-
|
|
Bissexualidade ou a terceira margem do rio?
|
- Setembro
2008
-
Para mim é inevitável pensar a bissexualidade sem recordar de um conto de João
Guimarães Rosa, chamado “A terceira margem do rio”, que traz a história de dois
personagens, pai e filho, que lançam-se em uma canoa no rio, habitando até o fim
a margem terceira, o entre-lugar, a superfície líquida das águas, a passagem.
Tomo de empréstimo esta metáfora porque penso que ela cabe como representação e,
longe de comportar uma definição, uma resolução ou o que seja acerca da
bissexualidade, penso que talvez a terceira margem seja a forma menos cartesiana
de se relacionar com a bissexualidade e que esteja em maior sincronia com a
própria existência, que abarca inclusive a vivência da sexualidade em suas
diversas possibilidades.
-
- Pensar a vivência da sexualidade já é um processo complexo e
pensar a bissexualidade não deixa de ser menos ou talvez até mais complexo,
posto que aos poucos entre dois espaços que se destacavam, ou seja, entre
homossexuais e heterossexuais, um espaço que não digo novo, mas silenciado, se
abre e com ele as discussões. Os posicionamentos em relação à bissexualidade são
múltiplos e englobam desde a rejeição à aceitação como uma possibilidade de
vivência, que se caracteriza primordialmente pela não ocupação de um lugar
definido. Apesar de todas as discussões que circulam acerca da pluralidade de
identidades que um indivíduo carrega, sempre parece cair na mesma questão de que
para ser algo, para partilhar de uma identidade, necessariamente tenha que
excluir a outra, que porventura também faça parte da construção do mesmo
indivíduo. Talvez uma das maiores problemáticas acerca da bissexualidade seja
justamente a de que a sociedade o tempo todo necessita de uma organização
didática para as questões que circulam dentro da mesma, inclusive em relação à
sexualidade. Para fins didáticos, a orientação sexual de um indivíduo deveria
então encontrar-se posicionada ou na homossexualidade ou na heterossexualidade.
O que fazer então diante da bissexualidade? O que seria esta vivência?
- A reação diante da bissexualidade, como citei anteriormente,
não parte somente dos heterossexuais como também dos homossexuais, que muitas
vezes encaram a mesma como uma aparente ausência de posicionamento em relação à
homossexualidade. Em um contexto, em que a luta por espaço, voz e principalmente
por direitos se revela cada vez mais presente, a bissexualidade acaba sendo
interpretada como uma posição de conforto por muitos, como a saída em viver a
homossexualidade e manter-se inserido naquilo que é considerado como
“socialmente aceitável”. Termos como “vida dupla” frequentemente aparecem nas
discussões que rodeiam o cotidiano dos bissexuais. Ser bissexual carrega, dentre
muitas rotulagens, o estigma de uma vida “em cima do muro”, “às escuras” ou até
mesmo um certo oportunismo.
-
- Diante das inúmeras reações à bissexualidade, questiono-me se a
sexualidade é apenas algo a ser tratado como uma simples questão de
posicionamento. A sexualidade é atravessada pela cultura e aquilo que entendemos
como sexualidade não é vivenciada sem a interferência da mesma. O que entendemos
como sexualidade nos chega através da linguagem, da relação com o outro, da
arte, do corpo. A sexualidade é um conjunto de pontos que se tocam, se cruzam,
se atravessam, se misturam. Como então questionar os limites de algo que é
totalmente atravessado por questões que estão constantemente em movimento? Se a
própria sexualidade é vivenciada em sua dinâmica de fatores que se misturam,
sendo ela distinta para cada indivíduo e sendo ela mais abrangente, como reduzir
à bissexualidade à ausência de uma posição, teoricamente a ser tomada? A
sexualidade é dinâmica, mutável e acredito que tudo que a ela esteja relacionado
também siga este fluxo.
- Ao iniciar o presente artigo, falei brevemente sobre o conto de
Guimarães Rosa, “A terceira margem do rio”. Viver a terceira margem do rio é
viver a consciência da transitoriedade de uma forma positiva, pois este é o
princípio básico da vida. A margem fixa nega o princípio da vida, pois é fixa,
não muda, não movimenta-se. A terceira margem é justamente a vivência, a
consciência de que nada é imutável, pois somos atravessados pelo tempo. Acredito
que a bissexualidade seja a terceira margem do rio, como a homossexualidade e a
heterossexualidade. Tudo está relacionado à sexualidade, faz parte dela,
atravessa, modifica. Entender que não se trata de uma questão de posicionamento,
mas sim da própria condição da vida humaniza a questão e a afasta da mira de um
radicalismo pueril. Acredito que toda e qualquer expressão da sexualidade é
possível porque a sexualidade é múltipla e o ser humano, palco desta vivência,
está constantemente em mudança, exposto a experiências distintas, a contatos
distintos. Engessar a sexualidade em categorias didáticas é negar, reiterando, à
própria dinamicidade da vida, que nunca se apresenta de uma forma só, em um
ângulo somente, em um momento apenas. E, como foi dito anteriormente, já que a
bissexualidade, homossexualidade, heterossexualidade compõem o mesmo todo e se
atravessam, deveriam também ser entendidas e vivenciadas como uma margem não
fixa, que atende ao movimento do tempo, das mudanças, das experiências e que nem por isso deixa de ser possível para aqueles
que transitam por ela.
-
- Fonte
original: Núcleo Unisex
|
Mensagem
dos Internautas
|
- Manoela
- Salvador - BA
- É engraçado ver algumas pessoas lutando por espaço e respeito (os homossexuais)
e, ao mesmo tempo, rechaçando a diversidade de possibilidades de amar
(representada inclusive pela bissexualidade). Não bastasse a sociedade - em sua
grande parte, de mentalidade medieval (que, ousa instituir a relação
homem-mulher como padrão de "normalidade"), ainda temos tristes cisões,
intransigência que institui que amar está circunscrito a rótulos - isso e aquilo
pode, aquilo outro é confortável posição de quem resolveu "ficar em cima do
muro". Isso tudo porque as pessoas standardizadas, elas próprias auto-rotuladas,
resolveram levantar uma barricada e, claro, quem ficar no meio, na terceira
margem, leva chumbo.
|
|
|
Comente
a matéria - Os
e-mails não serão divulgados, para segurança dos nossos
Internautas.
|
|
|
- Envie
esta página para alguém
-
|
|
|