Era uma vez uma biba carente. Dona Biba estava em
casa, numa tarde chuvosa de sábado. Triste e solitária, ela estava a horas
navegando pela internet, procurando alguém para apaziguar seus sofrimentos. Nas
salas de bate papo, ela se apresentava com o nick sugestivo de
"rapaz_carente_procura_namorado". A cada pretendente que se oferecia
para consolar dona Biba, as inevitáveis perguntas pipocavam na tela: "Você tem
local? Você é ativo ou passivo? Como você é? Que tamanho tem a sua benga? O que
você curte com outro homem?" e por aí vai. Dona Biba respondia a todos com
extrema paciência, tentando, em vão, explicar aos candidatos que tudo o que ela
desejava naquele momento era um ombro onde pudesse apoiar sua cabeça confusa, e
derramar algumas lágrimas de tristeza enquanto seu salvador a cobriria de
abraços e beijos carinhosos.
O tempo foi passando. A noite chegou, triunfante,
convidando dona Biba a se jogar no interior das boates da vida. A dona Esperança
apareceu, de mansinho, e soprou em seu ouvido direito uma doce mensagem,
afirmando que naquela noite, dona Biba iria encontrar um bofe maravilhoso nas
pistas de dança. E a madrugada seria recompensada com algumas horas de carinho e
sexo até o raiar do dia.
Dona Biba, empolgada, caprichou na produção, ligou
para as amigas e se jogou na noite, à procura da cura para todos os males que
afligiam seu coração cansado.
No interior da boate escolhida aleatóriamente, o
tempo continuou passando. A música bate-estaca martelava os poucos neurônios
sóbrios que ainda restavam na cabecinha avoada de dona Biba. A madrugada chegou,
triunfante, e no lugar do bofe prometido pela dona Esperança, quem surgiu para
acabar com a festa foi a dona Carência, imponente com seu corpo de curvas
generosas coberto por um tubinho Armani, preto.
Dona Carência sentou-se ao lado de dona Biba. Rindo
alto, enquanto sorvia um martini, a velha senhora olhava sua vítima e seu olhar
cinza indicava para dona Biba que, mais uma vez, ela permaneceria perdida no
meio de suas mazelas. Aquela noite não seria preenchida por momentos de alegria,
prazer e satisfação ao lado de um bofe gostoso. Dona Biba permaneceria sozinha,
como sempre.
Ela voltou para casa arrasada. Emborcou setenta
garrafinhas de Smirnof Ice, uma atrás da outra, sem parar. Lá pelas tantas,
resolvera tocar em alto e bom som o Best of do Abba. Fez sua festa
particular até o astro rei mostrar seus primeiros raios de energia
fulgurante.
O domingo passou. Veio a odiosa segunda-feira. Duda
estava estacionada em frente à casa de dona Biba, sua amiga inseparável. Buzina,
buzina e nada da outra aparecer. Duda sai do carro, esbaforida, e começa a bater
na porta delicadamente, para não estragar as unhas recém manicuradas.
Os tapas delicados se transformam em murros
desesperados. Nervosa, Duda recupera seus instintos masculinos e utilizando-se
da sua porção homem, põe a porta abaixo. Ao entrar na sala que recendia a
álcool, ela vê a amiga jogada no tapete, ao lado do sofá de couro branco.
Tapinhas histéricos no rosto de dona Biba a fazem recuperar os sentidos. Ela
chora, diz que se sente derrotada, e em prantos desaba sobre o corpo da amiga
Duda, que decide levar dona Biba a um hospital para curar-se da overdose de
vodca ice.
Todo mundo está à procura de todo mundo. Todos nós
nos sentimos carentes muitas vezes e achamos que somente uma companhia especial
tem o poder de suprir os nossos desejos de afeto, atenção e carinho.
É claro que é essencial, nos momentos difíceis, ter
o apoio de um ombro amigo, um abraço apertado e palavras de conforto naquelas
horas em que achamos que estamos prestes a desabar diante das pressões do
mundo.
O problema maior é que costumamos confundir tudo
quando estamos abalados emocionalmente. Queremos não só acabar com a nossa
carência, mas desejamos também uma boa transa e, de preferência, um amor eterno
e perfeito incluído no pacote.
Resumindo: queremos que os outros resolvam os
nossos problemas e não fazemos nada, absolutamente nada para descobrir as causas
da solidão e da carência para finalmente darmos a volta por cima. Gostamos de
atuar no eterno papel de vítimas.
Não é fácil, eu sei, mas acredite: se você está
carente, pode ter certeza de que a culpa é somente sua! Ao invés de ficar ai se
lamentando, que tal utilizar seus dons naturais e sua experiência de vida para
ajudar quem realmente precisa e se encontra em pior estado que o seu?
Você poderia, por exemplo, se candidatar como
voluntário em alguma instituição filantrópica decente. Ajude. Faça alguma coisa
que você gosta e faz bem feito, e ensine, passe o teu conhecimento para os menos
afortunados. Dê um curso de alguma coisa para pessoas carentes; pinte a fachada
de um colégio, visite um parente distante que não recebe notícias tuas há
séculos; organize uma equipe de moradores do teu bairro ou mesmo seus amigos
inseparáveis e procurem um meio de ser úteis à sociedade.
Você vai poder conferir, ao vivo, o quanto muito da
tua dor não era pura "viadice". Você vai voltar para casa muito mais leve e mais
feliz. E daí sim, quando você estiver novamente 100%, você finalmente estará
preparado para dividir uma vida com alguém e, certamente, quando você menos
esperar, "ele" vai pintar, um sorriso vai unir vocês dois, uma amizade sincera
vai surgir, as afinidades vão se entrelaçar.
E, para o tão sonhado surgimento do amor... é só um
pulinho. Acredite!
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