Apenas o óbvio e um pouco da nossa natureza de bode

Janeiro 2009

O dia tá lindo, o céu azul, o calor pedindo um banho e todo mundo quer ir à praia. Fim de ano, fim de festas, verão, sorvete, lábios, cerveja e lá vamos nós rumo aos mesmos destinos de engarrafamento e areias cheias. Todo mundo tem as mesmas sedes e fomes e, embora a nossa saciedade seja feita de muitos “quês”, a maioria de nós quer apenas a mesma coisa. Só os nomes são diferentes.

Mas sorrir, ficar em paz, se divertir, descansar, namorar, andar sem pressa, correr na orla, ler um livro, dividir a lanchinha com o cachorro, ir pra Paris sozinho ou simplesmente insistir no ferry rumo à Itaparica é a nossa desesperada tentativa de sermos um pouco mais de nós próprios, depois que um ano inteiro nos sugou a essência na estreita peneira do cotidiano.

Mesmo nos momentos aonde podemos fazer – teoricamente - o que quisermos, terminamos por enveredar nos mesmos e previsíveis destinos. Mas e daí? O Oscar Wilde escreveu que todas as histórias já foram contadas, muda-se mesmo só o jeito, os personagens. E então fico me perguntando se, se realmente é assim, por que a cada dia que passa nos questionamos em que mundo vivemos? A violência, as catástrofes, todas as caretas surpreendentes do absurdo, estão aí sendo desvendadas com um toque muitas vezes macabro de primazia e desvelo.

Não vou mentir. Ando louca pra simplesmente sentar na beira da praia e fazer nada como todo mundo. Ficar de bobeira, repicar o cabelo, entupir o MP4 e me cansar de não fazer nada como todo mundo. E para esse meu fabuloso destino apenas 15 dias. Trezentos dias trabalhando e quinze dias fingindo que não tenho nada a fazer na vida. Ok. Então, vamos lá. Cheia de vontades, sem programação alguma e apenas com a minha garrafinha de Chandon, mapas e amor debaixo do braço, me preparo para o inesperado. Sim, porque até o previsível pode ser também inesperado. E essa é a graça da vida e dos rituais que cumprimos ano após ano, na esperança de que o novo realmente nos renove. O ano, não. A gente.

Mas que graça tem não culparmos e darmos às estrelas o destino da nossa “natureza de bode”? Shakespeare estava certo. E em homenagem à ele e à mim, que finalmente saio de férias, eu apenas canto o óbvio, mas não menos pretensioso:

“My dream is to fly
Over the rainbow so high…”
 
Feliz 2009! Da melhor maneira que você puder fazer dele.
* Flávia Figueirêdo é escritora, produtora de Rádio e TV, formada em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Bahia (UNEB).
flaviaxiv@gmail.com
 

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