- Em Salvador, ser Dj ficou parecido com gremilins,
está se multiplicando o número de novas estrelas das pick’ups, mais se
prolifera também o número de rapazes ainda pouco experientes na técnica de remixagem
e mesmo assim arriscam tocar em festinhas, o que não
consideramos nem mais e nem menos dos demais profissionais que estão na área há
mais tempo.
-
- Mais o que é preciso para que estes meninos apaixonados pela
profissão de ser Dj e que estão arriscando as suas cabeças e mostrando suas
caras não temendo a variados tipos de
criticas e opiniões severas das grandes estrelas baianas e dos formadores de
opinião da cidade?
-
- O FD foi buscar a resposta através de um e-mail enviado como
forma de protesto em meio a um amaranhado de situações que envolvem conceitos,
estilos e postura das novas figurinhas que estão invadindo a área.
-
- Conservamos todo o conteúdo do e-mail enviado pelo usuário e
também Dj amador Marcus Soares.
- @Por Marcus Pessoa
O ótimo blog português Sound
+ Vision á
um certo tempo atrás, repercutiu uma matéria publicada no Village
Voice, a respeito de personalidades da música que viraram DJs, entre eles,
Jarvis Cocker (Pulp), Martin Gore (Depeche
Mode) e Peter Hook (New Order). Segundo o texto, "os promotores
de noites dançantes perceberam que as multidões não queriam mais doses
intermináveis de batida instrumental, mas antes canções".
Pra quem não
sabe, Belém é uma das capitais mundiais do psy trance, uma variação do
techno extremamente pesada e repetitiva. Os principais DJs de psy do mundo já
vieram tocar aqui, e o público lota qualquer evento do tipo. Por outro lado, há
uma queixa recorrente do público não-iniciado: de que gostam de sair pra dançar,
gostam de música eletrônica, mas não conseguem dançar horas seguidas aquela
batida repetitiva.
O texto prossegue: "a velha guarda DJ responde,
apontando sobretudo as deficiências técnicas dos músicos/DJs que não sabem
acertar batidas", referindo-se àquelas técnicas de mixagem onde as músicas se
encaixam umas nas outras, sem interrupção.
Isso me lembra de uma polêmica
boba a respeito de discotacagem com discos de vinil, que saiu uma vez na revista
Beatz. Top DJs tendem a se levar a sério demais, e nessa
matéria diziam que não podiam ser respeitados os DJs que tocavam com CDs, porque
"era muito fácil" e isso era "uma agressão à cultura do DJ".
Realmente, é
legal ver o cara fazendo piruetas com os vinis, como por exemplo o DJ
Marky, exímio na técnica. Mas daí a enaltecer a técnica acima da
sensibilidade vai uma grande distância. O que interessa, no fundo, é música boa
rolando na caixa.
DJ Dolores, um dos melhores da cena
brasileira, disse isso com todas as letras nesse texto lindo: qualquer
um pode ser DJ.
"A arte de tocar um disco, seguido de outro, se possível mixando,
para não perder a batida, aparentemente é bem simples. E, na verdade, é mesmo.
Qualquer um pode levar suas faixas favoritas, seja num suporte de vinil, em CD
ou mp3 e animar a multidão. Numa das melhores festas em que já fui nessa longa
vida boêmia, os DJs usavam apenas fitas cassetes. Foi em Havana, Cuba, lugar
carente de tecnologia e farto de criatividade". Eu sou um DJ
amador que já deu em longínquas eras todos os seus vinis de presente para os
amigos. Já vi DJs profissionais esvaziarem uma pista tocando a mesma batida
repetitiva durante uma hora inteira. Já vi caras assim me perguntando que
músicas eu estava tocando, sendo que eram de bandas incensadas no mundo indie. O
problema é que eles sabem tudo do estilo que tocam, mas muito pouco do
resto.
Não sei acertar batidas direito, mas procuro seguir à risca o mais
importante, o princípio de que o DJ não é senhor da platéia, mas seu
servo. Não vou tocar música que não gosto, mas não vou obrigar o público a
escutar o que eu estou a fim naquele momento. A reação da pista é que determina
se um estilo continua ou dá lugar a outro. Se a pista esvazia e o DJ continua
colocando as mesmas músicas, é porque ele se acha mais importante que o
público.
Eu ponho música pra ver todo mundo dançando. Ajudar a fazer as
pessoas felizes me realiza, e a dança nos leva a conexões misteriosas. Engavetei
o texto dos melhores discos de 2005, mas esse trecho, sobre o espetacular disco
de Madonna, explica bem o que penso:
"O mundo segue sua
rotina e popstars tornam-se mais relevantes nas revistas que em nossas vidas. A
número um deles abre sua casa para os fotógrafos e os convence de que é só isso,
uma mãe de família com um marido também famoso. Ao mesmo tempo, tranca-se em
estúdio com o melhor DJ do mundo para
ao final mostrar que seu negócio ainda é música. Volta às origens, ao propor que
se coma esse biscoito fino no lugar certo. Música serve pra várias coisas, mas
na pista sua função é mais nobre. Nós queremos nos perder, nos esquecer de nós
mesmos e chegar a algum tipo de comunhão com a natureza, ou com Deus, o que for.
Não precisa globo espelhado nem estrobo; bastam movimentos que nos retirem do
normal. Isso não é tão diferente de um monge cantando mantras ao infinito, ou de
um penitente surrando a si mesmo. Madonna, em sua melhor coleção de canções em
muitos anos, confessa que viveu".
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