Curtindo nossa baianidade nagô

 @Por Flávia Figueiredo

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01.12.2009
 
Sol, sol, sol. Calor, calor, calor. E como aqui não acontece nada, nem blecaute, nem chuva, muito menos frio nem tsunami, a gente vai vivendo das velhas fórmulas de todos os verões passados. Água mineral nos sinais, engarrafamento em todas as vias, os repórteres no Porto da Barra, as decorações de natal dos shoppings e a pouquíssima criatividade dos incontáveis ensaios de tudo quanto é banda. O engraçado é que a gente paga pelo ensaio. Porque não chama show? Teoricamente porque no show eles tem que acertar, e subliminarmente porque “ensaio” é um nome mais “veado” e, por isso mesmo, mais bacana pra uma aglomeração de gente pulando, saindo do chão e batendo palma.
 
Até a chegada do carnaval, Salvador vive para sustentar a chamada vocação natural da cidade de receber e estar em constante estado de graça por vivermos nesse sol maravilhoso e insuportável e seguir o “swingue” das batidas, dos encontros e das formações mais esdrúxulas do mundo. Eu não queria ter que dar exemplos, mas não posso resistir. Vamos lá: o que é Beto Jamaica e Reinaldo do Terra Samba numa banda chamada  BR? E Netinho vestido de palhaço chiq (tá, vão dizer que é mágico...) em seus eternos remakes cansados, além das bandas que sumiram para reaparecerem “triunfantes” sob o sol de verão? Fantasmão morto e Babado Novo velho!
 
Dizem eles, “é até poético”. Digo eu, “é um saco”. E se preparem para as “novíssimas novidades”: A volta estupenda de Ivete Sangalo, a música do verão, a eterna chatice encantada de Claudia Leite, o barulho tirado a roqueiro do Jamil e Daniela Mercury anunciando as tendências e revoluções do carnaval e em seu camarote. Fora os bastidores da coordenação do carnaval com todas as maracutaias possíveis e aquela cara apalermada de João Henrique tendo que comparecer a tudo quanto é desfile e fingindo que tá gostando de ver o pau comer “na casa de noca”! Quero ver quem vai ser o Rei Magro desse ano! Depois tem a Feijoada da Dadá, as patricinhas das festas bombantes e o interminável calendário oficial das festas de largo, “enchendo a choriça” dos telejornais sem pauta. E o pior é que a gente adora tudo isso. Mesmo os que torcem o nariz e são os “solitários punks”, como Marcio Mello, eu ou você. Uma hora há a rendição a pelo menos um desses “lugares comuns” da nossa baianidade. Eu começo pelo acarajé de toda semana e de repente lá, no Festival de Verão (mas sem bater palma, tá gente...) e depois jogando uma flor pra Yemanjá.
 
É assim com todo mundo. Todos juntos num mesmo barco – do trio elétrico e dos palcos às dancinhas coreografadas das raves. Somos hilários e, por isso, interessantíssimos. Capital nenhuma consegue sustentar por tanto tempo uma mesma vibe com tanto, digamos, charme, cara de pau e inventividade. O baiano não tem vergonha das suas bizarrices. Bota a cara, e a galera, se não aplaude, dá manchete. Taí o nosso feeling quase... genético.
 
Enquanto escrevo esse texto, eis a cena que vejo: uma mendiga com travesseiro e tudo dormindo do lado de dentro de uma agencia 24 horas do Bradesco. Só no ar condicionado! Do lado de fora um vendedor vai perguntando: “Vai uma aguinha mineral aí, mãe?!”.
E o sol reina a pino, sem contestação nem Bastilha, sobre um enorme outdoor do próximo ensaio. Não tenho mais dúvidas. Moro na capital mais doida desse País. Viva à nossa baianidade – que só de vez em quando tem de se curvar à caetanice inspirada do “ou não”.
 
* Flávia Figueiredo é escritora, fotógrafa, produtora de Rádio e TV, formada em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Bahia.
flaviaxiv@gmail.com

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