Exclusivo

 A intolerância de uniforme.

@Por Marcos Antônio Oliveira Alve

 Artigo 186: Aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.
São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.
(*) Marcos Alves.


Praticas discriminatórias, inspiradas no preconceito, estão lamentavelmente na ordem do dia dos quartéis das Policias Militares. São expressões de intolerância que põem em questão os valores da democracia e dos direitos humanos. Entre os incidentes recentes da prática do preconceito, constam as exclusões de policiais militares aprovados em concurso públicos que ao exercer sua profissão e deixar transparecer e/ou revelar sua orientação sexual passam a ser alvo de piadinhas, fofocas e humilhações.
O que pode causar mais irritação no meio militar do que a constatação de que realmente existem homossexuais dentro dos quartéis? Só mesmo a comprovação da afirmativa por meio de números.
A homofobia, embora combatida sob os termos da lei, ainda teima por existir, e o preconceito contra os policiais-militares homossexuais (masculino e feminino) está fortemente enraizado nas instituições militares.

Embora muitos comandantes estigmatizem e ridicularizem o policial gay, não é desconhecendo o problema que ele será resolvido. Não será a exclusão com falsas afirmativas de desvio de conduta ou a quebra da hierarquia e disciplina? que fará desaparecer o PM homossexual.
A expressão do desejo e da atração sexual através da homossexualidade é vista como algo fora dos padrões, fora da normalidade.Uniformizados ou não vivemos a situação dramática de manter no anonimato nossa legitima identidade afetivo-sexual, pois caso seja declarado, seremos alvo de ameaças, perseguições e todo tipo de repressão, até a demissão por justa causa da qual fui vítima.
Confinados à clandestinidade, o PM homossexual se ver obrigado a esconder sua verdadeira identidade existencial e a dignidade do amor que sente por outro ser do mesmo sexo.


Comandantes e comandados insistem no preconceito e na ignorância de afirmar que o homossexualismo é um desvio da personalidade e, por isso, uma doença que provoca uma conduta imoral, inadequada ao serviço policial e atenta contra a disciplina. Em contrapartida, para a medicina, para a psicologia e para a antropologia, está mais do que estabelecido que a orientação homo ou bissexual não constitui desvio ou perversão. Com o mapeamento do genoma humano, cientificamente não existem distinções entre os homens,seja pela segmentação de pele, formato dos olhos, altura, pêlos, ou por quaisquer outras características físicas, visto que todos se qualificam como espécie humana. Não há diferenças biológicas entre os seres humanos. Na essência somos todos iguais.
Infelizmente todos os seres humanos podem ser vítimas da prática do preconceito ou qualquer outro tipo de discriminação.

A divisão dos seres humanos em raças, sexo, religião resulta de um processo de conteúdo político-social. Deste pressuposto origina-se a intolerância contra os homossexuais, onde a homofobia, por sua vez gera a discriminação e o preconceito segregacionista.

Nossa Constituição sustenta os valores de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos e contempla, entre os objetivos da República, o de promover o bem de todos sem preconceito de origem, raça, sexo, cor idade e quaisquer outras formas de discriminação. No capítulo dos direitos, a Constituição brasileira consagra o princípio da igualdade e da não discriminação.
Não há Deus no mundo que queira seus filhos infelizes. Ele criou também a diversidade e, sem dúvida, sua preocupação não está com quem você escolhe para se relacionar e sim em caráter, integridade e outros valores do bem. Deus é o próprio caminho da verdade, seja ele qual for.
Superar discriminação e a violência por motivo de raça e de gênero, por exemplo, ainda é desafio a ser vencido por nossa sociedade e, particularmente pelos comandantes, chefes e diretores das Policias Militares.
Enquanto isso as instituições brasileiras têm tentado afirmar o princípio fundamental segundo o qual ninguém pode ser privado de seus direitos humanos básicos (vida, liberdade, igualdade e respeito à dignidade humana) em virtude de sua orientação sexual.
Discriminar por orientação sexual é uma das formas de violar os direitos humanos básicos, a todos garantidos, da liberdade, da privacidade, da igualdade e do respeito à dignidade.

Através do reconhecimento explícito do respeito às diversas formas de expressão do amor e da sexualidade em nossa sociedade plural. Muito além de beneficiar ou prejudicar este ou aquele estilo de vida, defendido por esta ou aquela visão de mundo, seja filosófica ou religiosa, trata-se de afirmar o compromisso constitucional democrático de tratamento de todos os cidadãos como iguais, sem distinções fundadas em preferências sexuais individuais. Fortalece-se o respeito a todos homens e mulheres, concebidos como pessoas que livre e responsavelmente podem desenvolver-se e se relacionar uns com os outros.
O combate à discriminação por orientação sexual é uma das medidas urgentes que deve ser aplicada nos quartéis, para que se tenha uma Polícia mais humanizada.
Diga-se de passagem, tanto no Supremo Tribunal Federal como no Superior Tribunal de Justiça, nos Tribunais Regionais Federais e em vários tribunais estaduais encontram-se manifestações judiciais contrarias a discriminação por orientação sexual; na legislação, leis estaduais e municipais censurando tal espécie de discriminação já ultrapassam a casa da centena.
Liberdade, privacidade, igualdade, respeito às diferenças, proteção à dignidade de cada ser humano: - eis as preocupações e as motivações conjuntas destas medidas brasileiras. Iniciativas como estas consolidam o esforço nacional pela concretização dos direitos humanos em uma sociedade democrática e plural.
Quero acreditar que é possível que as pessoas aprendam a se respeitar e tenham a capacidade de construir um novo mundo, onde todos possam ser livres para amar e ser amado. E vamos continuar lutando para que os atuais e futuros comandantes, chefes e diretores das instituições militares abram suas cabeças, e reflitam que um dia, poderão ter filhos e netos diferentes e fatalmente farão parte de uma minoria como ainda hoje somos classificados.

Este texto foi enviado para a redação do Farofa Digital por Marcos Antônio Oliveira Alves, 37 anos, ex Policial Militar, excluído da corporação por assumir sua orientação sexual.Foi discriminado e perseguido até ser expulso da PMDF em abril/2003, e editado por Davi Santos sob autorização do autor

Endereço para correspondência:
SCLRN 712 BLOCO H/27 APT 201 (ASA NORTE)
CEP 70.760503 BRASÍLIA DF.
TEL: 61 273 9161

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