Como vivo e acompanho a cultura
eletrônica desde a década de 80, agora, no século XXI, posso dizer que a cena
eletrônica brasileira está, finalmente, desabrochando.
Vários dados que
sustentam isso estão aí, cada vez mais visíveis: Surgem bons produtores,
mostrando que o mundo pode consumir musica eletrônica nacional, e que
brasileiros podem estourar lá fora, como se via nos anos 60; Não endeusamos mais
o que vem de fora como antes; Cada vez mais os dj's e artistas buscam seu
próprio caminho, e usamos nossa atualização de mundo para construir nossa
própria cena, nossas proprias musicas; De um lado, cada vez mais aprendemos e
temos acesso à tecnologia barata (e tecnicamente estamos alcançando as mesmas
possibilidades tecnológicas de qualquer lugar do mundo), e de outro, cada vez
mais percebemos que, em criatividade, não devemos nada ao mundo; Cada vez temos
menos preconceito em relação aos "santos de casa" e cada vez mais reconhecemos o
valor da cultura que está debaixo dos nossos narizes, e que a geração anterior à
nossa insistia em desprezar.
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- Tenho notado menos glamourização e deslumbre ao que
vem de fora e mais curtição, sincera e espontânea, ao que é produzido e criado
aqui. Precisamos mesmo ser os primeiros a valorizar o que é nosso, pra
fortalecer ainda mais nossa arte, valorizar ainda mais nossa
cultura.
Vejo tudo isso com ânimo e esperança, de ver o Brasil cada vez
mais como formador de opiniões, e cada vez menos como um arremedo de culturas
longínqüas (tanto geograficamente como culturalmente).
Hoje em dia o
mundo valoriza muito a musica brasileira, e a nossa influência está por toda
parte. A bossa, tão rica e fina, o samba, tão genuíno e visceral, e vários
outros estilos que surgem em profusão (ou que são resgatados da nossa rica
história musical) mostram que o brasileiro não se resume a um ou outro
estereótipo, mas está sempre experimentando musicalmente, ousando, "mixando",
usando influências externas pra enriquecer sua própria cultura, com alegria de
viver e muito ritmo no sangue. O estilo hedonista e descontraído do brasileiro,
a riqueza de influências e misturas só vistos aqui são adorados, imitados,
cultuados mundo afora.
Podemos estar no começo dessa estrada, mas gosto
de pensar que em breve sejam cada vez mais raras cenas de gringos estranharem e
rirem da gente tentando mimetizá-los; que em breve nao precisemos mais dar
dinheiro ao resto do mundo para ter a nossa música preferida; que em breve
exportemos muito mais cultura. Sem medo de soar ufanista, acho que nós
merecemos.
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