Parando pra pensar na Parada
@Por Flávia Figueiredo
27.10.2009
 
Domingo sem fazer nada e você pensa: Parada Gay. Vai ser massa. É claro que eu já sabia intimamente que não seria tão massa assim, mas enfim, eu sempre pago pela minha teimosia. Participei da maioria das Paradas daqui de Salvador, vi em Recife e em São Paulo. E vou dizer: as comparações são inevitáveis. E não é pelo tamanho, não são pelos “milhões” de pessoas das estatísticas descabidas, mas pelas atitudes, pelos conceitos.
 
Passei um bom tempo rodando, observando no trio, andando, conversando e vi de perto a “selva”. Na moral, haja gente feia. E quem disser que não ou fizer biquinho, aviso que o “politicamente correto” também tem seu tempo de stand by.  
 
A Parada em Salvador é um carnaval indoor a céu aberto onde as atrações, infelizmente não são apenas as drags e a galera que usa a criatividade e o seu estilo para dar o seu recado, mas uma lista meio deprimente com pagode em excesso, arrocha, ruas estreitas e por aí vai.... Deixando o meu gosto pessoal de lado e partindo apenas para a coerência das festas GLS, fico me perguntando o porquê que as mesmas atrações de arrocha e pagode não são convidadas para as boates e barzinhos do meio. Por que? Ou será que elas estavam ali de graça? Ainda assim, eu não entendo. Duvido por exemplo, que a Off colocasse um desses grupos nos variados estilos das suas noites. O assunto já foi levantado inclusive por aqui em relação à Madrre. Se o cara não quer pagar pra ouvir pagodão nas festas, porque vai querer no dia em que ele tem um momento especial para mostrar quem é e do que gosta? A pergunta fica no ar pra quem quiser responder. Eu não consigo. Talvez me falte a inteligência dos grandes organizadores.
 
Então, a gente já sabe: com pão e circo dessa qualidade, gente é que não vai faltar – como não faltou na 8ª Parada de Salvador. Fala-se em um milhão de pessoas. Talvez. Eu mesma nunca vi tanta gente numa Parada aqui em Salvador. E o interessante é que, ao contrário dos outros anos, quando o evento ainda caminhava para se estruturar, o público presente era outro. As pessoas tinham – e ainda tem – curiosidade sobre tudo que diz respeito aos gays. Isso é fato. E participar era uma verdadeira festa.
 
Achei show a idéia de levar a cover da Amy Whinehouse. Arrasou e mostrou para o público que conseguiu chegar perto do palco, um trabalho bem legal, assim como de outras artistas que se apresentaram por lá. Depois foi só o que já disse com a diferença de piorar com o passar das horas. Fico imaginando quantas coisas não temos para mostrar às pessoas: quanta arte, quantos grupos de dança, de transformismo, de leis e conquistas, de informação que as pessoas desconhecem, de uma cultura que aqui fica restrita a poucos personagens e muito oba-oba. Chato. Uma lástima.
 
Em São Paulo há várias feiras na semana e durante o próprio evento com uma variedade assustadora de tudo relativo ao mundo GLS. Imaginem aí. Quem já foi, sabe. E por mais que se tenha uma infinidade de atrações, elas não perdem o foco, ou seja, informação sobre o movimento, os direitos, as conquistas e a cultura GLBT. Aqui a coisa virou um carnaval de bairro de grande proporção com pouquíssima história a ser contada sobre o que realmente é uma Parada.
 
Quer saber? A Parada deveria parar. Pra se reorganizar, pra fazer uma pesquisa num portal como o Farofa, por exemplo, perguntando: o que você acha da Parada Gay de Salvador? Começar uma campanha para se refazer. Porque como está, sinceramente, a tendência é piorar. Muita gente bacana que poderia ir, não vai. E o que a turma prega de “sair do armário” fica inviável. Primeiro, pelo espaço, e segundo, sair pra onde? Pois ao invés de sermos reconhecidos como cidadãos e gente como qualquer outra, ao botarmos a cara na rua dessa maneira, perdemos um pouco da nossa identidade. Nos apequenamos ao senso comum da galhofa e do descompromisso.
 
Á parte com incentivos e políticas de patrocínio, pode-se fazer muito mais. Mas a terceira maior metrópole do País tem uma Parada muito aquém das outras capitais. E nem se precisa ir muito longe. É só acompanhar os jornais e revistas. Nós que nos orgulhamos tanto de ser baianos, “não-nascidos, mas sim, estreados”, temos uma Parada meio medíocre. É isso que eu acho. E se você se contaminou com esse texto, passe adiante. Dê sua opinião. Vamos parar um pouco pra pensar. Reinventar-se. Porque é na diferença que nos valemos a pena.
 
Crédito das Fotos: LuKyTTo - Farofa Digital
 
* Flávia Figueiredo é escritora, fotógrafa, produtora de Rádio e TV, formada em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Bahia.

Participação dos Internautas

Tiago Costa - Salvador - BA
Disse tudo Flávia
Flávia, disse tudo em uma linha só: "A parada tem que parar!"
Frustrante, medonha, sem foco, desanimada, feia... se ser gay é ser daquele jeito, eu volto pro amário é agora!!
Parabéns pela matéria, Flávia.
Carlos Gramacho - Salvador - BA
A Parada devia Parar
Flávia você tem toda razão e seu comentário é muito feliz. Só fui a 03 Paradas aqui em Salvador e na minha opinião só a primeira prestou, pois se tinha um cunho político, ainda não existia este oba, oba, esta esculhambação. Em primeiro Lugar se deveria ter à frente da Parada pessoas mais preparadas. Na minha opinião ter Luis Mott com um microfone não mão é uma lástima. Ele tem o poder, mas não sabe utilizar. Por maior importância que Ele tenha, dentro movimento GLS, o seu discurso é ridículo, de uma demência atroz. Ninguém em sã consciência que vá á Parada e veja Mott falar vai dar credibilidade ou nos respeitar. É muito triste, ver se desperdiçar um momento único no ano, onde poderiámos mostrar quem somos. É por isso que muitos Amigos meus nunca foram e se continuar desta forma nunca irão comparecer à Parada. Um grande abraço e parabéns pela matéria Flavia.
Lucas - salvador - BA
A Parada de salvador está ficando chata
concordo com td q vc disse ++ eu acho q vai piorar ñ melhorar demorou tanto trocou o dia o mes pra fazer essa porcaria com axe e pagode
João Lemos - Salvador - BA
Parada do Pagode
Infelizmente tenho que concordar com a matéria, deixou a muito tempo de ser uma manifestação política e virou um grande OBA OBA recheada de delinqüentes e musica de péssimo gosto...no inicio os TRIOs eram coisa para GOGOboy, hoje é disputado para não ter quer ficar no chão no meio dos roubos.
Existe muita ousadia mais falta segurança...
*Quantos trios de pagode foram mesmo???

CREDO, ta vendo que isto não cabe ao movimento...só atrai batedor de carteira!!!
Podem descordar, sou democrático. Mais em relação a music Gay é Elecrto e Pronto(.)
João Lemos SSA.

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