É um real a Bienal

Abril 2009
 
A definição de Bienal é um evento que acontece de dois em dois anos e que normalmente tem a proposta de levar ao público um acontecimento de cunho artístico-cultural. Ok. A Bienal do Livro da Bahia como proposta de trazer até Salvador um acontecimento fora dos padrões do que a cidade está acostumada tem um mérito enorme. Mas caminhando com um pouco mais de “faro” pela feira, a gente começa a se perguntar algo mais além de onde é que fica o banheiro.
 
Para quem não vai de carro e entra pelo acesso principal do Centro de Convenções, ou seja, pelo térreo, começa a ter as primeiras surpresas, pois, ao sair do elevador não há um cartaz sequer sobre a localização da Feira. Nada. Nadinha. Quem vai almoçar ou jantar no “Prazeres da Carne”, por exemplo, ou trabalha em um dos andares do Centro e por algum acaso do destino pensa em dar uma passada na Bienal, vai levar um bom tempo até achar o acesso. Passados alguns minutos caminhando pela Feira se percebe que muitos stands tem basicamente os mesmos livros, a maioria, com os mesmos valores: pela bagatela de R$5,00 você pode levar “ Iracema”, Memórias de Brás Cubas”, “A Viuvinha”, “ A Moreninha”, “ O Cortiço” e uma lista variada do mais fino primor da nossa literatura colegial. Para quem não foi obrigado a ler boa parte dos títulos na escola, uma ótima opção de começar uma modesta coleção literária. Mas para quem já não agüenta mais ouvir falar na “virgem dos lábios de mel”, vai crescendo a sensação de vazio dentro da Bienal. Livros como a autobiografia de Pelé, romances de José Sarney e até um Oráculo Gay, além de outros do mais “fino” horror da nossa literatura nacional, pioram o diagnóstico.
 
Isso porque os títulos ou escritores que seriam mais interessantes para se ter acesso principalmente num evento como esse, estão dentro dos stands das maiores livrarias e a preços cobrados exatamente como se você estivesse em uma delas. Sem desconto algum. Então, qual o objetivo delas estarem lá?
 
A proposta de formar novos leitores e agregar os já consumados devoradores de letras vai se esvaindo pelos corredores repetidos com centenas de livros infantis, mangás e caça-vampiros. Uma lástima. No site da Bienal e em alguns stands há também um banner enorme homenageando Jorge Amado e Zélia Gattai, mas em nenhum deles, nenhum, há qualquer título de um dos dois escritores a um preço realmente acessível para a grande maioria. Por que não “Gabriela” a R$5,00? “Capitães de Areia” a R$5,00? Por que não os clássicos como D. Quixote, Shakespeare, José Saramago, Drummond, Clarice, a R$ 5,00? Até o “Pequeno Príncipe”- uma excelente porta de entrada para a leitura - era vendido em praticamente todos os stands a R$30,00. Um valor infelizmente inviável para muita gente que fez o sacrifício de ir até lá.
 
A boa literatura na Bienal está inacessível a quem gosta da boa leitura. E os futuros bons leitores estão à mercê de um mercado que, além de sofrer com o baixo estímulo e interesse da população pelos livros, padece também de uma sensibilidade que utilize um evento como este de uma maneira mais comprometida com o bom senso. Em uma entrevista na TV, uma das organizadoras da Bienal disse que era impossível alguém não sair de lá com um livro. Afinal, existiam muitos a R$ 1,00. Mas ela esqueceu de dizer quais livros eram esses. Provavelmente palavras cruzadas.
Eu, particularmente, fiquei muito tentada a comprar um grossíssimo calhamaço da Constituição Federal e outras coisas inomináveis da legislação de Direito só pra tirar uma onda. Custava só R$ 5,00 na promoção da Bienal! Combinei com uma amiga que a gente levaria para os botequins. Para ela, um fetiche para arranjar um bom partido, para mim pra servir pelo menos de suporte de cerveja.
 
Uma outra falha que se repete a cada edição é a insistência em fazer a Bienal em um lugar já sem condições de oferecer a estrutura que um evento deste merece. Há muito tempo o Centro de Convenções deixou de ser um atrativo no circuito de negócios da cidade. É um elefante vermelho. Com goteiras e infiltrações ainda mais evidentes no período de chuvas; as mesmas chuvas que inutilizaram diversos títulos em decorrência desta “pequena gafe”.
 
Ponto positivo para os espaços como o Café Literário e Arena Jovem, onde leitores e escritores estavam ali, “tète a tète”, discutindo, trocando ou só tomando um Red Label a um pretexto mais interessante do que só de “tomar uma”. Como diria um amigo, “Troféu Joinha” também para o espaço de alimentação, desta vez mais afastada dos stands, e à programação que trouxe ótimas mentes pensantes para a Bienal. Aliás, as atrações realmente foram o que de mais Bienal chegou perto a Bienal do Livro da Bahia.
 
Fico daqui imaginando como será a de São Paulo, Paraty... Pior só vendo. Melhor, com certeza. Mas em Sampa já são vinte edições. Aqui, nove. Taí um bom motivo pra quem já anda meio entediado de Salvador, mudar de assunto ou simplesmente voltar pra casa e virar mais uma página.
 
 
* Flávia Figueirêdo é escritora, produtora de Rádio e TV, formada em Comunicação Social pela Universidade Estadual da Bahia (Uneb).
flaviaxiv@gmail.com
 

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