por
disponibilizar para todos nós, uma
jóia rara como esta.
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- Edilton
Almeida - Conceição do Coité-BA
- Esta
é uma visão realista do que realmente
somos. Capazes de absorver a crueldade
para afirmar alguma coisa.
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- Salomão
Bispo - Teixeira de Freitas-BA
- Digo
que esta sessão OBSERVATÓRIO, do
Farofa Digital, possui o melhor
conteúdo da Internet com textos
reais, atuais e com um certo aprofundamento
temático e rico no assunto. Parabéns
ao Ricardo.
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- Lisandra
Teixeira - São Paulo-SP
- O
portal bem que poderia deixar as
páginas sem bloqueio de cópia para
que pudessemos copiar matérias como
esta, tão importante de ser enviada
de pessoa para pessoa. De grande
importância este texto.
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