Entrelinhas - Por Flávia Figueirêdo

To get out of the closet – que closet?

Julho de 2008
 
Chegar aos cem anos só quando a gente não existe mais. Existindo, deve ser um fardo permanecer além da expectativa da existência dos comuns. Este ano dois escritores “dobrariam o cabo” centenário: Fernando Pessoa e Guimarães Rosa. Pessoa faria 120 – hipótese surreal para alguém o qual viver era constantemente insuportável e que nunca conseguiu ser só um - realizando o fantástico feito de ser vários: Alberto Caeiro, Bernardo Soares, Chevalier de Pas, Ricardo Reis, Alexander Search, Álvaro de Campos. Ao todo, foram 72 “eles”.
 
O outro é Guimarães Rosa. Esse mais contido em ser ele mesmo e, ainda assim, tornando-se genial com as invencionices de um vocabulário superlativo a qualquer dicionário. Guimarães Rosa completaria 100. Mas está morto. E na sua “desvida”, (como talvez escrevesse), deixou imortalizado personagens como os dois jagunços Riobaldo e Diadorim, do romance Grande Sertão: Veredas. O livro foi escrito em 1956 e desafiando o entendimento do senso comum, tratava não só do sertão-tamanho do mundo, como também dos sentimentos que nascem no agreste da gente. Sem sexo, sem cor, sem lugar.
 
Muita gente lembra mais da minissérie que a Globo baseou-se e levou ao ar em 1985 (sim, a Globo levou ao ar!). Na pele de Riobaldo, o ator Tony Ramos e no de Diadorim, Bruna Lombardi, que pela primeira vez fazia um papel masculino. Em um breve resumo, disponível facilmente hoje na internet é possível entender mais ou menos o que se passa: Diadorim era sério, “não se fornecia com mulher nenhuma”. Destemido, calado, de feições finas e delicadas, impressionava Riobaldo e exercia sobre ele grande fascínio: “Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Digo o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego”.
Diadorim tinha como objetivo vingar a morte do pai e consegue, após muitas lutas e andanças. Em sangrento duelo é ferido mortalmente. Ao receber a notícia da morte do amigo, Riobaldo é tomado por dor intensa e, em desespero, estarrecido, exclama: “Meu amor”, diante do corpo desnudo a revelar o grande segredo do companheiro.
Eis o dilema secular e tão atual. Hoje são as novelas que, em sua maioria, apresentam pelo menos um casal de Riobaldos e Diadorins. A diferença é que já não há tanto ou nenhum dilema. Caminha-se para uma aceitação cada vez mais natural, embora, na hora do “vamos ver”, mais velada.
 
Beijo e sexo ainda não. Questão de tempo, há de se ver. Bem mais já é permitido: intimidades bem sucedidas são mostradas como reais e possíveis para o público, que vez ou outra se pega torcendo por um Carlão e Bernardinho, por exemplo. Mas qualquer olhar mais atento vai ver que a imprensa, de um modo geral, já veicula imagens entre casais homossexuais casando, beijando e comemorando, sem nenhum constrangimento. O registro do real sem o irrestrito grito do “corta!”.
 
Embora não faça parte do contexto, o beijo de Daniela Mercury em Aline Rosa saiu em mais de trinta jornais, entre imprensa escrita e eletrônica. Está aí pra quem quiser ver. Marketing, fama, libido, deu na telha, não importa... Todo mundo achou o máximo e no oba-oba, ambas, com certeza, vão vender mais revistas, abadás, dvds e Daniela, talvez, mais sabão em pó. É fato.
 
A gente vive entrando e saindo de armários. Velhos, novos, específicos: um trabalho sufocante, um casamento de aparências, uma profissão incompatível com a própria essência. São tantas as maneiras pelas quais nos boicotamos que um armário só chega até a ficar pequeno às vezes. E por conquistas, movimentos ou pela irrefreável fluência da vida, sempre chega a hora de abrirmos as portas e libertar as “naftalinas” da sua missão de conservar o mofo. Dizer não quando não se agüenta mais repetir um mesmo sim no qual nem nós mesmos acreditamos. 
 
Uma frase de Guimarães Rosa diz que o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. Frase mais certa. Só é preciso abrir os olhos e enxergar. Até porque, apesar de ainda existirem os “closets”, muito mais de cem anos já se passaram e hoje há muito pouco – ou pra se dizer bem à verdade - quase nada a se esconder.
 
 
* Flávia Figueirêdo é escritora, produtora de Rádio e TV, formada em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb).


 

 

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