Dizer o quê?

Junho 2009
 
Puta que pariu. Gugu vai ganhar R$3 milhões.
Eu disse R$3 milhões pra apresentar uma porra de um programa de TV ridículo. Caralho. Eu odeio palavrões, mas como diria o mestre dos mestres, Millor Fernandes, eles são “recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos”. Resumindo: só um “puta que pariu” pra expressar um real descontentamento com aquilo que literalmente nos deixa putos!
 
E aí vem Roseana Sarney e seu mordomo de R$ 12 mil. Putz, R$12 mil pra servir cafezinho e comida ruim! Aí vem Roberto Justus com mais alguns milhões e Eliana Dedinhos com muitos dedinhos em suas cifras igualmente milionárias. Tudo pra fazer de um troca-troca bizarro entre o SBT e a Record, algo como um leilão do quem dá mais por estas obras-primas do horror midiático! Caralho! É fod@!
 
Cada vez mais difícil viver no Brasil. Viver até ainda vai, porque é algo que mesmo compulsório, ninguém quer abrir mão, mas viver bem, viver com orgulho, viver com a plena certeza de que as coisas anormais não acontecem assim, tão abertamente e sem escrúpulo nenhum, é completamente impossível. É de dar vergonha. Mas Lula disse que agora vai escrever uma coluna nos jornais. Ele também não precisa de diploma. Só de alguém que certamente vai escrever por ele enquanto a nação comemora o gol daquele outra sacana do Kaká. Sacana, sim. Ele vai ganhar 65 milhões de euros – eu disse EUROS (cerca de R$ 178 milhões!) – pra jogar num time de futebol lá na casa da porra. Pior: ainda tem a parte pra Igreja Renascer! Caralhooooo! Aí você vê uma notícia dessa enquanto espera o ônibus e ouve o último sucesso de Ivete Sangalo no camelô e pensa o quê?! Caralho! Puta que pariu, velho...Tá fod@...
 
Chega em casa, liga a TV. É óbvio que você não tem Sky e tem que se contentar com as desgraças da TV aberta. Ligou. “Caras e Bocas”. Ui. Trocou. “Chaves”. Ai. Passa o tempo. Insiste (como diria Galvão Bueno), dribla, para e não acredita. “A Fazenda”. Vai dizer o quê? O quê? Caralho...Puta que pariu... Olha pro lado. Não tem ninguém. Só Dramin e Rivotril. Pensa: é agora! Mas aí, lembra de Michael Jackson, de Heath Ledger (O Coringa de Batman, tá gente?!) e desiste da idéia. Que tal um Red? É um Red até que era uma...mas..melhor não. Às vezes é preciso ser forte e dizer pra você mesmo que se é capaz de viver uma semana sem álcool. “De boa”, como diria um legítimo baiano.
 
Cansa e dorme. Acorda no dia seguinte, mas tem medo de ver as bombas que vem pela frente. Mas é invariável no cerne das vezes: a rotina não muda. Escândalos no Senado, a gravidez de Gisele Bundchen, o Air France, a Seleção Brasileira, Tek Pix, Bocão, Boquinha e tudo que não vai dar em porra nenhuma.
 
Ainda assim, continuo tentando a minha tântrica abstração ao eloquentemente bizarro. Bizarro porque é bizarro ou tão sofisticamente maquiado, que se torna ainda mais feio. E chato. Então pra cada “notícia” dessa, procuro uma bacana. Tente fazer o mesmo. Ajuda a despoluir. Achei por exemplo a notícia da música do cérebro, que produzimos a depender das nossas emoções. Pode parecer fútil, mas não é. A gente é que tá muito mal acostumado com o que não presta. E nos resignamos com Sarneys e Bocões, enquanto do lado de fora da “bolha” há também generosidade e muita gente trabalhando pra tornar o dia do outro mais feliz. É possível. E fácil.
 
Eu já comecei e apostei uma caixa de Skol com um amigo, de que ele conseguiria passar uma semana sem falar em morte no HGE, nem me mandar correntes virtuais e powerpoint daquelas paisagens de capa de almofada da Avenida Sete.
 
Taí. Já fiz duas pessoas felizes. Ele, que agora prometeu mudar os assuntos, e eu que além de aspirar menos um “gás poluente no planeta”, ainda vou beber com ele. São as coisas da vida. Mas viu como já parei de falar palavrões? Porra, já me sinto uma pessoa melhor....Eu sei, esse mundo é muito louco. E eu e você também. Are Baba! Por isso, quando a coisa apertar e não houver generosidade que dê jeito, resigne-se ao “foda-se” ou palavrão que melhor lhe azeite a boca e seja feliz. Millôr, como sempre, estava coberto de razão. Conclusões como essas só podem vir de uma legítima maturidade de quem vê merda o tempo todo. Mas sobrevive a elas.
 
Então, faça a sua parte e boicote o que não presta. Boicote, e como o meu amigo, passe essa corrente adiante! Risos. Apesar de parecer que o direito a ser inteligente não está mais assegurado na mídia nem na Constituição Federal, vale a pena insistir. Eu garanto. Até porque é muito mais saudável e divertido do que o “pintinho amarelinho” daquele filadaputa do Gugu.
 
Desculpem os palavrões. Tem sido só a força do hábito.  
 
* Flávia Figueirêdo é escritora, produtora de Rádio e TV, formada em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb).
flaviaxiv@gmail.com

Mensagem dos Internautas

Jonas Stefani - Toronto - ON
Perfeito! Seculos um texto nao me fazia rir... e assino embaixo. Putaquepariu!
barruan - Salvador - BA
crônica mto inteligente e espirituosa. vale a leitura. .
Fábio Souto - Salvador BA
Fico impressionado com as doses intrigantes da matéria que só me prende à leitura.
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