Keep Walking
Julho 2009
 
“Eu sempre gostei”. “Eu amo”. “Venero”. “Dou minha vida”. “Ele é tudo”. Não, eu não estou falando de Deus, cujo modelo é o único de perfeição que temos, independente da religião. Estou falando de qualquer um. De preferência, que já tenha morrido. Michael é só mais um que tripudiamos, aplaudimos, condenamos, e finalmente, ganhamos dinheiro com quinhentas mil manchetes de um mesmo assunto: um cara que cantava e dançava e que fez coisas maravilhosas e bizarras. Ponto. Particularmente eu nunca fui fã e, agora, muito menos. Acho que ficar famoso ou voltar à ela depois de morrer é démodé, coisa de certo mal gosto que a nossa sociedade deixa para a próxima como uma de suas maiores marcas. Somos demagogos demais. À priori, não somos nada e de repente, sine qua non.
 
Nos falta concisão. Em qualquer esquina, qualquer jornal, qualquer revista, qualquer castelinho de Caras, tudo é plus, master, super, ultra, mas, claro, disfarçado da mais pura modéstia e simplicidade. Tudo é “mais do que nunca”, o maior, o rei, uma legenda. Nada... Agora o que não falta é neguinho dançando Moon Walke na TV e lunáticos desprovidos de qualquer sanidade mental imaginando construir um memorial pra Michael Jackson no Pelourinho. Tenha paciência....Eu não tenho mais. Só “munição da boa” em meu teclado.
 
Porque tudo bem que se homenageie, relate, transmita, mas o circo que se faz com as coisas e pessoas é algo realmente assustador – à lógica, ao raciocínio, mas acima de qualquer coisa, ao bom senso. Já imaginou como seria o funeral de Deus? Provavelmente, bem chinfrin, afinal, o máximo que ele pode ter feito para a nossa sociedade do espetáculo foi ter andado sobre as águas do Mar Vermelho. Water Walk. O “show” da água em vinho é mais fácil e, por isso, sem ibope. Qualquer guri saberia fazer isso com um pacote de Tang.
 
Coitado de Deus. Não tem mídia. Coitado de Michael. Sem morfina. Coitados da gente. Sem parâmetros. Nos falta a normalidade. Nos tornamos insuportavelmente industriais. E nem a morte nem ninguém escapa disso. Em plena entrevista sobre a morte do filho, o pai de Michael (que figura é aquela?!) disse que tinha algo importante a dizer: estava abrindo uma gravadora. Em pleno enterro também foi preciso destacar uma outra informação igualmente importante: o caixão era banhado a ouro e havia custado 25 milhões de dólares. Um verdadeiro banquete para os vermes.
 
Graças a Deus, Michael já foi. Ou já vai. Se pique, Michael. Finalmente uma vida de verdade. Sem sinal de transmissão. E como nunca se pode perder uma oportunidade de faturar com o drama alheio, eis a minha preciosa dica de slogan para uma edição especial do Black Label: “White Michael. No Labels. No Sense”. De brinde? Um santinho de São Jorge com o hóspede da vez.
 
Em respeito ao morto eu não vou bebê-lo.
* Flávia Figueirêdo é escritora, produtora de Rádio e TV, formada em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb).
flaviaxiv@gmail.com
 

Mensagem dos Internautas

Robson Mangabeira - Vitória de Santo Antão - PE
Esse texto me lembrou muito o meu irmão. Eu desde novo sou fã de Michael Jackson, tenho tudo que se possa imaginar do cantor e sempre fui criticado pelo irmão que sempre teve horror de Michael e chamava ele de racista pq negava suia raça e queria ficar branco e tal e após sua morte ele mesmo, o meu irmão, anda baixando faixas e mais faixas do cantor dizendo que ele era maravilhoso.
Resumindo, o ser humano só dar valor quando perde!
Jonas Stefani - Toronto - Ontário
perfeito! Colocou em palavras o que eu sinto a respeito disso.
Convenhamos que ja estava enchendo, ate a CNN esqueceu de tudo que estava acontecendo no mundo e so falava de MJ. (24 horas 7 dias por semana)
O que nos resta a fazer eh rezar, rezar muito para que Madonna nao morra tao cedo... :p
Henrique Dias - Salvador - BA
E quem diz o contrário João Américo? pelo visto ou vc não leu a matéria ou você é muito burro.
Hellen Francis - São Paulo - SP
VERDADE FLAVIA, VC PEGOU MICHAEL COMO EXEMPLO MAS NA MAIORIA DAS VEZES NÓS SÓ PASSAMOS A GOSTAR, A DIZER QUE AQUELE ARTISTA PRESTOU E AS RÁDIOS SÓ VOLTAM A TOCAR, APÓS A MORTE OU SEJA, O QUE ERA ESQUECIDO E IGNORADO POR NÓS MESMOS PASSA A SER NOVAMENTE CELEBRIDADE. E FOI O QUE ACONTECEU COM NOSSO ADORÁVEL MICHAEL, AGORA ELE ESTÁ EM TODAS AS CAPAS DE JORNAIS, EM TODOS OS PROGRAMAS DE TV ENQUANTO VIVO, PASSOU 11 ANOS SEM NINGUÉM FALAR NADA, TOTALMENTE ESQUECIDO.
João Américo - Salvador - BA
Ridiculo essa meteria, Michael Jakson eh o maior nome da musica no mundo, o nome mais conhecido do mundo depois de Jesus Cristo, e sair uma materia dessa... Por favor, sei o gay prefere madona, mas ah de convir q Michael jakson era muito mais forte... com todo gay ele era polemico, mas ele eh um fenomeno vivo ou morto...
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